Racismo sem racistas, por Ana Maria Gonçalves

“Hoje em dia, com exceção de membros de organizações brancas supremacistas, poucos brancos nos Estados Unidos se proclamam “racistas”. A maioria dos brancos afirma que “não vê cor alguma, apenas pessoas”; que embora a...

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“Hoje em dia, com exceção de membros de organizações brancas supremacistas, poucos brancos nos Estados Unidos se proclamam “racistas”. A maioria dos brancos afirma que “não vê cor alguma, apenas pessoas”; que embora a face feia do racismo ainda esteja entre nós, não é mais fator central determinando as oportunidades de vida das minorias; e, finalmente, que, como Dr. Martin Luther King Jr, eles sonham em viver em uma sociedade na qual as pessoas sejam julgadas pelo caráter, não pela cor da pele. Mais incisivamente, a maioria dos brancos insiste que as minorias (especialmente os negros) são os responsáveis por “playing the race card” (expressão usada para apontar uso vitimizador e mal intencionado da diferença racial), por exigirem a manutenção de programas desnecessários e divisivos baseados em raças, como ações afirmativas, e por bradar “racismo” sempre que são criticados por brancos. A maioria dos brancos acredita que se os negros e outras minorias simplesmente parassem de pensar no passado, trabalhassem duro e reclamassem menos (particularmente de discriminação racial), então americanos de todas as cores poderiam viver em paz.”

O texto acima é o parágrafo inicial do livro Racism without racists, de Eduardo Bonilla-Silva, sobre o que nos EUA está sendo chamado de “color-blind racism”, ou apenas “color blindness” (algo como o racismo que não leva em conta a cor/raça). Este é apenas um dos muitos estudos publicados sobre esse novo tipo de racismo (para os norte-americanos) que, segundo Bonilla-Silva, é muito parecido com o racismo existente nos países caribenhos e latino-americanos, Brasil incluido. Esse tipo de racismo permite manter os privilégios dos brancos sem alarde, sem nomear aqueles a quem ele submete e aqueles a quem beneficia. Ele deu cobertura para que o ex-presidente Bush (filho), por exemplo, expressando a opinião de muitos norte-americanos, dissesse “Eu apoio enfaticamente todo tipo de diversidade, inclusive a diversidade racial no ensino superior”, ao mesmo tempo em que chamava o programa de ação afirmativa da Universidade de Michingan de “falho”, “inconstitucional” e “discriminatório” contra os brancos.

A universidade de Michigan usa um sistema de pontuação para aprovar seus candidatos, em uma escala que vai até 150 pontos. Se o aluno gabaritar o SAT (uma prova que geralmente envolve matemática, escrita e leitura crítica), ganha 12 pontos, ou 20, no caso de pertencer a alguma minoria. Bush, ao chamar esse sistema de injusto e inconstitucional, esqueceu-se de mencionar o tipo de ação afirmativa do qual se beneficiou, o “legacy admittee”. Através desse sistema, presente nas principais universidades norte-americanas, filhos de ex-alunos, quase todos brancos e ricos, têm preferência na admissão. Isso permitiu que Bush, um aluno média C durante o colegial e com um SAT de 180 pontos abaixo da média norte-americana, fosse admitido em YALE, uma das universidades mais disputadas e bem ranqueadas, seguindo os passos de Bush pai e Bush avô. Esse sistema preferencial ganhou força após a Primeira Guerra Mundial, sob um regime de segregação racial e quando os Estados Unidos estavam recebendo grande fluxo de imigrantes, e ainda hoje garante de 10 a 30% das vagas para filhos de ex-alunos. No livro The Shape of the river, os autores e ex-presidentes de Harvard e de Princeton admitem que os “legacy students” têm quase o dobro de chance de serem admitidos se comparados a alunos sem laços familiares anteriores com as instituições. Embora esse programa seja do tipo de reserva de vagas ele raramente foi citado ao lado de argumentos como “os alunos negros estão tirando vagas de alunos mais capacitados”. Talvez o “color-blind racism” impeça muitos de verem a cor dos privilegiados, assim como a dos desprivilegiados, afinal de contas, “we are all Americans”.

