Chile: Contabilizando os danos e reconhecendo os erros

O governo assegura que mobilizou imediatamente todos os mecanismos do Estado para socorrer as vítimas. Mas estas, e algumas autoridades locais, questionam a demora na chegada da ajuda

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O governo assegura que mobilizou imediatamente todos os mecanismos do Estado para socorrer as vítimas. Mas estas, e algumas autoridades locais, questionam a demora na chegada da ajuda

Por Daniela Estrada, da IPS

Enquanto as vítimas fatais do devastador terremoto e do tsunami, que afetaram o Chile no sábado, aumentaram provisoriamente para 723, autoridades e especialistas reconhecem que a catástrofe deixou claros erros e falências institucionais. O governo da presidente Michele Bachelet também decidiu colocar sob segurança dos militares as áreas mais afetadas, para deter os saques. Localidades costeiras das centrais regiões de Maule e Bío-Bío, as mais afetadas, foram arrasadas por tsunamis gerados pelo sismo de 8,8 graus na escala Richter, registrado às 3h34 locais de sábado, com epicentro 90 quilômetros ao norte da cidade de Concepción, capital de Bío-Bío.

Casas no chão, edifícios desmoronados, pontes caídas, estradas cortadas, hospitais e igrejas danificados, pessoas clamando por água e comida, famílias inteiras dormindo nas ruas por medo das réplicas do tremor, e saques nos estabelecimentos comerciais são algumas das consequências do terremoto, que durou mais de dois minutos. No domingo, o governo decretou estado de exceção pela catástrofe em Maule e Bío-Bío, entre 200 e 500 quilômetros ao sul da capital, para assegurar a ordem pública e abastecer de água e comida a população, com a entrega de mercadoria armazenada nos supermercados.

Esta figura jurídica, que mobiliza o Exército e restringe uma série de direitos dos cidadãos, respondeu aos descontrolados saques a supermercados e lojas registrados em Concepción e outras cidades do país. Nesse contexto, o toque de recolher foi decretado entre 21 horas do domingo e 6 horas de ontem, em Concepción, o que impediu as pessoas de saírem de casa. Devido à medida, uma pessoa morreu e 57 foram detidas. O ministro da Defesa, Francisco Vidal, anunciou que cerca de dez mil soldados das Forças Armadas foram enviados para enfrentar as emergências do terremoto.

Por outro lado, prosseguem os resgates de pessoas presas nas ruínas das edificações e desaparecidos, cujo número ainda é desconhecido. No sul do país, há áreas isoladas, sem serviços de água, eletricidade e telefonia. Os que possuem internet buscam desesperadamente seus familiares e amigos pelas redes sociais como Facebook e Twitter, enquanto grupos solidários são organizados para ajudá-los nessa tarefa.

O governo assegura que mobilizou imediatamente todos os mecanismos do Estado para socorrer as vítimas. Mas estas, e algumas autoridades locais, questionam a demora na chegada da ajuda. Também há críticas à pouca informação transmitida para as áreas mais impactadas quanto a assuntos como locais de entrega de ajuda ou identidade das pessoas mortas. No entanto, já foram levantados hospitais de campanha e abrigos para atender os feridos e receber dezenas de milhares de desabrigados.

No domingo, as autoridades asseguraram que o Serviço Hidrográfico e Oceanográfico da Marinha do Chile ativou, confusa e tardiamente, os alarmes de tsunami, o que foi desmentido por esse organismo “No Chile faltam especialistas, protocolos, comunicação entre todas as instituições envolvidas (na formulação dos alertas de tsunami)”, disse o especialista em Sismologia da Universidade do Chile, Jaime Campos. O país deveria contar com a tecnologia via satélite disponível hoje no mundo para detectar a possibilidade de um tsunami enquanto ocorre um terremoto, ressaltou.

“Lamentavelmente, o Chile é um país sísmico. É uma das nações mais sísmicas, se não a mais sísmica do mundo. Está exposto a tsunamis, terremotos e fenômenos vulcânicos bastante frequentes”, disse Campos. “Portanto, o país exige que haja um dispositivo de alarme para todas essas ameaças naturais que temos”, acrescentou. Este dispositivo requer “instrumentos, protocolos, institucionalidade e um arsenal de pesquisadores, especialistas e engenheiros em todas essas áreas”, inexistentes atualmente no grau necessário, afirmou o especialista.

