Pressão política, a fórmula para defender o clima

A norte-americana Kelly Blynn, especialista em Meio Ambiente e Geografia, viajou à Bolívia para fortalecer a seção local da organização e impulsionar movimentos juvenis que assumam a luta contra a mudança climática como prioridade

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A norte-americana Kelly Blynn, especialista em Meio Ambiente e Geografia, viajou à Bolívia para fortalecer a seção local da organização e impulsionar movimentos juvenis que assumam a luta contra a mudança climática como prioridade

Por Redação

Passar da mobilização para a pressão política sobre os líderes dos países industrializados é a fórmula escolhida pelo movimento ambientalista 350.org para reduzir o aquecimento global, explicou sua cofundadora, a norte-americana Kelly Blynn, em entrevista à IPS. Blynn, especialista em Meio Ambiente e Geografia, viajou à Bolívia para fortalecer a seção local da organização e impulsionar movimentos juvenis que assumam a luta contra a mudança climática como prioridade.

O número 350 representa as partes por milhão que cientistas especializados em mudança climática, como o norte-americano James Hansen, consideram o limite máximo seguro de concentração de dióxido de carbono (CO²) na atmosfera, para a vida do planeta. Blynn defende que os jovens tenham participação própria na 16ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP-16), que acontecerá em Cancún, no México, em novembro. Também dá força à iniciativa de “um dia de soluções locais para a mudança climática”, marcado para 10 de outubro em nível mundial.

No ano passado, em uma jornada semelhante foram realizadas 5.245 atividades diferentes em 181 países, graças a uma rede de milhares de organizações em todo o mundo, para as quais 350 se converteu em um lema unitário.

IPS: Quais lições tirar da mobilização de 2009?

KELLY BLYNN: Nosso maior êxito foi colocar o número 350 como meta científica da sociedade civil e como representação de sobrevivência. Estamos organizando para 10 de outubro um dia de realização de projetos comunitários como plantar árvores, apresentar paineis de educação, organizar passeios de bicicleta e promover o uso de paineis solares. Queremos passar uma mensagem política e fazer uma transição para um futuro sustentável, chamando a atenção dos líderes políticos e pedindo para que façam algo. Em meu país queremos incidir para que o governo adote alguma ação, porque nosso governo não quer mudar. Vimos na COP-15, de dezembro em Copenhague, que 115 nações apoiaram as medidas contra a mudança climática, mas os países com maior poder não ouviram. É importante dedicar mais tempo e campanhas para estes países e criar uma pressão política.

IPS: Como surgiu o movimento e quais são os alcances do projeto?

KB: Nasceu como um grupo de pessoas e organizações de diferentes partes do mundo, dispostas a gerar um movimento global para fazer pressão sobre os políticos. Em 2007, o cientista James Hansen, junto com outros pesquisadores, publicou um relatório, após examinar as geleiras e o Ártico, alertando que havíamos passado do nível limite de emissões de dióxido de carbono (CO²) e sugerindo que 350 partes por milhão deveria ser o limite na atmosfera. Assim, deveríamos fazer algo rapidamente. Em 2008, tomamos este número e depois contatamos vários grupos e decidimos organizar esta mobilização mundial. Pensamos que ao concentrar a ação em um único dia teríamos mais impacto. A existência da rede global ajudou muito a pressionar Washington e a mostrar que há pessoas interessadas em salvar o planeta em todos os países do mundo.

IPS: Por que o poder não ouve os pedidos para enfrentar as causas da mudança climática?

KB: O fundador da 350.org e docente da Universidade de Middlebury, dos Estados Unidos, Bill McKibben, escreveu, em 1988, o livro “O fim da natureza” e vários artigos sobre a mudança climática, mas estava cansado porque não via resultados. Formamos um grupo de estudantes e junto com McKibben unimos esforços e começamos uma campanha nacional para pressionar o Congresso a participar dos programas de redução das emissões de carbono. Junto com outras entidades, em 2007 realizamos duas mil atividades para pedir ao Congresso a redução em 80% das emissões de carbono até 2050, e pré-candidatos à Presidência, como Barack Obama e Hillary Clinton, incluíram esta meta em seus programas.

IPS: Por que o presidente Obama não pode traduzir sua proposta em ações?

KB: É difícil saber as razões. Creio que não há vontade política no Congresso e Obama sabe disso. Creio que não fizeram da mudança climática uma prioridade e, se não o fizerem, o movimento juvenil ficará decepcionado porque estará perdida a esperança que o levou à Casa Branca.

IPS: A que se deve o poder crescente das indústrias com alto grau de contaminação?

KB: Nos Estados Unidos, este ano uma decisão da Suprema Corte deu mais poder às corporações para influírem na política, tornando difícil a ação da sociedade civil, mas na Austrália e em outras nações há correntes que começam a ganhar força a favor das campanhas ambientais. As corporações são grupos importantes e as multinacionais têm mais poder do que os próprios governos.

IPS: Na Bolívia, o governo responsabiliza o capitalismo pela contaminação. O que diz a respeito?

KB: Concordo que o capitalismo causou muitos problemas, mas um sistema muito grande não muda da noite para o dia. O que fazemos por meio da 350.org e nossos aliados é gerar consciência entre as pessoas para uma mudança no modo de vida. Acabar com o consumismo é uma prioridade no momento. A mudança deve vir das bases, partir das comunidades e ser projetada para um crescimento sustentável e sem emissões excessivas de carbono. IPS/Envolverde

Por IPS/Envolverde. Crédito da foto: Franz Chávez/IPS



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