Novas tecnologias adentram a periferia

A apropriação das novas tecnologias, como uso de aparelhos celulares e câmeras digitais para fotografar e criar vídeos é uma realidade hoje no Brasil.

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Por Vitor Monteiro de Castro, Observatório de Favelas 

A apropriação das novas tecnologias, como uso de aparelhos celulares e câmeras digitais para fotografar e criar vídeos é uma realidade hoje no Brasil. Isso mostra certa efervescência no campo da comunicação, em especial da fotografia e do audiovisual, além da necessidade de novas iniciativas que ampliem as possibilidades de produção e divulgação destes trabalhos.
O número crescente de Lan Houses (locais que disponibilizam acesso à internet em rede) em favelas e periferias dá o tom desse novo nicho de produção audiovisual. Apenas na Maré, conjunto de favelas do Rio de Janeiro, com cerca de 130 mil habitantes, há cerca de 150 Lans, que já viraram negócio de família. Além do acesso à internet, geralmente realizam serviços de manutenção de computadores e venda de periféricos. Uma usuária, Alessandra Vargas, de 18 anos, acessa geralmente aos domingos, e segundo ela, perde a noção do tempo. “Chego a ficar três horas em MSN e Orkut. Lan House virou lazer e não é caro”. Na Maré, a maioria das Lans cobra R$ 1,00 por hora.
Na mesma Lan em que estava Alessandra, a atendente, Janaína Lima, acrescenta que além de MSN e Orkut – que seria uma febre entre os adolescentes – e sites de pesquisa, alguns jovens vão para publicar vídeos feitos com câmeras de celulares. “Tem um grupo de meninos que dança funk, que filma e vêm aqui colocar no Youtube e outros sites”, diz Janaína. O Youtube, por exemplo, tem uma média de 30 milhões de acessos diários e boa parte dos vídeos postados são feitos por aparelhos celulares.
Outro site que disponibiliza vídeos é o Curta o Curta, primeiro site brasileiro a exibir curtas metragens em streaming e a publicar notícias sobre curtas. A idéia, do jornalista Guilherme Whitaker, começou em 2000 e hoje já tem uma média de 20 mil acessos por mês. Para Whitaker, o futuro de curtas é promissor. Pra ele, daqui a alguns anos “será possível viver de fazer curtas, num mercado que começa a nascer e se organizar através de Cineclubes e da própria internet”. Em relação à produção da periferia, Withaker acrescenta que vê um “crescimento grande nos últimos anos”, muito por causa do “advento do digital e de iniciativas de organizações, cineclubes e empreendedores locais”. Para ele, um dos motivos é a diminuição dos custos de produção e de exibição.

Marcelo Yuka
Um bom exemplo do espaço que vêm ganhando as novas tecnologias, é o vídeo “O filme do filme roubado do roubo da loja de filmes”, dirigido pelo músico Marcelo Yuka e que participou da Mostra Competitiva do Festival Audiovisual Visões Periféricas. O vídeo foi filmado com câmera de celular e para Yuka foi responsável por “empurrar outras pessoas a fazerem filme”. Confira abaixo, na íntegra, entrevista com o diretor, que fala de seu vídeo, mas também de periferia e violência.
Produção da periferia hoje – Num primeiro momento,
a questão do audiovisual em favelas e periferias se Divulgação
consolidou em documentários, com as pessoas querendo mostrar o seu local, pessoas próximas. Depois veio mais para o lado profissional. Hoje as duas vertentes estão se ampliando. É muito bom ver as pessoas contando sua própria história. É mais do que alimentar a auto-estima, mas fazer pensar no ideal de convivência, de estimular o desenvolvimento da cidadania. Espero que se crie uma nova linguagem de cinema, própria desses espaços. Quando se começam a buscar alternativas de como fazer, mesmo sem muitos recursos, acaba se criando uma linguagem própria.
O filme do filme do roubo da loja –[assista o filme aqui] Este vídeo teve uma função específica, que era coroar a Companhia Brasileira de Cinema Barato e acabou tendo muita repercussão. O que é muito bom, porque está empurrando outras pessoas a produzirem filmes. Vejo um movimento crescente de produção paralelo com o número também crescente de cineclubes na cidade, principalmente nas periferias do Rio de Janeiro. Isso é necessário para mostrar que o campo do audiovisual é para todos, e não apenas para a parcela da população que tem posses.
Cineclube Carceragem – Começamos há três meses o projeto do Cineclube Carceragem, na 52º Delegacia de Polícia de Nova Iguaçu, quando fui chamado pelo delegado Orlando Zaconi para esse projeto. Começou dando certo, e agora fazemos duas exibições, de 15 em 15 dias. E o processo se alastrou, agora já temos lá uma biblioteca e a DP está em reforma, para a implantação de cursos profissionalizantes. A idéia que a 52º DP seja uma carceragem padrão, para servir de exemplo para todo o Estado. E também já fomos chamados para fazer o mesmo trabalho em Japeri.

Hoje o apelo popular é de se castigar o preso e não de potencializá-lo. Essas exibições são saídas mais inteligentes. O resultado é que a cadeia está super calma desde que começamos as exibições.

Política de Segurança Pública – Experimentamos há 500 anos a repressão e não se resolveu nada. Aumentando o poder bélico, colocamos toda a sociedade em fogo cruzado. Hoje, depois dos últimos acontecimentos, a sociedade tente a não pedir justiça, mas castigo. Isso é perigoso, porque pode oficializar idéias totalmente reacionárias e fascistas que vêem à tona nesses momentos, como a pena de morte e a redução da maioridade penal.



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