A diretora do Escritório Nacional de Emergência, Carmen Fernández, disse que falta ao país “cultura de tsunami. Não temos a experiência suficiente”, admitiu. No domingo foram registrados falsos alertas de tsunami, o que agravou o medo da população, em especial na cidade portuária de Valparaíso, 120 quilômetros a oeste de Santiago. “Cada momento que passa temos notícias piores”, afirmou no domingo o ministro do Interior, Edmundo Pérez Yoma, desta forma sintetizando o que foi vivido por 17 milhões de habitantes deste país desde o violento terremoto.

Foi o segundo em intensidade na história do Chile, depois do ocorrido em 1960, na província de Valdivia, com 9,5 graus na escala Richter, considerado o maior já registrado no mundo. Qualificado de “enganoso” pela população, o terremoto não deixou à vista de imediato sua devastação, devido à enorme extensão do território afetado e aos problemas de comunicação que se seguiram. O tremor foi sentido com diversa intensidade em 11 das 15 regiões do país, desde Antofagasta, ao norte, até Los Lagos, no sul. Além de Maule e Bío-Bío, as áreas mais afetadas foram as de Valparaíso, a região metropolitana da capital, e a de O’Higgins.

Inicialmente, o Serviço de Sismologia da Universidade do Chile informara que o terremoto havia atingido 8,3 graus Richter, mas depois o situou entre 8,6 e 8,8 graus, alinhando-se com as medições de outros institutos internacionais. Na noite de domingo, a presidente socialista, que havia formado um Comitê de Emergência Nacional, se reuniu em sua casa com o presidente eleito, o direitista Sebastián Piñera, que assumirá no dia 11, para coordenar as medidas de ajuda à população.

O governo garantiu que o país conta com os recursos financeiros necessários para enfrentar a catástrofe, mas estuda aceitar alguns oferecimentos de ajuda específicos procedentes do exterior, como hospitais de campanha, tecnologia de telecomunicações e outros. Tanto Bachelet quanto Piñera enfatizaram que, para reerguer o país, é necessária a colaboração dos setores público e privado. A ministra da Habitação, Patricia Poblete, assegurou que os imóveis do país “responderam bem” ao terremoto, considerando a grande intensidade registrada.

Porém, conforme passam as horas, crescem as críticas a construtoras e ao setor de fiscalização do governo pelo desabamento de casas e edifícios inaugurados recentemente. Outras vozes asseguram que, devido às normas referentes a terremotos obrigatórias no país – as mais rígidas da América Latina, segundo Poblete –, a destruição foi muito inferior à registrada no Haiti, onde morreram, segundo dados não definitivos, 214 mil pessoas. Esse tremor, considerado de intensidade 50 vezes menor do que o de sábado no Chile, aconteceu em 12 de janeiro e atingiu 7 graus na escala Richter.

Em Concepción, um prédio de 14 andares, inaugurado em 2009, desmoronou completamente e ainda são procurados sobreviventes entre a dor dos familiares. No domingo, recomeçou, ainda com restrições, a chegada de alguns voos internacionais ao danificado aeroporto de Santiago, enquanto são reparados os graves danos registrados no terminal de passageiros. Os especialistas descartaram que um novo sismo ou tsunami possa ocorrer nas próximas horas, mas alertaram que as réplicas, com tremores menos intensos, podem ser sentidas por até mais três meses.

“Estamos diante de uma emergência sem igual na história do Chile”, resumiu Bachelet. Uma consultoria dos Estados Unidos assegurou ontem que a catástrofe acarretará para o Chile uma perda de 10% de seu produto interno bruto. Mas o ministro da Fazenda, Andrés Velasco, disse ontem também que ainda não há dados oficiais que quantifiquem a tragédia e permitam calcular o impacto no curto e médio prazos.

Por IPS/Envolverde.



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