Blogueiro considera imprevisível o resultado da manifestação anti-mídia

Ato em frente ao prédio da Folha de S.Paulo conta com 100 confirmações de presença e mais de mil manifestações de apoio, mas organizador evita previsões.

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Ato em frente ao prédio da Folha de S.Paulo conta com 100 confirmações de presença e mais de mil manifestações de apoio, mas organizador evita previsões.

Por Anselmo Massad

Eduardo Guimarães, o blogueiro que iniciou a idéia de manifestação em frente ao prédio da Folha de S.Paulo neste sábado, 15, considera impossível prever quantas pessoas vão comparecer ao ato. Apesar de ter recebido centenas de confirmações de presença e milhares de manifestações de apoio, ele se diz disposto a fazer uma manifestação de uma pessoa só (ele mesmo) se for o caso.

Ao conceder entrevista à Fórum por telefone, antes de entrar em uma reunião em seu trabalho no setor de exportações, o blogueiro de 48 anos agradeceu a entrevista e admitiu estar nervoso com a expectativa do ato, por ter dado a cara para bater. Já depois de encerradas as perguntas, ele disse ainda que resolveu lançar o movimento porque não aguentava mais protestar sentado na frente do computador.

“Fica uma guerra por e-mail… Nem é guerra, porque não conquista nada, fica uma pregação aos já convertidos que não muda nada.”  Até amanhã, às 10h, quando está previsto o início da concentração, ele contém a ansiedade. E, se o resultado da manifestação não for tão bom, ele avisa que não terá problemas em voltar a “escrever e-mails” para criticar a mídia.

Confira a íntegra, em que ele discute o fato de a manifestação ser protagonizada por pessoas de “classe média remediada”, apartidário, mas com propostas muito claras – muito diferente do movimento “Cansei”.

Fórum – O protesto deste sábado, 15, é o primeiro organizado pelo seu blogue. Qual a expectativa?
Eduardo Guimarães –
A expectativa é grande, porque quando a gente põe a cara para bater e muita gente delega confiança, é complicado. Em termos de público, em uma palavra, é imprevisível. Em um primeiro momento, a divulgação foi feita entre os visitantes. Houve umas cem adesões. A princípio, estou disposto a ir à frente do prédio da Folha mesmo que o protesto tivesse uma pessoa, eu mesmo. Mas a idéia saiu em outros sites, no blogue do [Luiz Carlos] Azenha e outros, e acredito que pode aumentar. Considero imprevisível, porque o brasileiro não é muito disposto a se mobilizar. Se bem que começo a rever essa idéia com essa manifestação. Só vou poder falar mesmo amanhã, depois da manifestação. Muitos sites reproduziram, até o do PT. Para mim, todos podem se manifestar, e se alguém do PT quiser ir para protestar, pode ir, mas o mais importante para mim é que o movimento seja apartidário. Nunca me aproximei do PT nem de outros partidos. Hoje, o cheiro da manifestação parece bem maior do que eu previa. Foram muitos comentários e e-mails, que nem contabilizei por falta de tempo, porque eu trabalho. Estamos tentando nos organizar da melhor forma possível. Mas por esse processo, a quantidade de gente insatisfeita com a mídia é muito grande. As manifestações ultrapassam a casa do milhar.

Fórum – Qual sua avaliação ao ler a reação dos internautas?
Guimarães –
Os meios de comunicação tem que refletir. Tem muita gente insatisfeita, e é gente que não existe para os meios de comunicação. O senso comum fabricado pela mídia é o de que a classe média como um todo apóia as posições políticas dos meios de comunicação. Essa manifestação não é de apoio ao governo. Não vou dizer que estou satisfeito com este governo, embora, pessoalmente, até o prefira do que outros, mas há alguns comentários de pessoas que acham a administração uma droga, mas consideram a mídia monocórdica e monótona. Aconteça o que acontecer, já se sabe o que ela vai dizer. Que o Lula matou 200 no avião, que a sociedade está chocada. Como eles podem falar em nome da sociedade, em meu nome, em seu nome? Come

Fórum – Em julho, logo depois da queda do avião da TAM, um grupo de empresários mais a Ordem dos Advogados do Brasil, seccional São Paulo (OAB-SP) criaram o movimento “Cansei”, que também se dizia apartidário e foi muito criticado por ser formado por pessoas de classe média e alta. O senhor admite, mesmo em seu blogue, que a manifestação é de classe média. Comparações não o preocupam?
Guimarães –
O movimento é de classe média, sim, classe média remediada e, um ou outro, de classe alta. Mas não tem milionário nem empresa multinacional patrocinando. Mas tive que fazer uma vaquinha para comprar um megafone. O “Cansei” foi desmoralizado quando um arrecadador de campanha do [Geraldo] Alckmin aderiu ao movimento. Não vou gritar “Fora Serra” na manifestação de amanhã [15]. O “Cansei” foi à Sé gritar “Fora Lula” e lotar o palanque sem permitir que os parentes das vítimas [do acidente do avião da TAM] chegassem. Essas vítimas foram usadas como pretexto para um movimento extritamente político. Olha, nunca cheguei perto de nenhum partido político. O único momento em que estive com políticos foi em 2000, quando era leitor da Folha [de S.Paulo]. À época, eu era um leitor muito publicado [na sessão de leitores], me correspondia com o Clóvis Rossi etc., mas o tempo era outro. Então, na festa de aniversário de 80 anos do jornal, fui convidado e conheci a todos os políticos ao mesmo tempo. A manifestação que organizamos é apartidária. Somos de classe média, não é proibido à classe média se manifestar, mas sim de passar a perna nos outros ao fazer um movimento político sem proposta. Nós temos um manifesto de quatro laudas com o que criticamos e o que defendemos.

Fórum – Houve reações críticas à iniciativa?
Guimarães –
Algumas pessoas criticaram o alvo da manifestação, sugerindo que fóssemos criticar o governo. Essa manifestação não é de apoio ao governo. Não vou dizer que estou satisfeito com o governo, embora reconheça que sou eleitor do PT. Mas leio jornal desde os 15 anos. Desde então, sempre li pelo menos um jornal por dia. No começo, lia O Estado de S.Paulo, por uma tradição de família. Depois, passei a ler a Folha. A mídia se transformou no século XX em um instrumento de manutenção do país na situação atual, na difusão de interesses do tempo da pirâmide, de gente que quer que suas opiniões sejam as de todos. Tem que ter protesto contra o governo, mas quando todos possam se manifestar livremente. Hoje, isso é controlado pela mídia. Até isso nos tiraram. Quando todos puderem se manifestar, vou ser o primeiro a combater as tarifas abusivas dos bancos, a criticar a inação do governo em relação ao lucro dos bancos. Até isso a mídia nos roubou, de poder criticar o governo. Porque se eu criticar o governo vou compactuar com um projeto golpista – não tem outro nome.



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1 comment

  1. Juliano

    Esse rapaz, o Eduardo dá um show de lucidez nas respostas a entrevista. A questão não é ser a favor ou contra o governo Lula. A revolta é contra a mídia querer nos fazer de massa de manobra. Ela não tem o direito de falar em nosso nome. Ela representa seus próprios interesses polítocos- econômicos, e agente sabe disso. Não dei procuração p/Zuenir Ventura, Tereza Cruvinel, Merval Pereira, Luiz Garcia, entre outros empregados do Globo, dizer que eu estou idignado por isso ou por aquilo. Falem por si mesmo, mas não falem o que sociedade acha ou deixa de achar, porque ao contrário dos parlamentares que eles tanto execram, ninguém votou neles para representar quem quer que seja

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