A pedagogia de uma vida

Com a perspectiva da transformação da realidade, Paulo Freire continua presente em salas de aula de todo o Brasil

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Com a perspectiva da transformação da realidade, Paulo Freire continua presente em salas de aula de todo o Brasil

Por Eduardo Sales de Lima, Brasil de Fato

No dia 2, completaram-se dez anos da morte do grande educador e filósofo pernambucano Paulo Reglus Neves Freire. Obras como “Pedagogia do Oprimido”, “Educação como Prática de Liberdade” e “A Importância do Ato de Ler” tornaram Freire referência mundial, tanto para alfabetizadores quanto para intelectuais. Exilado por 16 anos durante a ditadura militar, o educador continuou a desenvolver seus escritos, baseado na concepção da educação popular, dialética e dialógica, apontando para o caráter político e emancipatório do ensino.

Freire promoveu a substituição do formato convencional das salas de aula pela distribuição dos atores em círculos e o emprego de técnicas de grupo (a conversa, o grupo de estudo) como alternativas à exposição didática, facilitando o diálogo entre os atores e problematizando os saberes já existentes.

“Ele valorizava as informações da vivência do ser humano e o seu aproveitamento para promover o próprio ser humano na dimensão social, cultural e política”, destaca a ex-prefeita de São Paulo e atual deputada federal, Luiza Erundina (PSB-SP). Ao relembrar sua infância em “A Importância do Ato de Ler”, Paulo Freire dava sinais das raízes de seu pensamento. “Fui alfabetizado no chão do quintal de minha casa, à sombra das mangueiras, com palavras do meu mundo, não do mundo maior dos meus pais. O chão foi o meu quadro-negro; gravetos, o meu giz “, diz o texto.

Educação, Transformação

“O educador é um político que se serve da ciência, por isso mesmo ele tem que ter uma opção, que é política, não é puramente pedagógica, porque não existe essa pedagogia pura” explica a educadora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Rosa Helena Dias da Silva, especialista em educação indígena.

Para Paulo Freire, “ensinar é um ato político”, por isso, no processo de criação de seu “método”, salienta que o universo vocabular do alfabetizando é o ponto partida. A partir desse universo, inicia-se o diálogo, a base do método. E é no dialogismo que se instaura o questionamento. Ao questionar a própria realidade, o educando a problematiza, cria a capacidade de criticá-la e, por consequência, transformá-la. “Como dizia Antonio Gramsci (marxista italiano), a educação precisa abordar as várias contra-ideologias da ideologia dominante. Se a educação não estiver educando alguém para a transformação, não é educação, é simplesmente uma adequação”, diz João Zanetic, professor do Instituto de Física da USP.

Segundo Paulo Freire, para romper com essa “adequação” e transformar a realidade opressora, é preciso trabalhar a palavra dentro de duas dimensões constitutivas: ação e reflexão. Sem a dimensão da ação, perde-se a reflexão e a palavra transforma-se em verbalismo. Por outro lado, a ação sem a reflexão transforma-se em ativismo, que também nega o diálogo. Para o educador pernambucano, a palavra verdadeira é práxis transformadora. Hoje, essa práxis é atualizada na ação dos movimentos sociais, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e na emancipação dos povos indígenas. “O processo de estabelecer relações políticas entre pessoas e destas, organizadas com a realidade, defendidas por Paulo Freire, é a base fundante da proposta pedagógica do MST, pois, para o Movimento, fazer uma ocupação ou construir uma escola são atividades de igual importância”, afirma o membro da coordenação nacional do MST, Ademar Bogo, no artigo “O Pedagogo da Esperança e da Liberdade”.

(Brasil de Fato)



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