“Lula não tem coragem de enfrentar o latifúndio”, diz Gilmar Mauro

Membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no 5º Congresso da entidade, em Brasília, diz que Lula se aproximou do agronegócio e se afastou da reforma agrária

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Membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no 5º Congresso da entidade, em Brasília, diz que Lula se aproximou do agronegócio e se afastou da reforma agrária

Por Daniel Merli

Gilmar Mauro, membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no 5º Congresso da entidade, em Brasília, diz que Lula se aproximou do agronegócio e se afastou da reforma agrária.

O 5º Congresso do MST, o maior já organizado pela entidade com 18 mil pessoas, é o primeiro que o movimento organiza do começo ao fim. Os próprios militantes e profissionais do MST fazem segurança, comunicação interna, atendimento de enfermagem, produção artística, comida e o documentário sobre o encontro. Nada foi terceirizado, como em outros anos.

Além das preocupações de envolver o movimento com todo o congresso, a pauta também se ampliou. Com o lema “Reforma Agrária, por Justiça Social e Soberania Popular”, o 5º Congresso quer pensar não só a criação de assentamentos. Mas como construir um país em que os assentados possam produzir e sobreviver.

Na entrevista à Fórum, além de falar sobre a relação com o governo, Gilmar Mauro explica ainda quais são as propostas para esse novo modelo de reforma agrária proposto pelo movimento.

FÓRUM – O 5º Congresso do MST começou com uma mística em que se encenava o casamento do latifúndio com o neoliberalismo. O juiz do casamento era um boneco barbudo. Como está a relação com o governo Lula?
MAURO –
O governo Lula aproximou-se de maneira evidente do agronegócio. Ele não tem coragem de enfrentar o latifúndio. Foi ele que se afastou da reforma agrária, não nós dele.
Então continuamos trabalhando na nossa lógica, que é de mobilizar para pressionar. Apesar de termos votado em Lula, como eleitores, nunca fizemos mobilização em favor dele. Até porque não queríamos ser cooptados.
Nunca nos iludimos que só um presidente fosse capaz de, sozinho, fazer a reforma agrária no Brasil. Mas é óbvio que esparávamos mais dele.
Agora, há avanços. O governo federal não criminaliza mais os movimentos sociais. Lula sabe que não vai acabar com um problema social, acabando com o movimento social. Que, enquanto não houver reforma agrária, vai haver MST. Ele entende essa realidade melhor que o sociólogo Fernando Henrique.
Mas, apesar dessa compreensão melhor, Lula não avança na solução dos problemas.

FÓRUM – Durante o 5º Congresso, o MST vai concluir um Programa Agrário, que vem sendo discutido há dois anos nas bases do movimento.Quais os principais pontos desse programa?
MAURO –
Primeiro, ele contém uma análise da situação do campo brasileiro, entregue ao agronegócio. Depois, o documento vai apontar na direção do tipo de reforma agrária que queremos. Não só com distribuição de terras, mas com condições sociais para que o agricultor viva bem no campo. E essas condições só são possíveis com outro modelo de desenvolvimento para o país, que não seja apenas exporta alimentos.

FÓRUM – Como a idéia da agrovila se enquadra nesse novo modelo?
MAURO –
A agrovila já é uma realidade. Já existe em São paulo e outos estados, em assentamentos do MST. Ela tem três princípios: produção agroecológica, uso de recursos renováveis como energia solar e biodiesel, e uma unidade, no centro da agrovila, de convívio social. A produção agrícola acontece em torno do centro, onde vivem as pessoas e há formas de convívio social, como teatro, igrejas, escolas.
Mas esse modelo não pode ser forçado, vir de cima para baixo. O MST está apresentando e os assentamentos que querem, estão aplicando. Mas queremos também que seja uma política incentivada pelo Incra.



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