Pernambuco como paradigma do potencial cidadão da música

O Partido dos Trabalhadores governa Recife há uma década: João Paulo Lima e Silva cumpriu dois mandatos (2001-2008) antes de dar lugar a João da Costa Bezerra Filho (2009-13). Precavendo-se sempre contra o estabelecimento...

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O Partido dos Trabalhadores governa Recife há uma década: João Paulo Lima e Silva cumpriu dois mandatos (2001-2008) antes de dar lugar a João da Costa Bezerra Filho (2009-13). Precavendo-se sempre contra o estabelecimento de relações mecânicas entre os fatos da política e os fatos da cultura, não é exagerado dizer que essas três eleições de petistas à prefeitura se inserem num programa mais amplo de reconquista e reinvenção da cidadania em Pernambuco, no qual a música — a espantosa riqueza da coleção pernambucana de sons, uma enormidade até para padrões brasileiros — tem cumprido um papel decisivo, colocando em contato a produção das camadas mais jovens com os gêneros da tradição, dando circulação e visibilidade à cultura afro-pernambucana (com todo o peso político que tem esse ato) e estabelecendo pautas para a reconquista da autoestima da cidade. Esta coluna é uma breve introdução ao que vejo como a dimensão cidadã de algumas sonoridades pernambucanas.

O livro que co-organizei com Christopher Dunn, Música brasileira popular e cidadania [Brazilian Popular Music and Citizenship], inclui 20 pesquisadores brasileiros e estrangeiros e finalmente, depois de longa labuta, será publicado no primeiro semestre de 2011 pela editora universitária de Duke. Trata-se de um esforço coletivo de reflexão sobre as relações entre a música popular e os vários processos de conquista, e também de cerceio, de cidadania no Brasil. Meu cantinho é sobre Pernambuco, e se dedica a trabalhar uma hipótese que se desdobra em duas: o Manguebeat revoluciona possibilidades combinatórias para a música de Pernambuco (e daí para a do Brasil) porque ele abre canais de contato entre, por um lado, gêneros internacionais não canonizados no panteão rock/pop e, por outro, gêneros brasileiros sentidos e vividos como experiências regionais, não “elevados” ainda à condição de representativos do cânone nacional. Esse dado é essencial: marginálias globais e locais se encontram em Pernambuco sem a mediação do cânone sancionado como nacional. A revolução no hibridismo pernambucano— e esta é a segunda faceta da hipótese — aciona um potencial cidadão na prática musical, redefinidor da relação de seus sujeitos (tanto produtores como consumidores) com a pólis. Esses são os núcleos do argumento, que se nutre de canções de Chico Science/Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, e menções a bandas de outro momento da cena pernambucana, como Cascabulho, Mestre Ambrósio e Eddie, todas elas bem diferentes entre si.

No caso do hibridismo que se desenvolve a partir do final dos anos 80 e passa a ser conhecido nacionalmente em meados dos anos 90, salta aos olhos um traço pernambucano particular: a vigência que passam a adquirir, para enormes setores da juventude, gêneros musicais que, até havia pouco tempo, eram percebidos como folclóricos, pretéritos, afastados de qualquer significação presente a não ser na condição de relíquia. Os casos do maracatu, do coco e da ciranda são exemplares: não há dúvidas de que hoje uma parcela bem mais ampla da juventude pratica esses gêneros em Pernambuco do que era o caso trinta anos atrás. A responsabilidade por essa comunicação cabe tanto ao Manguebeat, que fez uso criativo desses gêneros para uma quantidade de jovens, como aos incontáveis artistas das comunidades de maracatu, cavalo-marinho, coco, frevo, caboclinho e ciranda, entre outros gêneros, que continuaram praticando essas formas musicais, folguedos e dramaturgias ao longo de décadas, mesmo em época de vacas magérrimas nos quesitos atenção e circulação.

