Por que a esquerda perdeu o Chile?

É precipitada a analogia feita por setores da direita demotucana entre a próxima eleição brasileira e a chilena, concluída no dia 17 de janeiro. Como se sabe, o novo presidente chileno é Sebastián Piñera,...

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É precipitada a analogia feita por setores da direita demotucana entre a próxima eleição brasileira e a chilena, concluída no dia 17 de janeiro. Como se sabe, o novo presidente chileno é Sebastián Piñera, bilionário dono da Chilevisión, um dos principais canais de televisão do país, e acionista da LAN Chile e do Colo-Colo. No Chile, havia um governo de centro-esquerda, com 80% de aprovação, e um candidato da direita. Aí terminam as semelhanças entre os dois países. Aliás, não seria absurdo afirmar que não há país latino-americano com padrões históricos de votação mais diferentes dos brasileiros que o Chile.

No país andino, desde os anos 30, o eleitorado se dividiu de forma tripartida (direita, esquerda e Democracia Cristã), num desenho que tem mais semelhanças com a Europa que com outros países latino-americanos. Nas eleições presidenciais de 1958, venceu a direita. Em 1964, venceu o centro democrata-cristão. Em 1970, venceu Salvador Allende, apoiado numa coalizão entre o Partido Comunista, o Socialista e grupos mais à esquerda como o MIR (Movimento de Esquerda Revolucionária). No governo de Allende, foi o Partido Socialista, não o Comunista, que representou as posições mais radicais. O socialismo chileno, historicamente, não se alinhou com a social-democracia europeia e manteve posições independentes e classistas. A “Concertação” que governa o país desde 1990, alternando presidentes socialistas e democratas-cristãos, não é senão a expressão da ruptura do Partido Socialista com o bloco histórico de esquerda e sua opção por uma aliança com o centro. Com o encolhimento do Partido Comunista, a transição pós-ditatorial transformou o modelo tripartido chileno num modelo bipartidista, em que a população era forçada a escolher entre a direita e a Concertação. Já estava claro desde o primeiro turno que esse modelo encontraria seu esgotamento nas eleições de 2009-10.

Esta é uma especificidade chilena: há um eleitorado organicamente conservador, que vota, convicto, numa direita que não tem medo de dizer seu nome. É uma situação diferente da brasileira, na qual conservadores da Opus Dei usam bonezinhos do Banco do Brasil para tentar se eleger. A ditadura de Pinochet se impôs de forma sangrenta, mas ela representava, no momento de sua instalação, pelo menos um terço do eleitorado chileno. Nas eleições de 2005-06, foi a direita que se dividiu: Joaquín Lavín, da UDI (a direita pinochetista), teve 23,2% dos votos no primeiro turno e depois apoiou Piñera, da Renovação Nacional (a direita com cara modernosa e empresarial). Desde que perdeu o segundo turno para Bachelet em 2006, Piñera não deixou de fazer campanha. Você tem a fórmula da vitória da direita juntando a isso os fatos de que 1) a gestão econômica concertacionista não mudou em grande coisa o modelo privatista herdado de Pinochet; e 2) era visível a falta de entusiasmo de Bachelet com o candidato da Concertação, o democrata-cristão Eduardo Frei, presidente nos anos 90 e, francamente, um sujeito que faz José Serra parecer carismático.

A novidade das eleições acabou sendo um garoto de 36 anos, Marco Enríquez-Ominami, que arregimentou respeitáveis 20% dos votos no primeiro turno. MEO, como é conhecido no Chile, é filho de um dirigente histórico do MIR, assassinado pela ditadura. Foi criado no exílio, falando francês. Empunhando bandeiras populares, como a convocação de uma Assembleia Constituinte – o Chile ainda vive sob a inominável Constituição promulgada por Pinochet em 1980, que sofreu várias emendas, mas cujo arcabouço se mantém –, MEO canalizou boa parte da insatisfação com a pasmaceira da coalizão governista. Ele está à esquerda do bloco dominante da Concertação, sem dúvida, mas seu personalismo não ajudava a resolver o impasse da centro-esquerda. Sabia-se que os seus 20% seriam decisivos no segundo turno, e sua “declaração de apoio” a Frei depois do primeiro turno mais se pareceu com uma chamada ao voto nulo. Ele sequer mencionou o nome do candidato que supostamente apoiava. Jorge Arrate, do Partido Comunista – cuja candidatura era mais um indicador da fragmentação das forças anticonservadoras – não passou dos 6,5% dos votos. Apoiou Frei sem ambiguidade no segundo turno, mas sua base não foi suficiente para fazer a diferença.

Nas minhas constantes viagens ao Chile, ao longo da última década e meia, sempre tive a oportunidade de debater política com o radicalizado movimento estudantil chileno. Invariavelmente, escutei os argumentos de que a direita não interessava e que o inimigo era a Concertação. O impasse era real. Por um lado, era inegável que a Concertação havia se transformado num status quo comodista. Por outro, não era possível ignorar o perigo de uma direita que havia alcançado 47,5% dos votos no primeiro turno das eleições de 1999-2000. Minha resposta ao argumento dos estudantes era sempre a mesma: “Quem sou eu para lhes dizer o que fazer em seu próprio país, mas acho que vale a pena meditar um pouquinho sobre o que seria um governo da direita pinochetista. Talvez seja possível romper pela esquerda o impasse da Concertação. Brasil e Chile são países muito diferentes, mas a história do PT brasileiro é bem instrutiva e vale a pena ser estudada”. Na linha da minha resposta aos amigos estudantes, vale a pena ler as análises publicadas pelo Clarín, jornal da esquerda chilena, disponíveis em www.elclarin.cl (não confundir com o Clarín argentino, que é feito da mesmíssima massa golpista das Vejas, Folhas e Globos).

Em alguns setores da esquerda latino-americana, ganhou vigência a tese de que a derrota se explica pela alta abstenção. A tese não é falsa, mas merece uma explicação. No Chile, a inscrição para votar é facultativa, mas, uma vez que o eleitor está inscrito, o voto é obrigatório. É a legislação eleitoral mais bizarra que já vi. Dos 12,2 milhões de chilenos maiores de 18 anos, só 8,2 milhões estão inscritos. Desses, 7,2 milhões votaram. A abstenção entre os inscritos não foi maior que a normal, mas milhões de jovens deixaram de se inscrever nas duas últimas décadas, fazendo com que a porcentagem de eleitores com menos de 30 anos de idade, nesta eleição, fosse somente de 9,2%. Essa porcentagem, na eleição de 1988, foi de 35%. Está aí o resultado de uma política de acomodamento aos limites do possível. A Concertação perdeu porque as forças que poderiam romper o seu impasse pela esquerda não souberam fazê-lo. Que saibamos extrair deste desastre as lições que ele deixa.

Este artigo é parte integrante da Edição 83 da Revista Fórum



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