Educando para decidir

Livrar-se da cultura do obedecer e mandar. E passar às decisões tomadas em conjunto. Esses são os principais desafios dos empreendimentos de economia solidária na opinião do educador popular Cláudio Nascimento

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Por Daniel Merli

Livrar-se da cultura do obedecer e mandar. E passar às decisões tomadas em conjunto. Esses são os principais desafios dos empreendimentos de economia solidária na opinião do educador popular Cláudio Nascimento. Para auxiliar os movimentos sociais nessa empreitada, a Secretaria Nacional de Economia Solidária deve criar uma Escola Nacional. “Ela vai servir como um laboratório, em que os movimentos vão construir os referenciais pedagógicos da formação em autogestão”, explica Cláudio, que é coordenador de Estudos e Divulvagação da secretaria.

O educador também conta como os Fóruns Sociais Mundiais promoveram a união dos empreendimentos de economia solidária no país. E como a educação pode ajudar as cooperativas a enfrentar um ambiente que é de acirramento da competição.

FÓRUM – Como a economia solidária cresceu no Brasil até ganhar o reconhecimento de ter uma secretaria nacional voltada para ela?

CLÁUDIO NASCIMENTO – É um movimento que surgiu na década de 90. Já eram feitas algumas experiências, na década de 80, com um caráter político de tentar implementar um modo de gestão socialista mesmo dentro do capitalismo. Mas, com o aumento do desemprego na década de 90, começaram a surgir algumas iniciativas, não com uma idéia clara de consciência política, mas como estratégia de sobrevivência.

Nesse período, o Paul Singer começou a escrever alguns textos sobre o tema, que foi ganhando esse nome de “economia solidária”. No governo do Olívio Dutra, no Rio Grande do Sul, foi criado um Programa de Economia Popular e Solidária. Em seguida, nos Fóruns Sociais Mundiais ocorreu uma situação engraçada. Nesses encontros, que eram internacionais, fomos ter contato com a quantidade de iniciativas que haviam no Brasil. Fomos nos conhecendo. E começamos a pensar formas de organização em rede.

Quando o Lula toma posse, em 2003, o movimento já estava mais organizado. E lembramos da situação do Chile, de Salvador Allende, em que foi criado um ministério para o cooperativismo. Lógico, era outra situação, em que um governo apontava claramente para o socialismo. Mas consideramos que essa estrutura de apoio do Estado era algo importante. Daí surgiu a Secretaria Nacional de Economia Solidária. E como a autogestão das empresas é feitas pelos trabalhadores, pensamos que essa secretaria deveria ser criada dentro do Ministério do Trabalho.

FÓRUM – E qual a importância da educação para a economia solidária?

CLÁUDIO NASCIMENTO – Nesse contexto que comentei, do governo Allende, havia uma conjuntura de disputa que formava o trabalhador na luta. Agora não existe isso. Apesar de uma parte das pessoas envolvidas com economia solidária no Brasil vir do movimento sindical e ter uma consciência política, a maioria das pessoas que participam de cooperativas hoje vem de outras áreas, de artesanato, pesca e desempregados em geral.

Mas o processo de formação dessas pessoas para a autogestão não deve ser feito de dentro pra fora. Nas cooperativas, não há dirigentes e dirigidos. Uns que planejam e outros que executam. Divisão de trabalho manual e trabalho intelectual. Então a própria execução disso é uma aprendizagem profunda para os trabalhadores.

Para dar conta disso, o movimento está criando seus processos de formação o tempo inteiro. Nós, como governo, apoiamos esse processo com políticas públicas. Para isso, criamos, inicialmente o Plano Nacional de Qualificação, já em 2003, para fazer formação política e qualificação profissional. E agora temos o projeto de criar uma Escola Nacional de Economia Solidária.

FÓRUM – Como vai ser essa escola?

CLÁUDIO NASCIMENTO – Fizemos uma avaliação este ano, para o segundo mandato do governo Lula. Consideramos que houve bastante na educação, em parceria com sindicatos, Instituto Paulo Freire e outras entidades. Mas temos medo de ter um processo educativo muito fragmentado. Para evitar isso, pensamos em criar um centro de referência para formação em economia solidária.

Os movimentos vão fazer suas atividades próprias. Mas as experiências principais vão ser trazidas para essa escola, em Brasília. Ela vai servir como um laboratório, em que os movimentos vão construir os referenciais pedagógicos da formação em autogestão.

Com isso, vai ficar claro que a economia solidária realmente abriu um campo novo na educação popular. Agora precisamos pensar os métodos específicos para isso.



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1 comment

  1. lourdes limeira

    Já é mais do que tarde fazer algo pelo estudante brasileiro. Sou professroa há 25 anos, quero deixar o meu repúdio em relação à essa educação dos dominantes.Espero que a educação dê um salto de opressiva à participativa e cidadâ pois até hoje o que vemos são vaquinhas de presépios somente a dizerem sim, sim, sim. E isso não é ser homens dignos.Está dito!

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