Os doutores subiram o rio

Equipados com barraca que permite cirurgias no meio da mata, organização de médicos voluntários opera mais de cem índios Sateré-Mawé, no interior do Amazonas Por Tomás Chiaverini Os índios Sateré-Mawé...

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Equipados com barraca que permite cirurgias no meio da mata, organização de médicos voluntários opera mais de cem índios Sateré-Mawé, no interior do Amazonas

Por Tomás Chiaverini

Os índios Sateré-Mawé não acreditaram quando, há alguns meses, ouviram dizer que dezenas de médicos viriam do Sul para cuidar deles. Quando ouviram que um hospital seria montado dentro da terra indígena, que gente cega voltaria a enxergar e outros sem força voltariam ao trabalho, aí é que desacreditaram de vez. No dia 22 de outubro, eles viram uma balsa carregada com oito toneladas, subindo o rio Andirá. Pouco mais de uma semana depois, viram passar duas voadeiras cheias de gente da cidade.

Após voar de Campinas a Parintins num jato da Força Aérea e viajar 160 quilômetros rio acima, os Expedicionários da Saúde iniciavam sua 15a jornada de cirurgias. O destino final do grupo era a Escola Indígena Agrícola São Pedro, situada no interior do município de Parintins (AM). Ali, entre os dias 30 de outubro e 8 de novembro, 25 profissionais de saúde, entre médicos, dentistas, enfermeiros e técnicos, fariam 136 cirurgias e 1.400 atendimentos.

Mas mesmo diante dessa operação de guerra, boa parte dos habitantes da região continuou sem acreditar que tudo aquilo havia sido estruturado para tratar da saúde deles, sem cobrar nada em troca. A descrença tinha fundamento. Os cerca de dez mil Sateré-Mawé ocupam oito mil quilômetros quadrados, encravados no centro da maior floresta do mundo, entre os estados do Amazonas e Pará. São cinco postos de saúde para atender índios às margens do rio Andirá. Nenhum médico.

Essa precariedade na saúde não é exclusividade dos Sateré e está presente em toda a Amazônia. São raros os profissionais que abrem mão do conforto da cidade. “Temos carência de médicos não apenas para os índios, mas também para os municípios”, diz Wanderley Guenka, diretor do Departamento de Saúde Indígena (DESAI).
A situação dos Sateré é mais grave. Passaram-se cinco anos desde a última vez que um médico entrou na terra indígena. O hospital razoável mais próximo fica em Parintins, mas não conta sequer com UTI. Para chegar lá com os barcos que têm à disposição, os índios levam em média 12 horas, numa viagem que dificilmente solucionará algum problema.

Os casos de catarata (doença natural do envelhecimento que causa cegueira progressiva) são um exemplo claro da precariedade da saúde na região. As cirurgias que resolvem o problema e que são as mais executadas pelos Expedicionários, raramente aconteceriam em Parintins. Segundo funcionários da Funasa (Fundação Nacional de Saúde), o hospital da cidade não conta com cirurgião oftalmologista. Apesar da grande incidência da moléstia na região, não há relatos de índios que tenham sido operados recentemente.

Em segundo lugar nas cirurgias mais executadas pela ONG estão as hérnias (mal comum a quem, como os índios, carrega muito peso). Nesses casos, existe a possibilidade remota de se conseguir algo pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Mas para tanto seriam necessárias várias idas à cidade e de oito a nove meses de espera. A precariedade da saúde, portanto, não é estranha a esse povo. Estão conformados e raramente saem em busca de atendimento.

Por isso, durante a expedição, quando as voadeiras da Funasa percorrem as aldeias buscando os pacientes previamente triados, o comparecimento é baixo. No primeiro dia, apenas 40 pessoas, entre pacientes e acompanhantes, comparecem para atendimento.
Mas os Expedicionários da Saúde também estão acostumados com a descrença e encontraram formas de contorná-la. A estratégia principal é promover duas expedições consecutivas ao mesmo local, com intervalo de alguns meses. A primeira tem o público sempre menor do que a segunda, quando os resultados já foram comprovados.

Além disso, se o comparecimento fica muito aquém do esperado, há a possibilidade de colocar alguns médicos numa voadeira e visitar diretamente as comunidades. Foi assim que o tuxaua (cacique) Amado Menezes, da aldeia Ponta Alegre, conheceu o cirurgião Fábio Atuí, da cidade de São Paulo. Numa choupana de palha, ao lado de um grande tacho de metal para torrar mandioca, o líder explica o porquê da desconfiança: “Se quando a gente tá bem o pessoal já passa a gente pra trás, imagina quando tá doente ou cego”.