O “color-blind racism” permite que certos privilégios sejam mantidos na era pós Direitos Civis, sem que sejam vistos como tais, já que ninguém é impedido de entrar onde quiser, de frequentar as escolas para as quais se qualifica, de usar os banheiros públicos mais convenientes, de se casar com a pessoa pela qual se apaixona (embora mais de um terço dos norte-americanos desaprove os casamentos inter-raciais, porque estão preocupados com o bem-estar dos filhos dessas uniões), ou de ocupar qualquer acento vago nos ônibus, trens e metrôs. A eleição do primeiro negro presidente dos Estados Unidos da América, como afirmaram muitos americanos, inclusive negros, era a prova de que o país não era mais racista, que os negros não teriam mais desculpas para explicar as desigualdades sociais, políticas, culturais e econômicas em relação aos brancos. Era a prova, festejavam muitas mães negras, de que o “american dream” também estava disponível para seus filhos, que seriam os únicos responsáveis pelo próprio sucesso ou fracasso. Enfim, chegava ao país a tão sonhada democracia racial.

Em sua análise sobre a eleição de Obama, Bonilla-Silva diz que seu sucesso foi ter “adotado uma persona e uma política pós-racial. Ele se distanciou da maioria dos líderes dos Movimentos Civis, de seu próprio reverendo, de sua igreja e de qualquer um que o fizesse parecer “muito preto” e “muito político”. O que o fez ser visto pelos seus eleitores brancos como “o primeiro líder negro que eles se sentiam confortáveis em apoiar, porque ele não fala de racismo; porque ele os faz lembrar, sempre que tem a oportunidade, que é metade branco; porque ele é, nas palavras do senador Biden, (…), ‘o primeiro afro-americano influente que é articulado, inteligente, virtuoso e bem apessoado.’ ; porque Obama fala sobre unidade nacional; e porque ele, diferente de líderes negros odiados pelos brancos, como Jesse Jakson e Al Sharpton, não os faz se sentirem culpados pela situação das relações raciais no país.”

Acho interessante, principalmente, essa última frase, pois ela me remete ao significado do mito da democracia racial brasileira para a elite que estava tentando salvar o Brasil de seu destino de país condenado pela miscigenação, de seu racismo velado (na época, nem tanto) e segregador. O que me faz lembrar de uma entrevista de Gilberto Freyre ao JB, em 14/04/1979. Perguntado quem chegaria primeira à presidência da república no Brasil, o negro ou a mulher, ele respondeu: “O negro. Acho que ele tem mais possibilidades de chegar a essa culminância.” Gostaria que ele tivesse vivido para ver.; e que todos soubessem o casal Obama foi beneficiado por programas de ações afirmativas quando na universidade. Se Barack não tivesse recebido essa forcinha, quem seria hoje a presidenta dos EUA?



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16 comments

  1. Ismael Responder

    Como fica então aqui no Brasil onde não há nada parecido com o “legacy admittee”, principalmente em universidades públicas que devem admitir somente pela nota do aluno, avaliada sem identificar seu autor ?

    Infelizmente eu percebo sim a questão de “playing the race card”. E creio que quem deveria repelir esse tipo de atitude são os líderes negros sérios. A fim de diferenciar uma luta legítima de oportunistas ocasionais.

    E sim, existem oportunistas em qualquer camada social ou racial.

    Muito se diz que a imensa maioria dos pobres são negros, e acredito que seja verdade, mas então porque não criar quotas somente para pobres. Abrangeria os pobres negros e brancos igualmente.

    A pergunta que nunca é respondida ou mesmo feita: Quando acaba o incentivo?

    Existe uma medição para determinar quando o incentivo irá acabar ?

    Quando for discutido seu fim, não irá será novamente jogada a “race card” ?

    Exemplo pouco citado: Mulheres tiveram muito incentivo e se nota que hoje existem muitas empresas que naturalmente preferem mulheres(por algumas justas qualidades, diga-se).

    Mas e aí, não estaria na hora de rever os estímulos para evitar uma vantagem inversa a anterior?

    Muito se usa a “carta da discriminação” para barrar o debate com constrangimento. Principalmente de políticos que tem medo de receberem rótulos para futuras eleições.

