Bóias-frias sofrem duas vezes mais fome que sem-terra

Assentados de reforma agrária têm quatro vezes mais segurança alimentar do que trabalhadores do agronegócio.

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Assentados de reforma agrária têm quatro vezes mais segurança alimentar do que trabalhadores do agronegócio.

Por Daniel Merli, Juliane Sacerdote e Wellton Máximo, da Agência Brasil 

A reforma agrária tem um impacto positivo na saúde do trabalhador rural. A hipótese, que deixou o biólogo Fernando Ferreira Carneiro obcecado “por mais de dez anos”, foi comprovada na prática por suas pesquisas para a tese de doutorado A saúde no campo: das políticas oficiais à experiência do MST e de famílias bóias-frias.

Para averiguar se sua idéia correspondia à realidade, Fernando Ferreira buscou um cenário em que eram vizinhos “um projeto de reforma agrária e um projeto de agronegócio”. O município Unaí, noroeste mineiro, foi o local encontrado pelo biólogo. Lá, Fernando Ferreira pôde comparar a qualidade de vida de bóias-frias que trabalham na lavoura de cana-de-açúcar com famílias de sem-terra, acampados de forma precária, e agricultores assentados pela reforma agrária.

“Os próprios números comprovam que a segurança alimentar dos sem-terra é quatro vezes melhor que a dos bóias-frias”, afirma. Em sua pesquisa, entrevistou 202 famílias desses três diferentes públicos. A pergunta era se alguém havia enfrentado dificuldades de alimentação nos últimos três meses. O resultado mostra que uma em cada dez famílias dos assentamentos rurais afirmava ter passado fome. O volume crescia para 20% no caso de pessoas que vivem em acampamentos. No caso dos bóias-frias, esse índice dobra: 40%.

Nos acampamentos e assentamentos, a chave para a melhor alimentação dos trabalhadores é a diversificação da produção e o sistema de decisões coletivas. “A gente não pode deixar todo mundo produzir uma só coisa para depois ter de comprar alimentos”, justifica Sérgio Oliveira Nunes, do Acampamento Índio Galdino.

Já no cotidiano dos bóias-frias, não há diversidade da produção. Para dar conta de um dia de trabalho na monocultura canavieira, recorrem a alimentos gordurosos e ficam mais propensos a sofrer de hipertensão. Dores na coluna e estresse são outros problemas de saúde vividos por esses trabalhadores.

O convívio com agrotóxico é, também, causa de doenças, segundo agentes de saúde de Unaí. “Dentro do ônibus, o cheiro é forte e às vezes nem dá para respirar”, relata o bóia-fria Geraldo Lourenço da Silva, 69 anos.

A pesquisa, segundo Fernando Ferreira, mostra a necessidade do governo federal fazer reforma agrária. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse hoje (3) que a reforma agrária é uma questão inquietante, já que o governo não teria recursos para comprar a terra e dar condições adequadas de produção simultaneamente.

(Agência Brasil)



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