Reforma agrária e geração de empregos

Pesquisa do IBGE revela que a concentração de terras segue crescendo no país, enquanto milhões de lavradores vegetam em condições desumanas. Os dados justificam a revolta e indignação dos movimentos que lutam pela reforma agrária

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Pesquisa do IBGE revela que a concentração de terras segue crescendo no país, enquanto milhões de lavradores vegetam em condições desumanas. Os dados justificam a revolta e indignação dos movimentos que lutam pela reforma agrária

Por Altamiro Borges  

Publicado no final de 2009, o censo agropecuário mostra toda a gravidade da situação do campo brasileiro e confirma que essa é uma das piores áreas de atuação do governo Lula. A pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) revela que a concentração de terras segue crescendo no país, enquanto milhões de lavradores vegetam em condições desumanas. Os dados justificam a revolta e indignação dos movimentos que lutam pela reforma agrária, como o MST e a Contag. Frei Sérgio Görgen, da Via Campesina, fez uma didática síntese da pesquisa do IBGE:

Agronegócio controla 76% das terras

– Existem 4,3 milhões de pequenas propriedades agrícolas no Brasil, que ocupam 24% das terras agricultáveis. Já 807 mil estabelecimentos estão nas mãos de médios e grandes fazendeiros, que detêm 76% das terras; destes, 15 mil são latifundiários, com propriedades acima de mil hectares, que controlam 46% das terras agricultáveis;

– Os pequenos agricultores são responsáveis por 40% da produção agropecuária, apesar de terem apenas 24% das terras, “nas piores condições tipográficas e de fertilidade”. Os médios e grandes proprietários são responsáveis por 60% da produção e possuem 76% das terras, “mais férteis e melhores localizadas no mercado”;

– Dos alimentos que vão para a mesa dos brasileiros, 70% é produzido por pequenos agricultores; só 30% saem das enormes dimensões de terra nas mãos dos grandes proprietários; “eles não produzem comida, querem produzir apenas commodities para exportação”;

Pouco emprego e muito crédito

– As pequenas propriedades dão trabalho para 74% da mão-de-obra agrária; as médias e grandes propriedades só empregam 26% dos trabalhadores. “Preferem utilizar a mecanização intensiva e muito agrotóxico. Por isso, na safra de 2008/2009, o Brasil se transformou no maior consumidor mundial de agrotóxicos. São aplicados 700 milhões de litros de veneno por ano”;

– Na agricultura camponesa, em cada 100 hectares trabalham 15 pessoas; no agronegócio, cada 100 hectares dão emprego para apenas duas pessoas;

– No plano de safra do biênio 2009/2010, os bancos destinaram R$ 93 bilhões para o agronegócio (86% do total) e apenas R$ 15 bilhões para a agricultura camponesa (14% do total). Somente 1,2 milhões de estabelecimentos familiares têm acesso ao crédito bancário.

Geração de 21 milhões de empregos

Com base nestes dados chocantes, Frei Sérgio Görgen fez uma projeção de como seria o país se fosse feita uma autêntica reforma agrária. Somente com a distribuição das terras controladas pelo latifúndio “seriam criados 2,9 milhões de novos estabelecimentos. Contando que a agricultura camponesa ocupa 15 pessoas a cada 100 hectares, a reforma agrária criaria trabalho para mais de 21 milhões de pessoas”. Muito além dos 2,4 milhões de empregos criados pelo agronegócio, com “salários ridículos e trabalho apenas temporário, sem direitos trabalhistas ou previdenciários”.

Diante destes fatos inquestionáveis, o dirigente da Via Campesina questiona a política agrária e agrícola do governo Lula. “O latifúndio e o agronegócio não trazem benefícios à sociedade, nem social nem economicamente, e não é sustentável ambientalmente. A sua matriz tecnológica é altamente destrutiva pelo uso intensivo de agrotóxico. Uma reforma agrária que atingisse apenas os estabelecimentos acima de mil hectares, preservando os médios proprietários, geraria muito mais trabalho, produção, renda e desenvolvimento para os brasileiros”.

Publicado no Blog do Miro.



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