    1. Hugo Albuquerque Responder

      Ismael, o sistema constitucional brasileiro visa não apenas a igualdade formal como também a igualdade substancial. É uma questão, portanto, não de igualdade em sentido estrito, mas também de equidade. Não é apenas fazer com que todos os maratonistas larguem simultaneamente, mas que também estejam na mesma marca na hora da largada. Uma luta por igualdade é garantir acesso republicano às cadeiras universitárias – sem distinções prévias -, mas ela só tem sentido se haja o reconhecimento de que nem todos os setores da sociedade estão partindo da mesma marca – aí nos deparamos com a luta por equidade, isto é, diferenciar entre (e não contra) aqueles que já estão formalmente igualados.

      Isso, o sofisticadíssimo post da Ana já dá mais do que conta – e o comentário do Patrick fecha a questão: vagas não foram fechadas nos últimos anos, ao contrário, o governo Lula promoveu acesso massivo tanto às universidades públicas quanto privadas, mas garantindo a equidade que faltava a esse acesso, que não é meramente “social”, mas também étnico.

  2. Patrick Responder

    Como fica então aqui no Brasil onde não há nada parecido com o “legacy admittee”, principalmente em universidades públicas que devem admitir somente pela nota do aluno, avaliada sem identificar seu autor ?

    Relaxe, Ismael. Só nos últimos 5 anos foram criadas mais de 77 mil vagas nas universidades federais, um crescimento superior a 50% em termos relativos. Dá e sobra para cobrir a entrada de novos setores sociais na universidade pública e atender à clientela de sempre.

  3. outro Edson Responder

    As universidades públicas brasileiras não têm um programa de “legacy admittee”, mas sempre existiram “ações afirmativas” voltadas para um público, digamos assim, mais seleto.

    A famosa Lei do Boi (1967-85) já é bem conhecida. Mas hoje em dia mesmo ainda vige a prioridade para militares e filhos de militares no acesso a vagas de reingresso nas IFES. Já vi isso mais de uma vez. O cara é filho de oficial, faz vestibular em faculdade privada, cursa 1 ou 2 semestres, pede transferência para a univesidade pública e é aceito. Ninguém reclama disso.

    E esse papo de “playing the race card” é dose. O racismo passou a existir no momento em que passou a ser discutido? A culpa é da vítima? Eu não sei ainda se as cotas são a melhor forma de compensação e inclusão mas, definitivamente, não tenho dó do chororô dos frequentadores de cursinho que agora se sentem ameaçados em seu sagrado direito de adentrar a universidade pública classificando-se em último lugar no vestibular. Ainda mais quando se sabe que o número de vagas dobrou nos últimos anos.

  4. Jesiel Oliveira Responder

    Prezado Ismael, o “legacy admitee” também existe no Brasil: basta traduzir a expressão por “ensino privado”. O fato é que a grande maioria dos estudantes que fazem o ensino básico no sistema público chegam ao vestibular com deficiências de formação tão graves que tornam a aprovação dos mesmos dificílima, sobretudo para quem escolha os cursos prestigiados. Enquanto persistir a criminosa omissão de nossos governantes (incluindo aí os que foram eleitos nos últimos 10 anos) com relação à qualidade do ensino público, as cotas para afrodescendentes continuarão a ser um paliativo necessário. A situação é, atualmente, tão feia que, caso fossem implementadas cotas sócio-econômicas, simplesmente a imensa maioria dos candidatos vindos de famílias pobres não conseguiria sequer obter a nota mínima para ingresso na universidade, tornando o sistema inócuo. Através das cotas raciais, pelo menos estudantes negros e indígenas vindos de famílias “remediadas”, que com muitos sacrifícios conseguem proporcionar a seus filhos uma educação menos pior, dispõem de chances reais para entrar numa universidade.
    Sou pesquisador acadêmico na área das relações raciais brasileiras, estou constantemente monitorando o noticiário sobre o assunto e o que observo é que são maioritariamente os brancos e “morenos” brasileiros que estão recorrendo assiduamente ao “race card”, atacando como expressão de “racismo ressentido” todo tipo de reivindicação dos segmentos que, há 500 anos, são ignominiosamente explorados no Brasil. É esse tipo de discurso que efetivamente tem procurado barrar pelo constrangimento o debate sobre os fatores políticos e culturais que colocaram a população negra brasileira numa situação de carência e exclusão bem pior do que aquela existente até mesmo entre os negros sul-africanos em plena vigência do apartheid.
    Concordo com você que é preciso constituir mecanismos para avaliar as políticas afirmativas e definir o seu período de aplicabilidade. Certamente quando os índices de qualidade do ensino público atingirem níveis decentes, as cotas se tornarão desnecessárias. E é fundamental recordar que a luta por investimentos maciços na educação popular é uma bandeira histórica do Movimento Negro brasileiro. O grande problema tem sido convencer as classes médias, compostas em sua maioria por pessoas com fenótipo branco, que também elas precisam se engajar vigorosa e solidariamente nessa luta. Estamos esperando por isso desde a abolição da escravatura. Pode ter certeza que no dia em que começarem a acontecer no Brasil grandes manifestações reunindo pessoas de todas as cores e classes a exigirem a universalização imediata de direitos básicos, a aplicação da riqueza nacional em benefício real do conjunto da população e a consequente ruptura com o sistema econômico predatório que sangra a nação através de superávits primários, juros extorsivos etc — nesse dia a liberdade e a justiça, enfim, abrirão as asas sobre todos nós.

