O auxílio depois do caos

Casal de voluntários goianos passa 15 dias no Haiti prestando ajuda humanitária às vítimas do terremoto e relata à Fórum tudo o que presenciou.

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Casal de voluntários goianos passa 15 dias no Haiti prestando ajuda humanitária às vítimas do terremoto e relata à Fórum tudo o que presenciou.

Por Carla Lacerda, fotos Igor Almeida e Mario Júnior

Eles ainda tentavam se acostumar com a realidade encontrada em Porto Príncipe, mas já na primeira noite na capital haitiana, devastada por um terremoto no dia 12 de janeiro, a adrenalina foi a mil. Eram mais de duas da madrugada quando o casal Igor Almeida Machado, de 28 anos, e Jakellyne Kelly Bueno de Oliveira Machado, de 24, acordou com uma multidão de mais de 3 mil pessoas correndo em direção ao local onde estavam acomodados – na verdade, o que sobrou de um prédio da polícia, que ficava em frente, a apenas 50 metros dos escombros do Palácio Presidencial.

Da laje da edificação, onde montaram acampamento, Igor tentava entender o que acontecia. Ou o que estava prestes a acontecer. Ele e a esposa haviam saído de Goiânia no dia 27 de janeiro para ajudar as vítimas da maior tragédia natural ocorrida no Haiti. Estavam acompanhados por mais oito pessoas da Jovens com uma Missão (Jocum), organização internacional que tem base em mais de 170 países e desenvolve diversos projetos sociais. E, agora, se viam numa situação pouco usual.

“Todo mundo acordou na mesma hora. Assustados, ainda meio zonzos, olhávamos uns para os outros. Procurávamos armas nas mãos deles”, relembra Igor, ao relatar que o aglomerado de pessoas se aproximava cantando um hino em crioulo. O medo, vívido principalmente devido aos relatos de saques e violência que ouviram antes da viagem, não impediu que parte dos voluntários descesse para se encontrar com o grupo. A esposa de Igor, mais conhecida como Jak, também integrou a comitiva. No braço, empunhava a filmadora, que marcava a data do episódio: domingo, 31 de janeiro.

De Goiás para o Haiti – Igor de Deus! Como a gente vai fazer para conseguir levar todos esses medicamentos?

A voz suave de Jak rompia o silêncio da noite no apartamento do Setor Faiçalville, em Goiânia, para onde os dois se mudaram depois do casamento, ocorrido em novembro de 2008. A preocupação dela na véspera do dia 27 de janeiro de 2010, data em que partiram da capital de Goiás rumo ao Haiti, era conseguir levar o máximo de doações possível para os sobreviventes do desastre considerado mais grave do que o tsunami de 2004 na Indonésia – o número de vítimas fatais chegaria a 300 mil, segundo o governo haitiano.

Ao todo eram nove caixas grandes de papelão, cheias de remédios. Após acondicionar os itens, Igor e Jak colaram um cartaz indicando a finalidade dos pacotes: “DOAÇÕES HAITI” – a última palavra em negrito. Pronto. O principal estava feito. Pertences pessoais foram arrumados rapidamente. Jak, que ficaria 15 dias com o marido no país mais pobre das Américas, levou roupa para apenas uma semana. A divisão de espaço na bagagem já revelava o que era prioridade para eles: servir ao próximo.

Do aeroporto Santa Genoveva, em Goiânia, para o Rio de Janeiro, Panamá, República Dominicana e, por terra, ao Haiti. Junto com eles, outro casal, diretores da base da Jocum em Goiânia: Mário Júnior e Merlyn Jones (Lica). Jak fazia sua primeira viagem missionária internacional. Igor já estivera na Índia, Irlanda e Portugal – nestes dois últimos países, dentro do projeto “Ide às Nações”, da Igreja Sal da Terra, da qual ambos são membros. Mas a expectativa e a ansiedade eram as mesmas. E o frio na barriga começou antes mesmo de chegarem a Porto Príncipe.

Quando faziam a conexão entre Rio e Panamá foram informados que não poderiam continuar a viagem com aquele tanto de bagagem. “A gerente do aeroporto disse que precisaríamos pagar o excesso”, conta Igor.

Apreensão.

– Jak, se tivermos que pagar, isso vai inviabilizar a entrega desses medicamentos, porque vai ficar muito caro – comentou o jovem com a esposa.

Persistência.

– Moça, não podemos pagar, não temos como pagar – insistiu com a gerente.

Foi quando a funcionária viu os cartazes “DOAÇÕES – HAITI” nas caixas que o casal levava. Permitiu prosseguirem com os pacotes.

Tumulto na fronteira Depois de chegarem na base da Jocum em Santo Domingo, capital da República Dominicana, às 2 da manhã do dia 28 de janeiro, o casal goiano só teve tempo para um banho rápido antes de prosseguirem com a viagem. De van seguiram até a fronteira com o Haiti, percurso que consumiu cerca de quatro horas em estradas de péssima qualidade – havia trechos de terra, outros com rachaduras e desnivelados, por causa do terremoto, e muitas máquinas trabalhando na pista.

