Crise econômica leva territórios palestinos ao abismo

Desde 1999 até 2006, o produto interno bruto por habitante dessa região ocupada diminuiu 40%. Sete em cada 10 lares, cerca de 2,4 milhões de habitantes, vivem atualmente na pobreza, diz o informe da Organização Internacional do Trabalho (OIT)

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Desde 1999 até 2006, o produto interno bruto por habitante dessa região ocupada diminuiu 40%. Sete em cada 10 lares, cerca de 2,4 milhões de habitantes, vivem atualmente na pobreza, diz o informe da Organização Internacional do Trabalho (OIT)

Por Gustavo Capdevila, da IPS 

Os trabalhadores dos territórios árabes ocupados por Israel sofrem outro ano de drástica queda em seus níveis de vida e de aumento da pobreza, do desemprego, da desintegração social e da desordem política, afirma a Organização Internacional do Trabalho em seu último informe nessa região. O número de lares que vivem abaixo da linha de pobreza aumentou 26% entre março de 2006 e março deste ano, período examinado pelas missões de alto nível que a OIT enviou em abril aos territórios árabes ocupados.

Desde 1999 até 2006, o produto interno bruto por habitante dessa região ocupada diminuiu 40%. Sete em cada 10 lares, cerca de 2,4 milhões de habitantes, vivem atualmente na pobreza, diz o informe, que será examinado em suas sessões a partir de hoje até 15 de junho pela Conferência Internacional do Trabalho, máxima instância da OIT. Somente uma em cada três pessoas trabalha e com sua renda mantém outras seis. Aproximadamente 206 mil estão desempregadas, o equivalente a 24% da força de trabalho. Além disso, duas em cada três pessoas não têm emprego, seja porque figuram entre as desempregadas ou porque diretamente não fazem parte da força de trabalho.

À luz dos dados recolhidos pela missão da OIT, seu diretor-geral, o chileno Juan Somavía, considerou que a situação dos moradores da área é desesperadora. A violência não acabou e continua afetando tanto civis palestinos quanto israelenses, mas com muitos diferentes graus de intensidade, afirmou. Somavía destacou que a atividade econômica diminuiu de maneira drástica, o que aumentou a pobreza, o emprego precário e o desemprego. As empresas encontram cada vez mais dificuldades para funcionar por causa da alta dos custos logísticos, ressaltou.

Outros dados da situação na zona mostram que os trabalhadores e as famílias enfrentam uma queda das oportunidades de emprego e pagamento irregular de salário. O diretor-geral da OIT enfatizou três aspectos: as permissões nos postos de fronteira marcam a vida diária, o governo palestino tem de brigar com uma forte redução dos recursos e os confrontos entre setores políticos complicam ainda mais a situação. Os 40 anos de ocupação israelense da margem ocidental do rio Jordão, incluída Jerusalém oriental, a faixa de Gaza e as Colinas de Golan sírias, não são a única causa da atual deterioração da região, diz o informe. Também influi uma série de medidas tomadas após as eleições que provocaram a mudança de governo na Palestina em março de 2006, afirmou Somavía.

As eleições legislativas de janeiro de 2006 deram a vitória ao Movimento de Resistência Islâmico (Hamas), uma força mais radical em sua oposição a Israel e aos governos ocidentais que apóiam esse país. O partido secular Al Fatah, mais moderado, manteve a chefia da Autoridade Nacional Palestina, que conserva desde 1994. Desde então, o embargo financeiro imposto pela comunidade internacional à ANP teve efeitos devastadores para o povo e a economia palestinos, afirmou a OIT.

A isso somaram-se a retenção por Israel da renda com tributos e taxas aduaneiras palestinos, o que causou uma perda de divisas mensal estimada, em média, em US$ 60 milhões, e a suspensão do apoio orçamentário direto dos doadores ocidentais. No total, esses aspectos determinaram uma perda de 50% da renda do governo palestino. Um terceiro fator foi a imposição de novas restrições rigorosas à mobilidade de pessoas e mercadorias palestinas, que reduziu ao mínimo o funcionamento da economia desses territórios. O acesso aos mercados para os palestinos, tanto dentro quanto fora dessa zona, está rigidamente controlado pelas Focas de Defesa de Israel.

Somavía afirmou que a causa imediata da difícil situação social e econômica é o sistema dominante de barreiras e controles, incluído o muro de separação, estabelecido por Israel. Esta proteção estão causando ao mesmo tempo insegurança econômica e social para a população desses territórios, acrescentou. O dirigente da OIT refletiu que uma situação de prosperidade e segurança, por um lado, e de ocupação militar, pobreza e insegurança, por outro, é muito perigosa para os dois lados e não é sustentável. A OIT estima que a ANP, os doadores internacionais e Israel deveriam tentar apoiar os empresários e trabalhadores para consolidar as empresas, incentivar novos investimentos e diversificar a economia.

Dessa maneira se contribuiria para fomentar a segurança de palestinos e israelenses, bem como aproximar-se de uma solução negociada e duradoura do conflito, afirmou Somavía. A redução e supressão dos obstáculos à circulação das pessoas e mercadorias nos territórios, entre Gaza e a margem ocidental com o mundo exterior, mas garantindo a segurança em Israel, é a mais importante das medidas que poderiam ser tomadas para fazer retroceder a crescente crise econômica e social dos territórios ocupados, recomenda o documento da OIT.

O informe alerta que o tecido social dos territórios ocupados suporta a pressão de um alto nível de desemprego persistente, sobretudo entre os jovens, e níveis de pobreza e violência sem precedentes, incluída a deterioração do império da lei e da ordem. A população palestina, que continua tendo um rápido crescimento de 2,8% ao ano, se caracteriza por ser muito jovem, pois 46% dos seus 2,4 milhões de habitantes têm menos de 14 anos.

 

Envolverde/ IPS



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