Chegada de milícias é troca do ruim pelo muito pior

Representante da comunidade de Acari, no Rio de Janeiro, na Rede contra a Violência relata como são as ações das quadrilhas supostamente formadas por policiais que substituem o tráfico

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Representante da comunidade de Acari, no Rio de Janeiro, na Rede contra a Violência relata como são as ações das quadrilhas supostamente formadas por policiais que substituem o tráfico

Por Anselmo Massad

Na disputa entre a polícia e o crime organizado, nas comunidades pobres do Rio de Janeiro, a presença crescente de milícias é o novo motivo de preocupação das entidades de moradores e de defesa dos direitos humanos. A princípio, muitos moradores acreditam que as milícias, apesar de ilegais, por serem supostamente formadas por policiais, trariam melhoras para o cotidiano. Porém, segundo Vanderlei da Cunha, representante da comunidade de Acari na Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência, isso não ocorre.

Para ele, a chegada de milícias a uma comunidade acaba representando uma piora em relação a ocupação do tráfico. “Em algumas comunidades, os moradores percebem que trocaram o ruim pelo muito pior”, define.

A distinção ocorre porque enquanto o tráfico é comandado por jovens que são “cria da comunidade”, os policiais não têm vínculos, o que impede qualquer possibilidade de negociação ou acordo entre moradores em dívida e milicianos. Em comunidades menores de complexos de favelas, as milícias comandam as ligações clandestinas de TV a cabo, além da arrecadação das máquinas caça-níqueis, e da cobrança de pedágios e mensalidades dos moradores.

“Toda comunidade gostaria de não ter o tráfico controlando o local”, sustenta Cunha. “A maioria tem a ilusão de que uma favela ocupada por milícias de policiais teria mais tranqüilidade ou liberdade, mas quando elas chegam, moradores vêm o cerceamento da liberdade e do direito de ir e vir consegue ser ainda mais tirânico”, lamenta.

Ele sustenta ainda que essas milícias só conseguem promover ocupações em locais em que alguma facção do tráfico de drogas não é muito forte. “Em um local como Acari ou a Rocinha, as milícias não conseguem entrar. Se conseguirem, não ficam”, explica. Além do risco de conflito com traficantes, evitado pelos policiais, o que alguns policiais obtêm em propinas do tráfico é superior ao que poderiam arrecadar no controle das atividades ilícitas.

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