Duas surpresas nas Malvinas

O fato mais vistoso é o início da prospecção de petróleo pela Grã-Bretanha. Mas a principal novidade parece ser uma articulação diplomática que está unindo a América Latina e pode forçar Londres a um recuo

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O fato mais vistoso é o início da prospecção de petróleo pela Grã-Bretanha. Mas a principal novidade parece ser uma articulação diplomática que está unindo a América Latina e pode forçar Londres a um recuo

Por Antonio Martins

Em 19 de fevereiro deste ano, 86 dias depois de deixar o Mar do Norte, a plataforma de exploração Ocean Guardian encerrou a travessia do Oceano Atlântico e lançou âncora 160 quilômetros ao norte das Ilhas Malvinas. Era o primeiro lance de uma aposta que, se bem-sucedida, tentará encontrar um mar de petróleo sob as águas, e consolidar a posse britânica sobre o arquipélago. Frontalmente contrária a diversas resoluções da ONU, a iniciativa parecia, contudo, um passeio.

O esforço argentino para recuperar as ilhas estava estigmatizado pela tentativa patética de tomá-las por meio de guerra, em 1982, nos estertores de uma ditadura militar. A superioridade bélica da Grã-Bretanha não parou de crescer desde então, e seus laços com a indústria de extração de petróleo são seculares. Em Buenos Aires, o governo da presidente Cristina Kirchner sofre oposição cerrada da maior parte do grande empresariado e da mídia. Acusam-no de ser hostil aos investimentos e tendem a ver “populismo” em todos os seus atos – inclusive a defesa dos interesses nacionais.

Duas semanas depois, o cenário era outro. Em 23 de fevereiro, no instante em que criaram a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe (Celac), 32 países da região assinaram um documento defendendo o direito da Argentina às Malvinas. Uma fala de Lula, que reforçou a reivindicação e questionou a legitimidade do Conselho de Segurança da ONU, alcançou destaque internacional.

Fortalecido, o chanceler argentino Jorge Taina encontrou-se com o secretário-geral das Nações Unidas e pediu formalmente a abertura de um debate internacional sobre o tema. A ação argentina atraiu interesse de grandes empresas petroleiras e levou a própria secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, a afirmar “neutralidade” entre Buenos Aires e Londres, seu mais forte aliado internacional. Como esta reviravolta foi possível e quais serão seus próximos desdobramentos?

O primeiro fator para a mudança foi o novo ambiente ideológico vivido há anos na América do Sul. Em 22 de fevereiro, mesma data em que a Ocean Guardian começava a perfurar o solo do Atlântico, o ativista pelos Direitos Humanos Adolfo Perez Esquivel (Nobel da Paz em 1980) alertava: podia estar em jogo algo além das jazidas em torno do arquipélago. Não que elas sejam desprezíveis. Segundo estudos sísmicos realizados em 2004, pode existir ali entre 3 e 6 bilhões de barris – suficientes para, ao menos, dobrar as reservas atuais da Argentina (calculadas em 2,6 bilhões de barris) ou do Reino Unido (3,4 bilhões).

Mas Esquivel enxergava, além disso, uma relação entre a iniciativa britânica e as novas bases militares instaladas pelos Estados Unidos na Colômbia. “Os recursos dos norte-americanos e europeus estão esgotados. As grandes potências têm interesse não só no petróleo da América Latina, mas também na água, nos minerais e na Amazônia”, disse ele, numa entrevista que a BBC britânica repercutiu.

O que teria sido, há poucos anos, voz isolada, tornou-se agora parte de um coro que envolveu o conjunto dos países da região. Para isso, foi decisiva, também, a atuação da presidente argentina Cristina Kirchner — que adotou uma combinação refinada de atitudes firmes e chamados ao diálogo. O governo platino ressaltou, desde o primeiro momento, a ilegalidade da ação britânica. Situadas a apenas 480 quilômetros da Patagônia – e a 12.734 km. de Londres –, as Malvinas (Falkland Islands, para os ingleses) pertenceram ao império espanhol e mais tarde à Argentina até 1833, quando o navio de guerra Clio e seu comandante, o almirante Olson, as ocuparam, em nome de Sua Majestade. Desde então, Buenos Aires jamais deixou de reivindicá-las.

A posição das Nações Unidas é clara. As ilhas estão incluídas numa relação de dezesseis territórios não-autônomos, dos quais se encarrega um Comitê de Descolonização. Não se reconhece nem a soberania argentina, nem a britânica. Iniciar unilateralmente a exploração de petróleo num território em disputa é uma violação evidente deste status.

Buenos Aires respondeu com duas medidas essenciais. No plano interno, editou decreto obrigando todas as embarcações em trânsito para as Malvinas a solicitar licença especial antes de ancorar em portos argentinos. Pelo menos um barco – o Thor Leader, que transportaria às ilhas tubos de aço empregados na extração de petróleo – foi impedido de embarcar a carga. A decisão irritou Londres e provocou queda das ações da Desire Petroleum, empresa responsável pela prospecção nas Malvinas. Se não for possível contar com bases de suprimento próximas às ilhas, a atividade petroleira pode se tornar extremamente complicada, do ponto de vista logístico, e ter resultados economicamente duvidosos.

Sintonia com o Brasil

No terreno internacional, Cristina apoiou-se na arrogância inglesa para inverter a imagem que o mundo formou sobre o conflito, na guerra de 1982. O Reino Unido tinha a força; a Argentina precisava demonstrar que o direito, as ideias e a disposição para o diálogo estavam de seu lado. Numa entrevista ao jornal Página 12, o chanceler Jorge Taiana explicitou: “A postura dos britânicos é tratar toda reivindicação argentina de direitos sobre as ilhas como gesto de agressão”. Por isso, “nosso objetivo é criar condições políticas que os obriguem a sentar-se à mesa de negociações”.