O surgimento de grupos como o Maracatu Nação Pernambuco, fundado em 1989 e composto por jovens com a explícita preocupação de difundir o gênero, já revelava que a tradição se comunicaria com o presente de formas não ousadas até então. Mestre Salustiano, um dos maiores rabequeiros do Brasil, intérprete de vários personagens do cavalo-marinho e um dos grandes nomes do maracatu em Pernambuco, chegou a presenciar, antes de morrer em 2008, a sua arte sendo transformada pelo filho, Maciel Salu, hoje figura de destaque na Orquestra Contemporânea de Olinda, grupo que transita do frevo ao funk. Um dos marcos do reconhecimento da cultura afro-pernambucana é a honraria de Patrimônio Vivo da Cultura Pernambucana, concedida pelo governo do estado ao Leão Coroado, maracatu de baque-virado fundado em 1863, em Olinda. Há incontáveis outros exemplos da permeabilidade entre gerações, ritmos e tradições que marca a cultura musical pernambucana nas últimas décadas, mas o fato é que este não é só um dado estilístico. Trata-se de um fato musical-social que é produtor, indutor, gerador de cidadania, que produz efeitos reais na pólis.

No terreno das lutas culturais, sem dúvida o momento-síntese é o enfrentamento entre Ariano Suassuna e Chico Science. Suassuna, um gigante das letras pernambucanas, combinava a paixão pela cultura popular com nítida falta de confiança em seu poder de dialogar em igualdade de condições com outras culturas sem ser corrompida. Nas discussões sobre os rumos da cultura, Mestre Suassuna acabou adotando uma atitude defensiva, patrimonial, apegada a uma essência estática que supostamente se deveria preservar — atitude oposta à deglutição arriscada de conteúdos díspares que observamos em sua obra artística, seja na literária (Pedra do Reino) seja na musical (o projeto Armorial). Chico Science não é, então, só um adversário teórico de Suassuna: ele é a figura que vislumbra esse caráter contraditório na defesa que faz Suassuna da tradição. Essa duplicidade se manifestava na própria relação de Suassuna com Chico, por um lado recusando-se a reconhecer seu nome de batismo artístico, chamando-o somente de “Chico Ciência” e negando, inclusive, à sua arte qualquer mérito real; por outro lado, chorando copiosamente ao segurar as alças do caixão naquele fatídico domingo de fevereiro de 1997.

É verdade que alguns balanços do Manguebeat tenderam a sobreestimar o poder do movimento, como se antes dele a tradição musical pernambucana estivesse em estado de inanição. Estes exageros devem ser corrigidos, inclusive com os devidos créditos a quem militou durante décadas em condições de isolamento. Mas não há dúvidas de que, a partir dos anos 90, emerge um novo registro nas relações com a tradição em Pernambuco, assim como um novo modelo de entendimento dos vínculos entre música e cidadania. Os efeitos dessa grande renovação musical ainda estão bem longe de cessar.

Este artigo é parte integrante da Edição 93 da revista Fórum.



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3 comments

  1. Lucas Jerzy Portela Responder

    a Reforma Cultural Bahiana, desde que Marcio Meirelles tornou-se Secretário de Cultura no Governo Wagner, tem seguido por aí. Acho que merece um comentário seu, não?

  2. dMart Responder

    Olá, Idelber. Sou músico, jornalista e escritor. Trabalho na Televisão Educativa do RS.

    Muito legal o artigo. Como posso adquirir um exemplar do livro “Música brasileira popular e cidadania”?

    Meu trabalho de conclusão de curso no jornalismo foi justamente o Manguebeat, publicado em 1998, tratava do movimento como “uma alternativa da cultura regional perante o processo de globalização”. Estive em Recife divulgando meu livro neste mês e pude comprovar o impacto ainda existente deste processo e muitas das ideias colocadas neste artigo se alinham com o que pude averigurar em encontros e bate-papo informais com a cena cultural da cidade.

    Favor, aguardo retorno.

    Baita abraço, dMart.

    1. Avelar Responder

      Olá, dMart. Obrigado pelo interesse. Eu não sei se o livro está à venda em alguma livraria brasileira, mas pela internet é fácil encomendá-lo. Na Amazon, por exemplo:

      http://www.amazon.com/Brazilian-Popular-Citizenship-Idelber-Avelar/dp/082234906X/ref=sr_1_1?ie=UTF8&s=books&qid=1306168607&sr=8-1


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