Prestes a entrar no seu destino, o primeiro choque. Tumulto na fronteira. “Era uma aglomeração enorme lá. Gente querendo sair do Haiti, outros querendo pegar doações que chegavam da República Dominicana, gente que ia até o país vizinho para comprar alguma coisa e vender do lado haitiano”, descreve Igor. “Ficamos apreensivos, mas estávamos bem cientes do nosso propósito.”

Na fronteira, o casal trocou de ônibus e seguiu primeiro para Santo Marcos, cidade localizada ao norte do Haiti, que não havia sido atingida pelo abalo sísmico do dia 12 de janeiro. Igor e Jak ficaram um dia e meio no local, ajudando no cadastramento de refugiados que saíam de Porto Príncipe rumo ao interior do país. A base da Jocum em Santo Marcos também funcionava como um hospital improvisado. Foi lá também que o casal desenvolveu sua primeira missão: separar e organizar todos os medicamentos que levaram para que pudessem ser utilizados.

Mas o anseio deles era seguir para a capital, região mais atingida pelo terremoto, que alcançou 7,3 graus na escala Richter. As estimativas eram de que pelo menos 10% da população de 2,5 milhões de Porto Príncipe tinha morrido, além de 300 mil feridos, 4 mil amputados e 1,2 milhão (o equivalente ao número de habitantes de Goiânia) de desabrigados. Igor, analista de sistemas, e Jak, enfermeira, sabiam que seriam úteis. Conseguiram a autorização dos coordenadores e chegaram à capital no sábado, 30 de janeiro, antes do almoço.

Entulhos e ratos As instalações eram precárias. O prédio que serviu como acampamento dos voluntários goianos em Porto Príncipe tinha dois andares, além da laje superior (local onde dormiam), e parte dele estava caída, e parte com rachaduras. Pouco tempo antes do terremoto, uma reforma havia sido iniciada na edificação, o que assegurou que nem toda ela fosse destruída.

A primeira demanda detectada por Igor e Jak no local – que também serviu como um hospital improvisado aos sobreviventes, assim como em Santo Marcos – foi de limpeza. Por incrível que pareça, não havia vassouras nas dependências do prédio. Com o intuito de promover o mínimo de conforto – com banheiros limpos, coleta de lixo em dia, e ambientes organizados – o casal, junto com os outros voluntários brasileiros, encontrou um supermercado que resistiu ao desastre e comprou dez vassouras, um balde e quatro mobs – espécie de rodo utilizado pelos norte-americanos. O preço da compra: 300 dólares.

A tarefa, embora parecesse simples, não foi fácil. O prédio ainda tinha muito entulho e, não raro, ratos circulavam pelo chão e até no armário onde ficavam as comidas, localizado na cozinha montada no pátio da polícia sob uma grande tenda azul. Moscas também eram frequentes. A situação do banheiro era igualmente delicada. O masculino, na verdade, era um grande salão, com cinco vasos sanitários sem descarga e três duchas frias, utilizado por mais de 100 homens por dia. Por conta da alimentação precária – o cardápio não ultrapassava muito a combinação de banana com sardinha e banana com carne enlatada –, muitos passavam mal – com vômito e diarreia –, o que reforçou a importância da limpeza.

Exaustos, Igor e Jak se organizaram para descansar no fim daquele dia, 30 de janeiro, o primeiro na capital haitiana. Na laje de cimento frio, sobre uma lona azul, colocaram os sacos de dormir. Estavam ao relento, não havia cobertura na plataforma. Às 2 da madrugada ouviram um barulho, uma gritaria, um hino cantado em crioulo. Mais de 3 mil pessoas se aproximaram do prédio da polícia. Jak pegou a filmadora e desceu para ver o que acontecia Empunhava o equipamento, que marcava a data do episódio: domingo, 31 de janeiro.

Tristeza e superação Do medo ao alívio. Apesar do temor de que poderiam sofrer um ataque, a equipe de missionários se emocionou com o que viu. “O cântico era de louvor; percebemos, depois, que a melodia não era ofensiva; eles cantavam e dançavam”, comenta Jak, que, além do episódio, pôde captar com a alma e com os olhos muitas outras experiências.

“Tem muitas histórias tristes, como a de uma menininha de 5 anos, que chegou com a perna amputada na nossa base para receber curativos. Quando os médicos foram examiná-la, descobriram que ela vinha sofrendo abuso sexual desde antes do terremoto, e a mãe não sabia de nada”, assinala a jovem enfermeira.

Mas há também os relatos de superação. “Fizemos um parto durante nossa estadia e pudemos ajudar em vários outros atendimentos”, frisa ela, ao lembrar que a rotina dos voluntários basicamente se consolidou nas áreas médica, de limpeza e distribuição de alimentos.

Se eles se arrependeram em algum momento das privações que sofreram e do que testemunharam? “Nada deve ser esquecido. Nossa vontade é de voltar para lá, poder ajudar mais. Servir ao próximo é realmente gratificante”.



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1 comment

  1. João neto

    Muito Bom! O mundo precisa de pessoas como Igor e Jack….Mas se todos contribuirem um pouco o “estrondo“ no mundo poderá ter muito mais impacto!

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