Mas conforme Atuí e outros dois médicos examinam e conversam com os habitantes da aldeia, a desconfiança perde força, até que o próprio tuxaua revela ter uma hérnia. É a deixa que faltava. “Então o senhor é nosso convidado especial. Vai subir o rio com a gente, conhecer o centro cirúrgico, e, se quiser, opera essa hérnia ainda hoje”, diz o cirurgião.

Uma barraca que faz a diferença

Algum tempo depois, o líder indígena desembarca na escola agrícola e é apresentado à barraca de lona, mais bem equipada que muitos hospitais de grandes centros. O centro cirúrgico móvel é a peça-chave da organização que, ao contrário de demais iniciativas de saúde itinerante na Amazônia, volta-se sobretudo para casos cirúrgicos. As instalações, contudo, vão muito além.

Na base de operações, encravada no centro da terra indígena, funcionam também ambulatórios, centro de esterilização, farmácia e consultórios de atendimento clínico, oftalmológico e pediátrico. Durante pouco mais de uma semana, a sede da expedição comporta ainda o refeitório e o alojamento dos médicos e dos funcionários da Funasa, que reforçaram a equipe. Os 33 expedicionários (contando com o pessoal da logística) ficam hospedados em dois galpões, com um banheiro cada. Nada de luxo, mas com opções diversas de acomodação: beliches com colchões mofados, redes ou barracas.
No terceiro dia de trabalho, quando o tuxaua conhece as instalações, não parece haver carência de pacientes. Filas de doentes sobem a encosta do rio que leva à central de triagem, onde todos são cadastrados num sistema ligado em rede, criado para a ONG. Nos consultórios clínicos, os médicos não têm folga e chegam a atender noite adentro. Não é fácil fazer diagnósticos para um povo culturalmente tão diferente. A maioria dos adultos fala português, mas os idosos e crianças geralmente entendem apenas o sateré-mawé. Nesses casos, a solução para os médicos é lançar mão de tradutores e aprender algumas palavras-chave (“dor”, “coceira”, “tosse”) na língua local.

No centro cirúrgico, a equipe de oftalmologistas opera uma catarata após a outra, numa espécie de linha de montagem precisa, que em alguns minutos faz com que índios praticamente cegos voltem a enxergar. Foi assim com dona Alexandrina da Silva, que aos 98 anos tinha os olhos turvos. “De dia é tudo uma fumaceira, na minha vida. E de noite é uma escuridão só”, lamentava antes da cirurgia. Minutos depois, quando o cirurgião Wilson Takashi Hida mostra os dedos diante dos olhos dela, não há reação. Apenas silêncio e prostração, frente àquele mundo estranho e repleto de máquinas desconhecidas. Só mais tarde ela perceberia os resultados: “Não doeu nada, e quando tirei esse plástico [a lente de proteção], vi que ficou tudo limpinho”.

O tuxaua Menezes não pôde operar naquele dia. Cedeu lugar a um rapaz que cortou quatro tendões da mão quando, com um facão, cavava o chão à cata de minhocas para pescaria. Teve sorte. Não fosse a presença dos expedicionários, dificilmente voltaria a mexer os dedos atingidos.

A cirurgia, bem sucedida, ficou por conta do ortopedista Ricardo Affonso Ferreira, que há seis anos fundou a organização junto com seu primo, o anestesiologista Martin Affonso Ferreira. Ricardo costuma operar pouco durante as expedições. Como as cirurgias ortopédicas são complexas demais para a infraestrutura da mata, suas maiores atribuições envolvem administrar e comandar o exército expedicionário. Um exército que já realizou 10.280 atendimentos, 2.111 cirurgias e que, se depender de seu comandante, tornará raridade na Amazônia os índios com hérnia ou catarata. Ricardo sonha alto. Num período de dez anos, espera que a ONG, mantida por doações e parcerias, promova uma expedição por mês, frente às três anuais que ocorrem atualmente.

