As muitas lutas de Diogo Silva

O vencedor do primeiro ouro do Brasil nos Jogos Pan-Americanos é mais do que um esportista vitorioso. É dono de uma trajetória admirável e de uma consciência política diferenciada

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O vencedor do primeiro ouro do Brasil nos Jogos Pan-Americanos é mais do que um esportista vitorioso. É dono de uma trajetória admirável e de uma consciência política diferenciada

Por Glauco Faria

Eram quase 21 horas quando o primeiro medalhista de ouro no Pan do Rio saiu de uma reunião para atender a Fórum. Com agasalho da delegação, ele sentou em uma cadeira da ante-sala e desabafou: “Estou exausto”.

Não era pra menos. Após a luta que decidiu o primeiro lugar da competição no taekwondo, na categoria até 68 kg, foi uma rotina incessante de entrevistas e compromissos. No dia da sua vitória, Diogo saiu do exame antidoping às 18 horas e até a meia-noite não parou de entrar ao vivo e fazer gravações nos mais diversos programas de televisão e rádio. Pouco tempo de sono depois, seu longo dia começou às seis e sua última entrevista foi às 11 da noite. Nem mesmo a segunda medalha do Brasil, de Thiago Pereira na natação, fez com que o assédio a ele terminasse.

Na verdade, o título pan-americano vinha sendo trabalhado desde 2006, com o lutador pensando justamente na possibilidade de tornar sua imagem mais visível em uma competição que mobilizaria toda a mídia brasileira, atraindo possíveis patrocínios. O fato de ser o ouro inaugural do país – algo que não era previsto – fez com que a projeção fosse maior que a esperada.

Mas o atleta já tinha atraído a atenção da imprensa anteriormente, na Olimpíada de Atenas, em 2004, quando conseguiu o quarto lugar, um feito histórico na competição mais importante do mundo para o esporte amador. A responsabilidade em representar o país era tamanha que fez uma vítima antes do início dos Jogos. Seriam escolhidos dois atletas na modalidade e a direção técnica tinha que decidir entre três. Mas houve uma desistência. “O atleta não suportou a pressão”, relembra. O mesmo tipo de estresse sofrido pelo lutador desistente também afetaria Diogo na sua volta dos Jogos.

No período de preparação para Atenas, ele havia passado três meses morando na Coréia do Sul, a pátria-mãe da modalidade. Foi um grão-mestre do país, Sang-Min-Cho, que introduziu o esporte no Brasil na década de 1970. Mesmo assim, Diogo avalia hoje que a quantidade de treinos foi um erro. “Eles eram excessivos e ainda tinha o choque cultural, comida diferente e a saudade de casa.” Após esse período, voltou ao Brasil e 40 dias depois estava em Atenas.

A sorte não estava do seu lado. Dos quatro favoritos, três caíram em sua chave. “Não tinha um trabalho tático, era chegar lá, lutar e ver o que dava.” Passou pela primeira luta, mas, na segunda, enfrentou o iraniano Hadi Saei Bonehkohal, que seria campeão olímpico. Como o adversário que o derrotou chegou à final, Diogo podia ir para a repescagem para tentar o bronze. Conseguiu chegar até a disputa da medalha, mas seu adversário era o sul-coreano Myeong Seob Song, um dos maiores do mundo. “A Coreia não tinha ganho nenhuma medalha até ali e tem um jogo político muito grande atrás disso. Um atleta sul-americano contra alguém de um país tradicional na modalidade pesa muito, por exemplo, na hora de validar um ponto”, sustenta Diogo. “Quando comecei, já sabia que não iria ganhar. Ele era bem mais técnico do que eu, mais bem condicionado, ali foi mais vontade mesmo.”

Mas foi após essa derrota que o brasileiro fez um gesto que repercutiu aqui e também em outros países. Protestou, pedindo apoio para os esportes amadores no país, erguendo o punho com uma luva preta. Era uma alusão à saudação típica dos Panteras Negras feita por Tommie Smith e John Carlos, respectivamente ouro e bronze nos 200 metros rasos nas Olimpíadas de 1968, no México. O gesto feito no pódio lhes rendeu o banimento da competição pelo Comitê Olímpico Internacional (COI).

