Especialista associa sucesso do etanol à pressão sobre cortador

Para professor que pesquisa a exaustão no trabalho na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), preço baixo do etanol brasileiro também é conseqüência de baixos salários e pressões variadas sobre os cortadores de cana-de-açúcar

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Para professor que pesquisa a exaustão no trabalho na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), preço baixo do etanol brasileiro também é conseqüência de baixos salários e pressões variadas sobre os cortadores de cana-de-açúcar

Por Beatriz Camargo

O etanol brasileiro extraído da cana-de-açúcar vem despontando no mercado internacional com preços atraentes não apenas pela eficiência da tecnologia utilizada, mas também por causa da pressão salarial sobre os trabalhadores da base da cadeia produtiva. A avaliação é do engenheiro de produção Paulo José Adissi, professor Universidade Federal da Paraíba (UFPB). “Essa maravilha de que o etanol brasileiro é ótimo, é barato, não é só por tecnologia física, é também uma tecnologia social, que extrai o sangue das pessoas”, resume o especialista em exaustão no trabalho.

De acordo com o pesquisador, o cortador de cana sofre diversos tipos de pressão para cumprir as metas de produção impostas pelas usinas e garantir um bom salário no período da safra. Isso inclui condições ruins no ambiente de trabalho – como alimentação, alojamentos e Equipamentos de Proteção Individual (EPI) inadequados. “A Cristina Gonzaga, da Fundacentro de São Paulo, mostrou na sua dissertação de mestrado como os EPIs são pouco confortáveis e as empresas não tomam cuidado para oferecer variedades de números. Se a luva está maior do que deve, por exemplo, não dá firmeza ao facão. Um facão sem firmeza vai trabalhar o tempo todo mal. Se obrigar o trabalhador a usar uma luva desconfortável, todo o trabalho fica ruim.”

Assim, o cortador tem que trabalhar “para atingir as metas, para contornar as fraudes contra ele, contornar as pressões ambientais e do próprio trabalho. A última coisa que resta é ele ultrapassar o limite [do corpo] dele”, conclui o especialista.

Sobre a oportunidade colocada pelo avanço dos biocombustíveis no mercado internacional, Paulo José vê duas conseqüências principais. Uma delas, negativa, é a busca pelo aumento da produção, que envolve a expansão da área cultivada. “Isso pode colocar em risco ambientes como a Amazônia, o Cerrado e outras áreas frágeis ambientalmente, e dificultar projetos de reforma agrária e de pequena produção familiar.”

Outra conseqüência, que ele julga poder se tornar positiva ao trabalhador, é que a pressão de um mercado mais preocupado com questões ambientais e de Direitos Humanos, como o europeu, pode engendrar melhorias na qualidade de vida do cortador. Leia os principais trechos da entrevista:

Beatriz Camargo- Por que o trabalhador realiza tanto esforço físico no corte de cana?
Paulo José Adissi –
Tudo isso é causado por uma coisa só: a pressão gerencial de elevar cada vez a produção. Para se ter uma idéia, dez anos atrás, a média de corte diária [de cada trabalhador] não chegava a seis toneladas no Estado de São Paulo, e no Nordeste não chegava a três toneladas. Hoje em SP a média está em 12 toneladas por dia e a média nordestina está perto de dez. E a cana mudou para pior, ficou mais leve, caiu de peso uns 20%. Então ele corta mais para atingir o mesmo peso. Para se conseguir atingir o patamar [de produção] atual, foi preciso dobrar a quantidade de movimentos. Como eles ganham por produção, aos trabalhadores também interessa aumentar a produtividade. Como o salário é pouco, o corte da cana é o momento de ganhar bons salários. E quem tem produtividade mais baixa não é mais contratado.

Uma empresa em Alagoas, por exemplo, usa a seguinte tática: começa a safra empregando 2 mil pessoas. Ao final do primeiro mês, informa a média de produção e determina que quem ficar abaixo da média no próximo mês será despedido. Nesse primeiro momento, mais ou menos 50% [1 mil] das pessoas acabam ficando abaixo da média. No final do segundo mês, desses mil abaixo da média, cerca de 500 alcançam a média. Os outros 500 que não conseguem atingir a média são despedidos. Na seqüência, eles lançam novas metas de produção e fazem novos cortes sucessivos. Fazem isso umas três vezes. No final, eles ficam com uma produtividade quase equivalente aos dois mil cortadores, mas trabalhando com menos de mil pessoas. Aí o gasto com pessoas, alojamento, transporte e acidentes de trabalho diminui porque tem menos gente.

A estratégia patronal para conseguir alcançar as metas cada vez maiores é oferecer soro caseiro para o cortador beber. Em algumas situações em que se percebe que a pessoa está mal, ela é levada para o ambulatório e toma soro intravenoso. Nesses casos, a pessoa toma o soro e volta para o campo. Isso costuma acontecer principalmente nas empresas maiores, que têm um sistema médico mais organizado.

