Limpar agrotóxico do corpo é última tarefa em um dia de bóia-fria

Dentro do ônibus, o cheiro é forte e às vezes nem dá para respirar”, relata o bóia-fria Geraldo Lourenço da Silva, 69 anos. “A gente até sente o veneno queimando no corpo.”

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Dentro do ônibus, o cheiro é forte e às vezes nem dá para respirar”, relata o bóia-fria Geraldo Lourenço da Silva, 69 anos. “A gente até sente o veneno queimando no corpo.”

Por Wellton Máximo, Agência Brasil

Unaí (MG) – Depois de um dia na lavoura, os bóias-frias têm mais um trabalho antes de deitarem na cama. Ao chegarem em casa no final da tarde, eles não podem se recuperar da jornada que começou de madrugada sem antes tomarem um banho para retirar os resíduos de agrotóxicos. “Dentro do ônibus, o cheiro é forte e às vezes nem dá para respirar”, relata o bóia-fria Geraldo Lourenço da Silva, 69 anos. “A gente até sente o veneno queimando no corpo.”

A realidade de Geraldo ilustra o estudo do biólogo Fernando Ferreira Carneiro, em doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ele analisou as condições de vida de membros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que vivem em assentamentos e acampamentos na região de Unaí, no noroeste mineiro, e comparou com a rotina dos bóias-frias. Na pesquisa, o especialista concluiu que esses últimos trabalhadores são os mais prejudicados pela exposição aos agrotóxicos.

A diferença é considerável. Enquanto a pesquisa constatou que 30% dos sem-terra apresentavam sinais de contaminação por pesticidas e herbicidas, o índice chegou a 85% entre os bóias-frias. “É possível concluir que o bóia-fria corre quase três vezes mais risco que o sem-terra”, afirma Carneiro. Apesar de trabalhar há 20 anos como bóia-fria e sentir os efeitos dos agrotóxicos, Geraldo não sabe se sofre de problemas de saúde provocados pelo contato prolongado com os mais diversos tipos de veneno. “Pelo menos ainda tenho forças para seguir em frente”, resigna-se.

O desconhecimento de Geraldo é comum entre os bóias-frias, segundo a agente comunitária Maria Patrícia Menezes, que atua com bóias-frias no bairro Mamoeiro, periferia de Unaí. “Como a maioria não vai ao médico, muitos podem estar com problemas sérios e nem saberem”, adverte.

A exposição aos defensivos não traz prejuízo apenas para a saúde dos bóias-frias. “Em muitos casos, a auto-estima fica tão comprometida que nem conseguem se organizar”, avalia Fernando Ferreira.

Morador do Assentamento Rural Menino Jesus, a 90 quilômetros de Unaí, Antônio Cardoso de Matos, 40 anos, é ex-bóia-fria. Para o agricultor, a vida melhorou depois que ele entrou no MST e conseguiu o terreno após o movimento ocupar a área. Antonio, no entanto, lamenta que vários familiares não tenham encontrado o mesmo destino. “Tenho vários primos que ainda colhem feijão e estão doentes, sem força nem para lutar por melhores condições de trabalho”, constata.

(Agência Brasil)



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