Ciência ignora a Aids na mulher, afirma indicada para o Nobel

Na América Latina as mulheres sempre estão um passo atrás, e a Aids mostra esta disparidade de forma cruel, afirma nesta entrevista a ativista soropositiva Patricia Pérez. A ciência não estuda como a Aids afeta...

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Na América Latina as mulheres sempre estão um passo atrás, e a Aids mostra esta disparidade de forma cruel, afirma nesta entrevista a ativista soropositiva Patricia Pérez.

A ciência não estuda como a Aids afeta o organismo das mulheres nem quais impactos têm sobre elas os medicamentos anti-retrovirais, afirmou ao Terramérica a ativista argentina Patricia Pérez, indicada para o prêmio Nobel da Paz. Esse desconhecimento se deve ao fato de as mulheres continuarem invisíveis nos sistemas de saúde, disse Pérez, que aos 24 anos recebeu o diagnóstico de HIV (vírus da deficiência imunológica humana, causador da Aids) e uma previsão de vida de dois anos.

Isso foi há duas décadas. Apenas se começava a falar da Aids, e Pérez chorava sem saber o que fazer. Separada e com um filho, quando se recompôs, fez contato com outras pessoas em igual situação de angústa e criou um grupo de voluntários no Hospital Muñiz, de Buenos Aires, para atender suas necessidades. Cinco anos depois, participou, em Londres, de uma manifestação de dez mil afetados pelo HIV e sentiu que já não estava sozinha. “Não podia projetar em anos, mas comecei a pensar nos próximos meses”, recordou.

Aos 30 anos, ajudou a fundar, em Amsterdã, a Comunidade Internacional de Mulheres Vivendo com HIV/Aids (ICW, sigla em inglês), que tem oito mil integrantes em 57 países. Agora coordena sua filial latino-americana. Em 2003, foi convocada pelo então secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan, para o acompanhamento dos acordos da Assembléia Extraordinária das Nações Unidas sobre Aids, de 2001, como uma das 15 pessoas com mais experiência no mundo sobre o assunto.

Este ano, foi indicada para o Nobel pela primeira-dama de Honduras, Xiomara Castro, para tornar visível um problema que afeta 19 milhões de mulheres em todo o mundo. O governo argentino apóia sua indicação.

– Como era sua vida antes da Aids?

PATRICIA PÉREZ – Era professora do ginásio e trabalhava na municipalidade de Buenos Aires.

– Como soube que tinha o vírus?

PÉREZ – Meu companheiro na época tinha um resultado positivo. Dei voltas por seis meses até que fiz o exame. Nessa época não se diferenciava o vírus da Aids, se falava da “peste rosa”, associando a doença principalmente aos gays. Pensava que o exame estava errado porque eu me sentia bem.

– Como sua vida mudou desde então?

PÉREZ – A situação-limite nos faz mudar. A comoção e a paralisia passam e se começa a viver o melhor possível. Primeiro comecei a trabalhar por mim. Decidi que não ficaria esperando a morte. Queria entender o que se passava, falar com pessoas em situação igual à minha, ver quais os problemas que enfrentávamos. O pessoal da saúde, por exemplo, não estava preparado. Você estava em uma sala de espera do hospital e uma enfermeira dizia: “A pessoa que tem Aids, por favor, venha por aqui”, e o sangue da gente gelava. Ao sentir essa agressão, procurava fazer coisas para mudar essa realidade.

– Quais problemas as mulheres com HIV enfrentam?

PÉREZ – As políticas de saúde não têm perspectiva de gênero. Não há estudos específicos sobre como o vírus e os tratamentos afetam nosso organismo em particular. Temos questões hormonais, do aparelho reprodutivo, maior predisposição a certos tipos de câncer, e tudo isso apenas se começa a conhecer agora, por nossa pressão. Até há pouco tempo, exigia-se que não tivéssemos filhos. Se a mulher engravidada era criminosa. Estes problemas têm a ver com uma questão cultural que a Aids coloca em destaque. Na América Latina, as mulheres sempre estão um passo atrás, e a Aids mostra essa disparidade de forma cruel.

– Quais são os desafios da ICW Latina?

PÉREZ – Acompanhar as mulheres desde o diagnóstico, respeitar seus tempos e ajudá-las a se capacitarem. E isto não implica apenas saber como usar um preservativo, mas negociar com o médico o melhor tratamento, reclamar do Estado remédios de qualidade, apelar à Justiça. Há países na região onde uma mulher pode ser rejeitada em seu pedido de adoção ou discriminada para a posse dos filhos em um processo de divórcio.

– Como surgiu a idéia de organizar as meninas?

PÉREZ – Muitas companheiras têm filhas com o vírus que estão entrando na adolescência e têm suas necessidades. A Aids pediátrica quase não existe nas agendas. São muito poucas as fórmulas de tratamento e fica difícil conseguir a adesão ao tratamento. Porém, não queremos falar por elas, por isso também participam com sua própria voz.

– O que pensa da candidatura ao Nobel?

PÉREZ – Creio que servirá para nossa voz ser ouvida e para incidir nas agendas políticas mais além do circuito da Aids.

 

Mais +ICW Latina

http://www.icwlatina.org

 

Envolverde/Tierra America



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