A exigência de níveis maiores de produtividade é uma exigência em todos os segmentos. Qual é o diferencial do setor da cana?
Quando na teoria se fala em aumento de produtividade, que é o que todo sistema vai buscar, seja capitalista ou socialista, significa investir em alguma coisa: mudar a organização, equipamento. Na cana, não há investimento, o que tem é pressão. Ou você trabalha mais e ganha mais para sustentar sua família ou não vai ganhar nada. Ou então também não tem emprego, porque quem tem produção muito baixa não fica [na atividade]. O assalariado da cana deve estar trabalhando de cinco a dez vezes mais que os escravos [de antigamente]. Os escravos tinham uma produção pequena. A produção hoje é muito maior e, no caso de pessoas que ficam alojadas, nem sempre o alojamento e alimentação são melhores do que naquela época. É a pressão salarial que faz isso.

A demanda crescente pelo etanol no mercado internacional pode ter reflexos para o trabalhador? Esse processo tem algumas conseqüências. Primeiro a de tentar alargar a área plantada e investir em pesquisas para o aumento da produção. Isso [a expansão] pode colocar em risco ambientes como a Amazônia, o Cerrado e outras áreas ambientalmente frágeis, e dificultar projetos de reforma agrária e de pequena produção familiar.

Por outro lado, que pode até ser positivo para os assalariados da cana, é que o mercado internacional, principalmente o europeu, é mais sensível a questões de violência, trabalho infantil ou trabalho degradante. Qualquer tipo de denúncia desse tipo pode perturbar o mercado internacional do etanol. Isso pode ser uma oportunidade de se promover melhorias para os trabalhadores da cana.

Na verdade, todo esse mercado está aberto por conta do preço do etanol brasileiro. E o preço do etanol só é baixo porque as condições salariais, tanto no campo quanto na indústria, são muito ruins. Ou seja, há um certo limite aí. Se forem promovidas melhorias, elas terão que ser também salariais. E aí vai mexer nos custos do etanol. Então essa maravilha de que o etanol brasileiro é ótimo, é barato, não é só por tecnologia física, é também uma tecnologia social, que extrai o sangue das pessoas. Já tem uma série de ONGs internacionais de olho nisso, numa tentativa de tentar reduzir um pouco essa violência, tanto ambiental como social.

A mudança do pagamento por produção seria uma forma de melhorar as condições de vida do trabalhador da cana?
Seria, mas teria que mudar toda a estrutura. O trabalhador se esfola e quer ganhar mais porque ele sabe que vai ficar desempregado mais para frente, na entressafra. O safrista já vem para ganhar, quer ganhar três salários. Então teria que também ter um fixo anual, ter um emprego permanente, com estabilidade. E aí é uma outra relação, não tem mais pico de produção. Mas a usina não aceita trabalhar sem meta de produção, aí teria que se negociar que meta seria…

Mas tem mais. Não só os salários são baixos, mas a forma de medir a quantidade de trabalho em geral tem muitos problemas contra os trabalhadores. São sistemas de medição injustos, contrários aos trabalhadores e há muita fraude.

As mortes nos canaviais paulistas, que já chegam a pelo menos dezoito desde 2004, foram causadas pela exaustão, conseqüência do excesso de trabalho?
Ele [cortador] tem que trabalhar para atingir as metas, para contornar as fraudes contra ele, contornar as pressões ambientais e do próprio trabalho. A última coisa que resta é ele ultrapassar o limite [do corpo] dele. As pessoas que tem exaustão ultrapassaram seus próprios limites, o que é estranho, porque o corpo dá sinais. Começa a doer antes, as pessoas têm dores de cabeça, tonturas, tremores.

Existem até hipóteses diferentes, de que poderia ser um problema químico, o que é muito mais complicado de identificar. As usinas utilizam, antes do corte da cana, maturadores químicos, que conseguem adiantar um pouco a safra e elevar um pouco o percentual de sacarose. Existe uma hipótese de que essa interferência causa mal aos trabalhadores, mas não passa de uma especulação científica, sem comprovação nenhuma por enquanto. Ela surgiu por conta do tipo de morte. Morrer por exaustão parece mais esperado de um trabalho escravo, de um trabalho que alguém está fazendo porque tem uma chibata na frente. Quer dizer que a chibata foi substituída por essas regras todas.

Mesmo assim, fica parecendo que em algum momento o corpo daria algum outro sinal porque foi o trabalhador que ultrapassou o limite do corpo dele mesmo. É diferente de estar dentro de uma máquina em que ele tem que se mexer se não morre. Ele está dentro dessa outra máquina, que é a organização do trabalho, que é louca.



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