    1. Ismael Responder

      Patrick, Edson e Jesiel.

      Eu não concordo com o argumento de vocês associando os cursinhos a uma espécie de “legacy admitee”. Obviamente o estudo privado de antes da universidade hoje oferece vantagem. Mas isso nem de perto pode ser comparado a uma absurda reserva como citada no texto para o Bushinho invasor do iraque.

      Aliás, isso é algo a se questionar para os eternos defensores dos EUA. Muitas práticas que aqui são registradas como ilegais como isso e lobby altamente remunerado, nos EUA é considerado legal, “em prol do capitalismo” e outros eufemismos para defender a pouca vergonha.

      Mas voltando ao tópico, práticas como prioridade de financiamentos legais ou não, precisam ser combatidas sim.

      Temos mesmo uma camada da classe média e alta que parece se julgar aristocrata, ou uma nobreza estilo faraós, escolhidas pelo Divino.

      O caso é que não podemos dividir as opiniões em meros FAVOR e CONTRA. Considero que no afã de pleitear direitos, algumas lideranças, por vezes, tentam inibir o debate, transformar em monólogo. E isso causa beligerância.

      Enfim, não concordo com vocês, mas deixo aqui um obrigado por oferecerem contraponto inteligente, sem partir para o tipo de recurso que citei acima.

      Abraço.

  5. rachel nunes Responder

    Recorrendo a um trocadilho infame, o que percebo como “color-blind racism” é, na verdade, uma blindagem racista, uma interdição ao tema pela negação mesma da realidade, conforme vimos no livrinho da Ali Kamel, “Não somos Racistas”, um capítulo na luta contra as políticas compensatórias, que poderiam, por exemplo, de fato inexistir se o sistema educacional brasileiro obtivesse um nível de excelência no meio público, e se, para ingressar em universidades públicas, os pretendentes tivesse que ter sua formação completa no ensino público fundamental, o que, certamente, produziria um melhor sistema educacional, pois então as classes dominantes exigiriam o ensino de qualidade para que também seus filhos cursassem o ensino público e pudessem gozar dos privilégios que hoje gozam, quando são os que preferencialmente ocupam as vagas da universidade pública, pelo benefício da concorrência desleal que consiste na melhor formação adquirida no ensino privado fundamental, contra os alunos egressos das normalmente péssimas condições do ensino público fundamental.

    É triste ver pessoas defendendo o privilégio como direito constitucional, sendo este justamente o da igualdade, quando o que não há é justo a igualdade entre aqueles que competem para ingressar no ensino público universitário, pois de um lado estão os filhos das classes dominantes, que cursaram razoáveis instituições de ensino privado, e, de outro, os filhos das classes trabalhadoras, que tiverem cursos irregulares e, além disso, sofrem o constrangimento de ter que estudar em regime compartilhado a algum trabalho que produza renda, mesmo que diminuta, para fazer face às necessidades familiares.

