Hércules 56: luta armada no Brasil revisitada

Documentário toma como ponto de partida o avião que levou 15 presos políticos do Brasil para o México para discutir a luta armada no Brasil na Ditadura Militar. Estréia do filme que leva o nome da aeronave, é nesta sexta, 11.

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Documentário toma como ponto de partida o avião que levou 15 presos políticos do Brasil para o México para discutir a luta armada no Brasil na Ditadura Militar. Estréia do filme que leva o nome da aeronave, é nesta sexta, 11.

Por Brunna Rosa

Em 1969, o embaixador norte-americano Charles Elbrick é seqüestrado por um grupo de guerrilheiros urbanos de duas vertentes da esquerda no Brasil, Dissidência da Guanabara (DI-GB), que idealizou a ação e passou então a adotar a sigla MR-8, e Ação Libertadora Nacional (ALN). Em troca do diplomata, foi exigida a divulgação de uma manifesto revolucionário e a libertação de 15 presos políticos, representantes, à época de todas as tendências políticas que combatiam a ditadura.

O documentário Hércules-56 traz o depoimento dos 15 presos políticos, destes apenas nove encontram-se vivos. Em entrevistas individuais, relatam as condições de atuação política no final dos anos 1960, a prisão, a libertação, a curta permanência no México e o período vivido em Cuba, terminando por avaliar a experiência da luta armada no Brasil. O documentário traz, também, depoimentos de idealizadores da ação como: Franklin Martins, atual ministro das Comunicações, Cláudio Torres e Daniel Aarão Reis.

Em entrevista a Fórum, Silvio Da-Rin conta as motivações para produção de Hércules-56 e o extenso processo de pesquisa. Ao falar sobre o filme, Da-Rin diz com ele propor representar o passado sem travas de amargura ou nostalgia.

FÓRUM- Por que filmar Hercules 56?

SILVIO DA RIN – Este filme concerne a experiências pessoais da minha juventude e à memória da minha geração. Eu tinha 19 anos quando o embaixador Elbrick foi raptado e acompanhei com grande interesse o desenlace da ação. Eu vinha de uma intensa participação no movimento estudantil de 1968 e, na época, militava em uma organização de esquerda armada. Passados quase 40 anos, achei que estava na hora de reunir em um documentário algumas pessoas que empenharam suas vidas no enfrentamento do regime militar. Em vez de escolher arbitrariamente os personagens, resolvi fixar-me na ação armada de maior repercussão daquele período: o seqüestro de Charles Elbrick. Isso me proporcionou uma lista de 15 ex-presos políticos libertados em troca do diplomata. Eles eram representantes de diversas organizações, com idades variadas, oriundos de diferentes regiões do país. Resolvi, também, promover a reunião de alguns dos idealizadores da ação. Meu objetivo foi rememorar um período relativamente recente da história do Brasil, mas desconhecido por grande parte da juventude atual. Procurei fazer esta representação do passado sem nenhuma trava de amargura ou nostalgia. Acho que todos os personagens compartilham este viés: são autocríticos, mas não renegam seu passado.

FÓRUM- O documentário preenche uma lacuna, sobre o tema, deixada pelo filme “O que é isso companheiro” que apesar de ser classificado como ficção muniu-se de fatos reais e controversos?

DA RIN – Ficção e documentário atingem o espectador de modo muito distinto. Acho que a minisérie “Anos rebeldes”, da TV Globo, e o filme do Bruno Barreto, contribuíram para recuperar um pouco da atmosfera daquela época. Mas, do ponto de vista estritamente histórico, possuem grandes limitações. Não sei se estou propriamente “preenchendo uma lacuna” deixada por “O que é isso, companheiro?”. Mas tenho convicção de que são insubstituíveis as fabulações e autocríticas feitas diretamente para a câmera por aqueles que viveram os fatos, sem a mediação da ficção.

FÓRUM – Como foi o processo de pesquisa para o documentário?

DA-RIN – Começamos a pesquisar documentos históricos no primeiro semestre de 2005. Levamos pouco mais de um ano reunindo imagens e sons do período. Conseguimos, em arquivos de agências jornalísticas norte-americanas, imagens da chegada dos banidos ao México, que nunca haviam sido editadas numa mesma sequência; o ICAIC, em Havana, contribuiu com entrevistas feitas com os brasileiros em outubro de 1969; um brasileiro residente em Paris nos cedeu uma filmagem inédita feita em 1979, onde aparecem diversos dos personagens; descobrimos imagens nos arquivos da polícia política mexicana; e outros materiais foram obtidos junto a familiares de personagens, colecionadores e instituições brasileiras, como Arquivo Nacional, Cimemateca Brasileira, Cinemateca do MAM-RJ, Cedem da Unesp e Arquivo Público de São Paulo.



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