Teia 2010 tem cortejo pela Reabolição pela Cultura em Fortaleza

Dezenas de grupos artísticos de vários cantos do país encontraram-se na beira-mar para uma marcha político-cultural que homenageou o abolicionista Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar

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Dezenas de grupos artísticos de vários cantos do país encontraram-se na beira-mar para uma marcha político-cultural que homenageou o abolicionista Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar

Por Joana Rozowykwiat

De longe, já se ouviam os tambores, os cantos, os chocalhos. Percussionistas, brincantes, bumba-meu-boi, maracatus, caboclinhos e toda a sorte de grupos afro e indígena participaram da caminhada. E nem mesmo a chuva inesperada impediu que o desfile tomasse a rua, dando uma mostra da riqueza e pluralidade das manifestações populares.

O poeta e atual diretor do Programa Cultura Viva, TT Catalão, explicou que toda Teia é marcada por uma atividade de rua. Na edição em Brasília, ela aconteceu da Explanada dos Ministérios até a Praça dos Três Poderes, e, por conta de ter sido realizada durante o 15 de Novembro, foi chamada de Reproclamação da República pela Cultura.

Desta vez, a homenagem ao Dragão do Mar teve o objetivo de resgatar a história do jangadeiro, líder de um movimento que, em 1881, se recusou a transportar escravos para dentro e fora da então província do Ceará, que terminou por abolir a escravatura em 1884, quatro anos antes da Lei Áurea.

“Antes a abolição da escravatura, agora a ebulição dos libertos, a ebulição daqueles que estavam como clandestinos dentro de seu próprio lugar e agora assumem seu protagonismo, como sujeitos de sua própria história”, explicou TT Catalão, fazendo alusão às transformações promovidas pelo programa Pontos de Cultura.

Realizada em um ano eleitoral, a atividade também teve o objetivo de chamar a atenção para a necessidade de consolidação do Programa Cultura Viva como uma política de Estado, não apenas de um governo. Com a homeagem ao Dragão do Mar, “reafirmamos, através da cultura, a nossa legítima identidade revolucionária”, dizia o material de divulgação da marcha.

“Aqui somos um”
Encantada com o evento, Iolita Ferreira, do ponto de cultura Só Falta Você, em Campo Verde, Mato Grosso, resumiu o clima do cortejo. “Aqui não há religião, cor, classe social. Há a cultura brasileira. Somos um”. Ao elogiar o programa do governo federal – que poderá beneficiar este ano cerca de 200 jovens no seu ponto de cultura -, ela defendeu que está em curso uma revolução no país.

“Está surgindo uma nova era. Com certeza, a única forma de transformação é pela cultura”, disse Iolita, para quem a Teia está sendo um “ambiente de debate, luta por efetivação de direitos e conquista da cidadania”.

Dançarino e aluno de percussão do ponto de cultura Alabá, de Fortaleza, Thiago Martins destacou o impulso que o programa deu à sua comunidade. “Com o ponto de cultura, conseguimos um espaço adequado para o ensaio e as aulas de percussão e construção de instrumentos. Também mais jovens puderam aprender, se profissionalizar. Mas o mais importante é ter um aprendizado profundo sobre a cultura negra”, disse, entre um passo e outro.

Para além da questão cultural

A bonequeira Elizabeth Bado, de Canela, no Rio Grande do Sul, acompanhou o trajeto ao lado de alguns alunos. “Estamos vendo o Brasil, convergindo em um único lugar. E nós temos tudo isso. Nós somos auto-suficientes”, disse, destacando a importância do Teia estar acontecendo, pela primeira vez, no Nordeste. “Isso é intercâmbio a que a Teia se propõe. Concretiza o discurso, já que dá a oportunidade de conhecer outros lugares”.

Elizabeth defendeu que o evento vai muito além da dimensão cultural. Ela contou que um de seus alunos, João Luís, revelou, no aeroporto de Fortaleza, que aquela era a segunda vez que anadava de elevador. “Então está acontecendo uma transformação que não é só cultural. Tem uma forte questão social. O João dificilmente poderia vir a Fortaleza se não fosse esse projeto”.
O próprio João, de 16 anos, avaliou que o Teia está sendo uma oportunidade única de conhecer pessoas e culturas diferentes. “Muita gente não sabe que isso aqui existe. Estou aprendendo muito”, contou, revelando que também nunca tinha andado de avião.

Aprendizado
O batuque de marcação própria, as danças e músicas do grupo de congado Moçambique Estrela Guia chamaram a atenção não apenas de participantes da Teia, nas de transeuntes e banhistas, que se incorporaram ao desfile. O grupo, de Uberlândia, Minas Gerais, desenvolve no seu ponto de cultura aulas de percussão, dança, bordado e alfabetização para 300 adolescentes.

Segundo o integrante do congado Malaquias Preto, o projeto virou um ponto de cultura há cerca de um ano, o que deu mais credibilidade ao trabalho desenvolvido lá.

“Agora há um apoio ao nosso trabalho. O Brasil todo passa a conhecer e valorizar. Este é um dos melhores projetos do governo federal, porque mostra o trabalho de quem está longe dos grandes centros. Sem fala que estamos tirando jovens da criminalidade”, declarou.

Sobre a participação na Teia, Malaquias abriu um sorriso e disse: “Isso aqui é maravilhoso. A gente aprende muito em contato com outras culturas”.

Publicado originalmente em Vermelho.



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