Uma segunda meta do diplomata era evitar que Buenos Aires protestasse sozinha. “Nossa reivindicação precisa se transformar num tema regional”. Por isso, o palco escolhido para apresentá-la foi a reunião dos 32 países latino-americanos (afastada apenas Honduras) marcada para Cancún, em 22 e 23 de março.

Cristina fez, como era de prever, um discurso eloquente na abertura do evento. Uma resolução reafirmando a soberania argentina sobre as Malvinas – e cobrando abertura de diálogo entre as duas partes em conflito – foi aprovada unanimemente. Teve, inclusive, os votos de Trinidad-Tobago e Antigua-Barbuda, integrantes da Commonwealth, a Comunidade das Nações Britânicas.

Mas ganhou o mundo graças a um discurso incomum de Lula, no encerramento do encontro. Contrariando os que esperavam uma fala conciliadora, o presidente brasileiro assumiu partido claro. “Nossa atitude é de solidariedade à Argentina (…) Qual a explicação geográfica, política e econômica de a Inglaterra estar nas Malvinas?” Como se fosse pouco, questionou a desigualdade que reina nas relações internacionais e nos mecanismos de decisão das Nações Unidas. “Não é possível que o Conselho de Segurança siga representado pelos interesses geopolíticos da II Guerra Mundial, sem ter em conta as mudanças que ocorreram no mundo”. Para completar, afirmou claramente que os atuais membros do Conselho “preferem uma ONU débil”, pois nessas condições países como a Inglaterra “podem tudo, e os outros, nada”.

Surpreendente para muitos, a ampla sintonia entre Argentina e Brasil foi um terceiro fator decisivo para a mudança do cenário, e atende aos interesses dos dois países. Em Buenos Aires, onde havia forte expectativa pelo discurso, seu teor foi considerado pelo Página 12 “muito além do esperado”. Em contrapartida, mais de um observador notou que, no subtexto do pronunciamento de Lula havia a clara reivindicação de presença do Brasil no Conselho de Segurança. O Página 12 observou também: “Foi a primeira vez em que a Argentina não marcou diferença diante desta postura brasileira”.

Um dia depois, já em Nova York, o chanceler argentino Taiana comemoraria mais algumas vitórias simbólicas. Ao encontrar-se com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, pediu-lhe que transmitisse à Grã-Bretanha “a necessidade de não cometer mais atos unilaterais”… Horas depois, ao abrir oficialmente as sessões de 2010 do Comitê de Descolonização, o coreano lançou um apelo explícito para que os Estados-membros usassem diálogo e criatividade para solucionar as questões ainda pendentes…

A Argentina não acumulou apenas avanços morais. No mesmo 24 de fevereiro, a Casa Rosada anunciava que, “pela primeira vez após 30 anos” o país voltava a lançar explorações petrolíferas em seu mar territorial. Um consórcio internacional formado pelo grupo argentino Enarsa (35%), a espanhola Repsol (35%), Petrobrás (25%) e Petrouruguay (5%) anunciou que iniciará em breve a prospecção de óleo no Mar Argentino, entre a Patagônia e as próprias Malvinas, porém fora da “zona de exclusão” decretada unilateralmente pela Grã-Bretanha. A presença de uma empresa com sede na União Europeia apimentava a conquista – aliás, um desmentido prático do mito segundo o qual a postura de Buenos Aires seria “hostil aos negócios”.

Em 1982, quando o ditador Leopoldo Galtieri tentou recuperar as Malvinas por meio de uma guerra que custou 907 vidas (649 de soldados argentinos), a Argentina foi condenada no Conselho de Segurança da ONU e viu alguns de seus vizinhos (como o Chile, governado pelo ditador Augusto Pinochet) aliarem-se aos britânicos. Agora, a situação se invertia. Em 28 de fevereiro, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, que estava em Montevidéu para a posse do presidente Pepe Mujica, mudou de última hora sua agenda e embarcou para Buenos Aires, onde se reuniu no dia seguinte com Cristina Kirchner.

Foi um encontro de quase duas horas, em que teriam discutido Haiti, Irã e segurança nuclear, políticas frente à crise, luta contra o terrorismo. Ao contrário do que ocorria nos tempos de outro presidente argentino, ninguém falou em “relação carnal” entre os dois países. Na entrevista que concederam após avistarem-se, Cristina confirmou, por exemplo, que a Argentina mantém divergências em relação à postura adotada por Washington frente ao golpe militar em Honduras. Ainda assim a representante da Casa Branca admitiu que, sobre as Malvinas, “estamos de acordo, gostaríamos de vê-los [Grã-Bretanha e Argentina] sentados e debatendo o tema”.

Por enquanto, são triunfos muito parciais de Buenos Aires. A Desire Oil continua a perfurar o entorno das Malvinas e a frota britânica, a postos. Os jornais brasileiros mostram uma visão superficial diante destes fatos. Na Inglaterra, a imprensa mais crítica vê a realidade de outra forma. No final de fevereiro, Ian Jack, um comentarista do The Guardian escrevia: “O fato de o sangue de soldados britânicos ter sido derramado nas Falkand não torna as ilhas propriedade britânica para sempre. Se fosse assim, a Inglaterra seria ainda um grande poder imperial”. À mesma época, também no Guardian, Simon Jenkins completava: “Colônias distantes são um anacronismo pós-imperial. A Grã-Bretanha terá de negociar com a Argentina, porque o mundo insistirá – seja na ONU ou na Corte de Haia. O governo e a mídia podem enterrar as próprias cabeças na areia, mas isso não poderá extinguir a disputa, nem as mortes da mais estúpida das guerras, um quarto de século atrás”.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 84. Nas bancas.



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