Drogas, da retórica de guerra à bandeira branca

A produção mundial de heroína e cocaína diminui, mas aumenta o consumo de drogas sintéticas, especialmente no Oriente Médio, afirma o Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC) em seu informe anual.

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A produção mundial de heroína e cocaína diminui, mas aumenta o consumo de drogas sintéticas, especialmente no Oriente Médio, afirma o Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC) em seu informe anual

 Por Danielle Kurtzleben, da IPS

A produção mundial de heroína e cocaína diminui, mas aumenta o consumo de drogas sintéticas, especialmente no Oriente Médio, afirma o Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC) em seu informe anual. O estudo de 314 páginas analisa a situação de quatro categorias de substancias – opiáceos (entre eles a heroína), coca, cocaína, maconha e estimulantes do tipo da anfetamina – bem como as atividades criminosas derivadas de seu comércio. Uma das tendências mais claras constatadas pelos autores do informe é a estabilização ou queda do consumo de opiáceos, cocaína e maconha.

Cai a produção de papoula (da qual derivam ópio, morfina e heroína) e de coca (insumo da cocaína) nas áreas de maior cultivo, declarou na quarta-feira, ao apresentar o relatório à imprensa, o diretor-executivo da UNODC, Antonio Maria Costa. O cultivo de coca caiu 18% no ano passado na Colômbia, e o de papoula 19% no Afeganistão, segundo Costa. Mas, também surgiram estatísticas problemáticas. A apreensão de cocaína em 2008 duplica a de 2002, embora tenha se registrado produção de 49 toneladas em relação a 2007. O uso da maconha, por outro lado, continua sendo generalizado em todo o mundo.

Além disso, o consumo de drogas sintéticas está em alta, especialmente no Oriente Médio. Trata-se de um trafico particularmente difícil de rastrear e combater, pois sua produção não se processa em campos de cultivos, mas em laboratórios. A produção de opiáceos e cocaína não caiu tanto quanto o cultivo de suas matérias-primas. Isto pode denotar que os produtores encontraram mecanismos para melhorar o rendimento. O mercado da cocaína mostra sinais contraditórios. Nos Estados Unidos, maior consumidor de drogas do mundo, aumentou o preço e caiu a pureza. “Estes dois indicadores mostram um mercado ajustado”, disse Costa.

Da linguagem do informe se destaca uma atenção mais centrada nos usuários de drogas do que nas próprias substâncias. “Nos Estados Unidos estamos abandonando a retórica divisionista da guerra contra as drogas”, disse Gil Kerlikowske, diretor do Escritório da Casa Branca para a Política Nacional de Controle de Drogas, ou, como se costuma denominar quem ocupa esse posto, o “czar antidrogas” de Washington. “Quanto mais cedo pudermos intervir diante das pessoas com problemas de drogas, melhor. O governo Obama está dedicado a dar tratamento às pessoas que precisam”, disse Kerlikowske. Esta forma de pensar é útil em nível global, considerou Costa.

“O vício das drogas é uma doença”, acrescentou, e, portanto, no longo prazo, seu tratamento é a única maneira de reduzir o uso destas substancias, e não a prisão. “Exorto os heróicos defensores dos direitos humanos a ajudar a UNODC a promover o direito dos viciados à saúde”, escreveu no prólogo do informe. “A intenção da prisão é reabilitar os que transgridem as leis antidrogas. Mas determinados tipos de criminosos, sem reduzir os controles”, acrescentou.

A criminalidade e a segurança nacional em relação à drogas é cada vez mais importante para o governo dos Estados Unidos. Por isso, a África ocidental se tornou modelo do debate sobre o controle do consumo e da produção. “O atual ambiente político e econômico na região dá aos terroristas e narcotraficantes uma oportunidade de auge sem precedentes”, disse na semana passada no Congresso norte-americano o administrador-adjunto e chefe de operações da Divisão de Operações da agência antidrogas dos Estados Unidos (DEA), Thomas Harrigan. O governo do presidente Barack Obama destinou US$ 5,7 milhões para a luta contra as drogas na África. Costa afirmou que as estratégias na África ocidental tiveram êxito, pois nos últimos anos a proporção de detenção de pessoas portando cocaína em avião procedentes dessa região caiu de 59% para 6%.

Por Envolverde.



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