Artur da CUT defende contrato nacional para cadeia dos biocombustíveis

Em seminário sobre o tema, o presidente da Central falou ainda sobre a falta de cobertura da marcha da CUT e das mulheres da Contag pela grande mídia

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Em seminário sobre o tema, o presidente da Central falou ainda sobre a falta de cobertura da marcha da CUT e das mulheres da Contag pela grande mídia

Por Anselmo Massad 

Em entrevista à Fórum concedida na abertura do Seminário Biocombustíveis e inclusão social, o presidente nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Artur Henrique, criticou a grande mídia por fazer cobertura enviesada das mobilizações sociais. Enquanto a manifestação do movimento “Cansei” contou com 1.200 pessoas em São Paulo e teve farta cobertura da mídia, duas manifestações de trabalhadores em Brasília, no dia 15 e 22 de agosto, tiveram 20 mil e 30 mil participantes e nenhuma foto ou cobertura nos grandes jornais.

O seminário realizado nesta sexta-feira, 24, é organizado pelo Observatório Social, com apoio da CUT e da Petrobras, no centro de São Paulo.

Artur alertou para a necessidade de democratização dos meios de comunicação, já que o minuto de silêncio do “Cansei” contou com farta cobertura e até com “foto na horizontal” para dar a impressão de que havia muita gente.

Na marcha da CUT no dia 15, a pauta incluía os três poderes, com uma pauta para cada local. Eles fizeram um abraço ao prédio do Congresso Nacional, para simbolizar “o aperto que queremos dar”. Na Marcha das Margaridas, que tem esse nome em homenagem a Margarida Alves, sindicalista rural assassinada em Alagoa Grande num crime ainda não esclarecido, no dia 22, trouxe a pauta das mulheres da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag). Entre os destaques estava o papel das mulheres nas políticas públicas para agricultura familiar, como vantagens para crédito a mulheres e não aos homens como ocorre atualmente.

Confira os principais trechos da entrevista.

Fórum – Apesar de ter uma pauta clara, nem as reivindicações nem a manifestação da CUT nem a da Contag, filiada à Central, receberam destaque da mídia. Como o senhor vê essa situação?
Artur –
Mesmo com imagens bonitas, não houve cobertura. Isso mostra a necessidade de democratização da mídia e criação de controle social. Não houve sequer fotos da manifestação. Fizemos um jornal, em gráfica no momento, com o que a grande imprensa não mostrou. No caso da Marcha das Margaridas, só apareceu a ida do presidente Lula que foi dar respostas a algumas das reivindicações do movimento. É uma situação muito diferente de outras manifestações, como a do “Cansei” na praça da Sé em São Paulo. Há muitos anos eu não via, nos jornais, uma foto tirada na horizontal, para dar a impressão de grande quantidade de pessoas. Normalmente, os fotógrafos procuram um ângulo mais do alto, para mostrar quanta gente tinha de fato. Foi um sinal de clara manipulação voltada para os objetivos da mídia. Entenda, defendo uma cobertura democrática, tem que mostrar a manifestação do “Cansei”, mas uma mobilização com muito mais gente não pode ser ignorada.

Fórum – A CUT esboçou a criação de um movimento “Cansamos” logo depois da divulgação da ação dos empresários. Há intenção de levar a cabo essa idéia ou a intenção era mais a de provocação?
Artur –
Fizemos em seguida ao lançamento do “Cansei” como uma contra-ofensiva dos que não tem tempo para cansaço, porque lutam por melhores salários, melhores condições de vida, contra o trabalho infantil e escravo. Como vários empresários estavam envolvidos no “Cansei”, como o presidente da Philips, uma multinacional interferindo em questões políticas brasileiras, lançamos essa idéia mais como um contraponto mesmo.

Fórum – A CUT tem posições definidas sobre os biocombustíveis, tema do seminário?
Artur –
O Seminário tem a intenção de discutir a pauta dos trabalhadores. Não queremos qualquer crescimento econômico, mas com inclusão social, distribuição de renda, valorização do trabalho e, principalmente, preservação ambiental. A CUT sempre busca trazer os interesses dos trabalhadores que, nesse caso, incluem a formalização da mão-de-obra, já que muita gente trabalha sem carteira assinada no caso dos canaviais, por exemplo, e a definição do papel do Estado na regulação. A preocupação aqui é com questões de segurança alimentar e zoneamento agrícola e todas as suas implicações em termos de preservação ambiental. Estamos ficando muito bons de diagnóstico, cada vez mais e melhores, mas precisamos produzir mais propostas do modo mais unitário possível para intervir no debate de modo articulado. No Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social [CDES], levantamos a necessidade de discutir com os diferentes atores envolvidos na produção do biocombustível as ações do Estado a respeito. É um tema relevante, tanto que costumo dizer que o presidente Lula dorme biocombustíveis, almoça mamona e janta biodiesel, de tanto que ele fala sobre o assunto.

Fórum – Qual foi a proposta no CDES?
Artur –
Quando alguém propõe um tema no Conselho, logo vira coordenador do grupo de trabalho. Fizemos duas reuniões em que definimos alguns pontos por unanimidade, como as condições de trabalho, a formalização, o zoneamento rural e a preocupação de meio ambiente e produção de alimentos, qualificação profissional e gestão de empreendimentos. Na discussão de matriz energética para o país, para evitar um apagão como o que aconteceu em 2001, lutamos por um contrato coletivo nacional da cadeia dos biocombustíveis, com condições de trabalho definidas, salário e políticas públicas.



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1 comment

  1. Angélica Cord

    Boa matéria! No entanto, equivocada. A Marcha das Margaridas teve grande repercussão na mídia nacional: jornais impressos, radiofônicos, televisivos e eletrônicos. Também houve repercussão em veículos internacionais como o Pravda e uma agência de notícias indiana. É verdade que alguns veículos deram um enfoque equivocado como o trânsito em Brasília ou o beijo de Lula em Nilcea. Mas muitos deram atenção à pauta e à luta das mulheres trabalhadoras rurais. Nós como militantes de movimentos sociais temos de defender nossos interesses e para isso, muitas vezes temos de “colocar a boca no mundo“ para critiar a visão política vigente na mídia. Mas também não podemos bater aleatoriamente.

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