“A maioria dos mortos não era de traficantes”, diz ativista

Sandra Ribeiro, diretora da ONG Justiça Global, fala sobre sua visita na manhã desta quinta-feira ao Complexo do Alemão. Segundo ela, a maioria dos 19 mortos era de pessoas sem relação com o tráfico. Apesar de a proximidade do Pan ter acirrado a estigmatização...

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Sandra Ribeiro, diretora da ONG Justiça Global, fala sobre sua visita na manhã desta quinta-feira ao Complexo do Alemão. Segundo ela, a maioria dos 19 mortos era de pessoas sem relação com o tráfico. Apesar de a proximidade do Pan ter acirrado a estigmatização da pobreza pela política do governo, essa linha já vinha sendo adotada há muito tempo

Por Anselmo Massad

Foto: Sadraque Santos/Imagens do Povo Sandra Ribeiro, diretora da ONG Justiça Global, fala sobre sua visita na manhã desta quinta-feira ao Complexo do Alemão. Segundo ela, a maioria dos 19 mortos era de pessoas sem relação com o tráfico. Apesar de a proximidade do Pan ter acirrado a estigmatização da pobreza pela política do governo, essa linha já vinha sendo adotada há muito tempo.

Na visita, apenas algumas viaturas da Força Nacional estavam nas entradas do Complexo, apesar de a polícia estadual ter sido a responsável pela ação que resultou na morte de 19 e 13 feridas, contabilizadas até agora. Segundo Sandra, os moradores temem que outras vítimas podem estar espalhadas pela comunidade ou na área de mata. Os relatos apontam para abusos dos policiais.

Segundo a polícia, o objetivo da ação da manhã de quarta-feira era desmantelar uma quadrilha de traficantes localizada no Complexo. Foram 700 policiais na megaoperação.

FÓRUM – Como a senhora vê a ação de quarta-feira da polícia no Complexo do Alemão?
SANDRA RIBEIRO –
Pela manhã de hoje [quinta-feira], a Justiça Global esteve com o Afro Reggae no Complexo do Alemão. Andamos por várias ruas da comunidade, ouvindo moradores. A primeira impressão foi que não tem mais polícia. Na entrada, havia policiais da Força Nacional, mas no resto da comunidade nada. Conversamos com muitos moradores e pegamos relatos. Muitas residências foram atingidas por balas, em outras, policiais entraram e agrediram verbal ou fisicamente os moradores. Uma menina de 13 anos foi baleada na perna. Estabelecimentos comerciais foram saqueados, segundo os moradores, pela polícia. Os oficiais teriam tomado refrigerante, cerveja. Em outro, uma perua foi retirada e incendiada. Ao que consta, foi retirada para descer com corpos do alto da comunidade. Vários carros tiveram os vidros quebrados. Há relatos de mortes a facadas pelos policiais, o que ainda não se confirmou, mas pudemos ver, em uma residência, marcas de faca cravadas num armário. Uma casa foi destruída por uma granada. Em diversos locais da comunidade, vimos marcas no sangue que sugerem corpos arrastados. A informação que colhemos é de que, entre os mortos, estão alguns traficantes, mas a maior parte não tinha envolvimento com o tráfico. Relatam que haveria crianças mortas. Disseram que não daria para saber o número de vítimas, porque suspeitam que haja corpos dentro da comunidade ou na mata. No mínimo os 19.

FÓRUM- Uma relação quase inevitável é com a proximidade dos Jogos Pan-Americanos. Essa operação é decorrência disso?
SANDRA-
Pode haver, mas veja: a política de segurança em curso não faz sentido, optou pelo confronto em detrimento de postura de entendimento. É uma política criminalizadora e estigmatizadora da pobreza. As falas do secretário de Segurança [José Mariano Beltrame] têm mostrado isso. Diz ele que “esse é o remédio”, que “é amargo mesmo”, que “para fazer bolo é preciso quebrar ovos”… Mas em Copacabana, Ipanema os ovos não podem se quebrar. Ele associa a criminalidade à pobreza. É um discurso que está nos jornais. O Pan não tem relação com ocupação do Complexo, em que há entradas pontuais na comunidade que resultam em pessoas feridos, crianças e idosos, mas poucas prisões de traficantes, nenhuma prisão ou apreensão de vulto. Ontem, apresentaram armas e drogas, mas não se filmou o momento em que isso foi localizado nem o contexto. É uma política com alto custo social. Desde 2 de maio, os postos de saúde não funcionam, tem creche e escola fechadas, trabalhadores estão ameaçados de perder o emprego por não conseguir chegar no Complexo ou sair dali. Como se o crime só se organizasse em locais pobres. Não falam da corrupção, de como as armas chegam aos morros. Isso a sociedade precisaria discutir e não aceitar essa hipocrisia. Ninguém pode achar que é esse tipo de política que vai trazer segurança para o cidadão e acabar com redes criminosas.
O Pan trouxe um acirramento da situação, com a retirada dos moradores de rua das vias públicas já verificada, de restrição de deslocamento de comunidades próximas aos locais dos jogos onde será exigido credenciamento. Mas a situação vem de longo tempo. Em outubro do ano passado, várias organizações foram ao Complexo denunciar em ocupação que tinha resultado em estabelecimentos comerciais alvejados ou destruídos. É algo que vem crescendo.

FÓRUM- A operação foi realizada pelas Forças Nacionais ou pela polícia estadual?
SANDRA-
As inforamçõs que temos, inclusive as que estão nos jornais, dizem que a operação foi realizada pelas forças policiais do Rio com apoio da Força Nacional. Quando estivemos no complexo do alemão, não vimos nenhum carro da polícia do Rio de Janeiro, só da Força Nacional. E não dentro da comunidade, mas nas entradas.



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