Diogo Silva e o gesto dos Panteras Negras (retirado do site http://dragaoazultkd.wordpress.com)

“Não esperava ser banido”, ironiza Diogo. “Sempre fui ligado a grupos de consciência negra e era bem politizado. Pensei que o que eles fizeram foi demonstrar o que sentiam: desprezo. E era isso que sentia naquele momento. Desprezo.” A ideia era fazer o gesto no pódio, mas, prevendo a derrota, levou a luva já para a semifinal. Conseguiu chamar a atenção. “Logo depois do meu protesto, o ministro do Esporte ligou pra gente conversar”, recorda. No entanto, o momento de holofotes não durou. “Depois ninguém falava mais disso. Se você não foi campeão, não medalhou, ninguém lembra de você.”

O resultado de Diogo era histórico, sua atitude também, um diferencial em um país em que muitas das figuras públicas se escondem ou fogem da responsabilidade que carregam ou deveriam carregar.

E essa foi sua maior frustração: o fato de ninguém reconhecer a importância de seu desempenho no tatame ou de seu gesto. Ao voltar para o Brasil, no aeroporto, não havia ninguém para esperá-lo. Pegou um ônibus e seguiu para casa.

Em relação a patrocínio, alguns contatos foram feitos com ele, mas nada que fosse realmente relevante para um atleta de nível. “Eram propostas superexploradoras. Para ser explorado, preferia ficar sem nada.”

Seu calvário começaria aí. Sem recursos nem reconhecimento, e com um plano de exaustivos treinos que não consideraram o momento posterior a uma competição de alto nível como uma Olimpíada, veio a depressão. “O ano de 2005 foi terrível pra mim, perdi a maioria das competições, até torneio em que era campeão sempre, há dez anos consecutivos”, conta. Brigas constantes com a família e a namorada de então fizeram da vida do atleta algo muito diferente do que ele planejara após Atenas.

A virada veio em 2006. Diogo percebeu que precisava mudar de ares. Foi primeiro para a academia de Fábio Goulart, um dos maiores atletas da história do país, em Santos, litoral paulista. Depois se estabeleceu em Londrina (Paraná), onde boa parte de seus adversários treinava. “Por conta disso achei que seria muito mal recebido lá, mas foi justamente o contrário.” Ali começava a recuperação que o levaria à medalha deste Pan, e que abre perspectivas para uma nova chance nas Olimpíadas de 2008, em Pequim.

Golpes certeiros fora do tatame

“Eu sou esquerdista.” Quando questionado sobre sua orientação política, Diogo não hesitou. Ao contrário de muitos atletas ou outras personalidades que tergiversam, o atleta foi sucinto. “Sou muito crítico, mas tento sempre fazer a crítica pelo lado construtivo.”

As competições o afastaram um pouco da militância. “Fui muito ligado ao hip-hop, movimentos sociais, já dei palestras no dia da Consciência Negra. Infelizmente, muitos atletas negros no Brasil não são alfabetizados ou têm dificuldade para falar na televisão e por isso sempre sou procurado para debater, por ter mais instrução”, analisa. Dentre as personalidades que mais admira, cita Nelson Mandela. “Ele sofreu pra conseguir aquilo que queria e me inspirou muito pra que eu perseguisse meus objetivos.”

E se estivesse na arquibancada do Maracanã na abertura dos Pan-Americanos, Diogo também vaiaria o presidente Lula? “Não”, responde de bate-pronto. “Lula mudou muito da época anterior à presidência, mas entendo que foi a forma que ele achou de ser aceito dentro da política brasileira. Se você for esquerdista, em menos de um ano vai sofrer impeachment”, opina. “Não o vaiaria por conta da sua história, mas o Lula de hoje quis ser amigo de todos e esse ‘jeitinho’ quebrou sua personalidade.”

Agora, Diogo tenta aproveitar o momento para garantir um apoio que dê tranqüilidade à carreira. “É a hora, se for trabalhar isso daqui a um mês, todo mundo esquece”, pondera. Após o fim da conversa, volta à reunião com um grande portal de internet, que vai definir como sua imagem vai ser trabalhada. Mas continua ciente de que o seu sucesso, se tem muito de persistência, tem também de talento nato, que não surge todo dia em qualquer um. Por isso, é assertivo quando aponta o principal problema do país: “a diferença de classes”. Os golpes de Diogo não são certeiros apenas no tatame.



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