O tuxaua na mesa de operações
Após passar uma noite no pré-operatório, o tuxaua finalmente entra no centro cirúrgico. Quando perguntado sobre a primeira impressão diante da barraca repleta de médicos vestindo máscaras azuis, o líder indígena perde a fala. Encarregado da cirurgia, Atuí se aproxima, pede que o tuxaua sente na maca e explica o procedimento de anestesia. Uma canção do Nando Reis toca num laptop ao lado do monitor cardíaco, alimentado por geradores. “Relaxa bem o ombro, abaixa a cabeça, que ele vai pegar um pontinho nas suas costas pro senhor não sentir mais nada da cintura pra baixo”.

Horas mais tarde, o tuxaua acorda sem hérnia e sem dor. Só então arrisca um comentário sobre o centro cirúrgico: “A gente entra lá dentro e nem parece que continua aqui nesse mato. Lá é tudo muito diferente, tudo muito bonito”. No dia seguinte, sem dar atenção ao enfermeiro que pede que ele caminhe devagar, Menezes desce a encosta do rio. Promete que agora os habitantes de sua aldeia virão operar sem medo. A promessa se cumpre em parte. Nos dias seguintes, pacientes se multiplicam, mas a meta de 300 cirurgias não seria alcançada.

Como de costume nas expedições, surgem também os casos que não podem ser resolvidos na selva e que acompanharão os expedicionários na volta para casa. Uma senhora que há 18 anos não consegue trabalhar por conta de uma artrose no joelho voltará junto com a equipe. Ficará hospedada em Campinas, na casa de Ricardo, e será operada por ele.

Além dela, há um garoto que teve a perna amputada depois de ser picado por uma cobra e que havia feito uma promessa ao pai: se até os doze anos não conseguisse uma perna nova, iria se suicidar. Foi o tempo exato. Com doze anos recém-completados, o garoto recebeu a garantia de que logo mais voltará a andar, caçar e jogar bola, com ajuda de uma prótese. Por fim, há cinco crianças com lábio leporino que serão operadas em São Paulo no mês de janeiro.

Após uma longa semana, com saudades das famílias e cansados dos banhos gelados, os médicos voluntários se preparam para voltar à cidade. Para muitos deles, esses dias de trabalho intenso foram deduzidos do período de férias. Apesar disso, o consenso do grupo é que a experiência valeu a pena e que, se possível, todos estarão juntos novamente dali a alguns meses, para dormir pouco, trabalhar de graça, e fazer aquilo que, segundo Ricardo, “é o ideal que todo jovem médico tem, antes que tudo seja deturpado”.

Dez dias incomuns
Viajar com os Expedicionários é um bocado surreal. A estranheza começa já antes de deixar o aeroporto de Viracopos. Não há check-in, bilhete de passagem ou portão de embarque. Por uma portinha lateral, cada um vai com sua mala e caminha até o jato da FAB. Quem coloca as bagagens no porta-malas do avião é o próprio passageiro.
De Viracopos são seis horas de viagem até Parintins (a aproximadamente 350 km de Manaus) e depois outras cinco horas de barco até a escola agrícola que funciona como base da missão. No intervalo, um lanche rápido.

Após a instalação num grande galpão com beliches e janelas de tela, vem a recompensa: um banho de rio numa água morna, com direito a lua cheia e tudo.

Na manhã seguinte, antes do sol nascer, todos estão de pé, prontos para o trabalho. Triagens, consultas e cirurgias ocorrem num ritmo frenético, que destoa do local onde se está. Em meio à floresta, sem internet, telefone, rádio ou qualquer coisa que permita conexão com o resto do mundo.

O contato com os índios é muito pequeno. A ideia é causar o menor impacto possível, o que faz com que os médicos raramente cheguem às aldeias. Os índios é que se dirigem a eles. São tímidos e silenciosos, mesmo quando sentem dor.

Os 10 dias passam rápido, e apesar das acomodações precárias, seria agradável ficar mais tempo por ali. A viagem de volta não é mais fácil do que a de ida. Ao contrário, tem mais emoção. O abastecimento dos barcos atrasa, o que faz com que a viagem tenha de ser feita à noite, numa velocidade de 60 quilômetros por hora, num rio cheio de curvas e troncos. Nada que desanime o grupo. Na última noite, em Parintins, ainda há tempo para um jantar de despedida. Pirarucu, tambaqui e tucunaré, às margens do Amazonas.

* Tomás Chiaverini voou (São Paulo-Parintins, Parintins-São Paulo) em avião da Força Aérea Brasileira e viajou em barcos da Funasa, a convite dos Expedicionários da Saúde.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 84. Nas bancas.



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