Operação Navalha criou clima de “tensão” entre políticos e empresários

Tão logo a Polícia Federal começou a revelar os laços de "intimidade" do dono da empreiteira Gautama com os círculos do poder, um clima de nervosismo passou a dominar os corredores do Congresso e os gabinetes do governo federal e de muitos governos estaduais...

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Tão logo a Polícia Federal começou a revelar os laços de “intimidade” do dono da empreiteira Gautama com os círculos do poder, um clima de nervosismo passou a dominar os corredores do Congresso e os gabinetes do governo federal e de muitos governos estaduais e prefeituras. E não só nas esferas de governo, mas também nos escritórios de muitas empreiteiras, o clima é de apreensão. Isso porque ninguém, nem mesmo a Polícia Federal, sabe até onde as investigações irão chegar

Por Cláudio Gonzalez, Vermelho

A Operação Navalha, deflagrada pela Polícia Federal na última quinta-feira (17), não resultou apenas na prisão de 47 pessoas. A operação, que investiga desvio de verbas e favorecimentos envolvendo obras públicas, provocou também um grande reboliço nos meios políticos e empresariais.

Entre as 47 pesoas presas durante a operação, pelo menos uma dezena é de políticos e ocupantes de cargos de confiança em órgãos governamentais. Outros tantos são empresários, entre eles o empreiteiro paraibano Zuleido Veras, dono da construtora Gautama, pivô do escândalo.

Segundo relatos recentes de Zuleido a políticos, a Gautama já administra obras federais e de governos estaduais que somam R$ 1,5 bilhão. Esse valor não significa o faturamento da empresa, mas a expectativa de realização de obras.

Para conseguir a liberação desses recursos públicos, Zuleido tem estratégia própria: não é empresário ligado a este ou aquele partido, mas um “homem de negócios” que se relaciona com quase todos as legendas partidárias.Tanto é assim que as prisões e mandados de busca e apreensão realizados na Operação Navalha atingiram gente do PMDB, PT, PSB, PDT, PSDB, DEM (ex-PFL) e PPS.

Zuleido é um homem que gosta de contar vantagens para impressionar seu interlocutor. A frase preferida dele é: “Ali eu mando”. E cita, na seqüência, um político ou autoridade. Também gosta de afirmar: “Eu sou íntimo de fulano”.

E é justamente por causa desta “intimidade” com os círculos do poder que, desde quinta-feira, nos corredores do Congresso, nos gabinetes do governo federal e de muitos governos estaduais e prefeituras sente-se a tensão no ar. E não só nas esferas de governo, mas também nos escritórios de muitas empreiteiras o clima é de apreensão. Isso porque ninguém, nem mesmo a Polícia Federal, sabe até onde as investigações irão chegar.

Pelo que a polícia descobriu até agora, Zuleido corrompeu pelo menos 32 agentes públicos com dinheiro, presentes, viagens e outros tipos de suborno para garantir ou acelerar a liberação das verbas que sustentavam a empresa.

“Doa a quem doer”

Todas as principais lideranças do governo têm afirmado que a Operação Navalha é positiva e ajuda a afastar os maus elementos da administração pública e das esferas de poder. O próprio presidente Lula afirmou que operações como essa devem ser incentivadas “doa a quem doer”.

Mas, segundo informações de bastidores obtidas pelo jornalista Josias de Souza, até mesmo o presidente tem manifestado preocupação com os desdobramentos da operação. “Municiado de informações pelo ministro Tarso Genro (Justiça), Lula se diz ‘preocupado‘ com os desdobramentos da Operação Navalha. Receia que o novo escândalo volte a conferir ao Congresso ares de ‘delegacia de polícia‘, envenenando uma pauta de votações que ainda inclui medidas privisórias do seu PAC.”, especula o jornalista em seu blog.

Esta anunciada tensão justifica-se. A crise política de 2005-2006 cujo epicentro foram as denúncias sobre o chamado –e até hoje não comprovado–“mensalão” deixou uma triste memória. Por coincidência ou não, foi também na segundo quinzena de maio, mais precisamente em 16 de maio de 2005, que a revista “Veja” publicou a reportagem com o “homem-chave do PTB” Maurício Marinho, chefe do Departamento de Contratação e Administração de Materiais dos Correios, que acabou detonando a maior crise do governo Lula.

Nas denúncias que se seguiram, surgiram dezenas e dezenas de nomes que a imprensa transformou em suspeitos e contra muitos dos quais nunca se provou nada. Ainda assim, são expostos até hoje a situações de constrangimento.

O mesmo ocorreu com as denúncias oriundas da Operação Sanguessuga – aquela que detonou o escândalo do uso de recursos públicos para a compra e venda superfaturadas de ambulâncias destinadas a prefeituras – em que muitos nomes foram denunciados mas poucas provas foram encontradas.

No caso da Operação Navalha, a situação pode se repetir. Afinal, Zuleido está para a Operação Navalha assim como Luiz Antônio Vedoin esteve para a Operação Sanguessuga e dependerá dele abrir ou não a “caixa de pandora” das obras financiadas com dinheiro público.

Até o momento, a PF diz ter encontrado uma lista com o nome de governadores, prefeitos e grande número de parlamentares federais e estaduais, entre os quais pelo menos três senadores. Ao lado dos nomes aparecem valores e anotações que poderiam sugerir o envolvimento deles com os esquemas da Gautama. Também já circulam pela imprensa o nome de outras três empreiteiras que supostamente estariam usando os mesmos expedientes da construtora de Zuleido.

Mas entre ter o nome numa lista e estar efetivamente envolvido em práticas ilícitas existe um abismo de diferença.

O problema é que boa parte dos editores que atuam na chamada “imprensa grande” estão mais preocupados em vender escândalos do que propriamente apurar as denúncias.

E é esse comportamento da imprensa que mais assusta políticos e empresários que em algum momento tiveram relações diretas ou indiretas com os personagens envolvidos no escândalo deflagrado pela Operação Navalha.

Em texto publicado no site Conversa Afiada, o jornalista Paulo Henrique Amorim chega a brincar com a situação. Depois de listar quase uma dezena de grandes construtoras que estão “sob suspeita”, ele provoca: “Qual será o(a) primeiro(a) político(a) brasileiro(a) suficientemente macho para subir à tribuna da Câmara ou do Senado e pedir para abrir uma CPI da empreitagem nacional?”

Vermelho



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