    Quando houver direito universal à boa educação, assistência médica, renda, emprego e lazer a todos os brasileiros, a discussão sobre políticas compensatórias perderá o sentido. Mas quando haverá? O que vemos é que os direitos fundamentais, para falar na Constituição que políticos do DEM, por exemplo, citam em suas ações contra qualquer forma de regime de cotas hoje em uso em algumas universidades brasileiras (aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, na UERJ), não são respeitados, e continuam a existir os cidadãos de primeira, segunda, terceira classe e uma enorme multidão de sem classe, o chamado lumpemproletariado. O que se quer com essa blindagem contra os temas raciais é fazer com que o estado de coisas hoje em curso assim se preserve, mantendo os “privilégios adquiridos”, não direitos, porque usurpados, das classes dominantes.

    Há de se construir para o futuro uma sociedade de fato com direitos iguais para todos, uma sociedade sem classes. Mas, como o que temos hoje é uma sociedade de classes com imensa disparidade, a ausência de políticas compensatórias constitui a garantia da manutenção do status quo, violando, assim, os preceitos constitucionais que os hipócritas dizem defender.

  6. rachel nunes Responder

    Outra interdição comum é a alegação de que, ao tratar as questões como “temas raciais”, estamos referendando o conceito de “raça”, quando há somente a raça humana, e que ainda estaríamos importando uma discussão que pode fazer sentido nos EUA, mas não no Brasil, com sua miscigenação que impede a caracterização plena de pessoas como negras, brancas ou amarelas. Obviamente não existem raças, mas existe, sim, “preconceito racial”, e este é socialmente estruturado para não permitir a ascensão social de pessoas com “problemas de pele”; quanto as diferenças entre o Brasil e os EUA, sim, elas existem, mas o temor de despertar uma “consciência racial” é oriundo mesmo do temor de constituir uma sociedade igualitária e livre do preconceito racial.

  7. wagner Responder

    Na minha opinião qualquer método facilitador de entrada numa universidade, que não tenha a ver com o sistema de mérito adotado, é injusto, seja o familiar, o de ex-aluno, o da compra dos gabaritos e, mesmo o das cotas. As cotas tem o objetivo nobre de compensar dificuldades sociais, injustiças anteriores, etc. Tudo bem, concordo com o objetivo, mas simplesmente facilitar a entrada é uma solução simplista e demagógica de quem não quer pensar muito.

    Ok, pode-se argumentar que a concorrência é desleal, que quem estudou em escola privada de qualidade tem mais condições e tal. Verdade indiscutível, mas porque não fazer o seguinte: selecionar os melhores alunos da escola pública na 8ª série e dar um tratamento especial (escolas especiais equivalentes às escolas privadas) pra colocar esse pessoal na mesma condição de fazer vestibular com os oriundos da escola privada. Os melhores poderiam receber uma bolsa, já que possivelmente teriam que trabalhar. Ações afirmativas desse tipo resolveriam o problema de forma muito melhor, sem comprometer mais ainda o nosso fraco ensino, mas dá muito mais trabalho.

    Claro que a meta deve ser todas as escolas públicas com qualidade mas isso é coisa de décadas (ou séculos, com o empenho que os governantes dão a esse problema).

    1. Hugo Albuquerque Responder

      Wagner,

      Como seu próprio argumento sugere, não é possível nivelar cotas étnicas a “compra de gabaritos” e “favorecimentos pela família” – pois cotas são, goste-se ou não delas, políticas públicas, enquanto as segundas variam entre crimes e favorecimentos estamentais que não se coadunam com a ordem republicana em que vivemos. Nivelar favorecimentos estamentais a cotas, aliás, é bem manjados: enquanto as primeiras reproduzem desigualdades, as segundas servem para dirimi-las de forma substancial.

      Ademais, existe um espaço considerável de tempo – de gerações, aliás – entre os efeitos de uma política pública para educação de base no tocante a dar a todos as mesmas oportunidades na formação elementar. Enquanto isso, os negros deveriam esperar? Aliás, como comprovam as próprias pesquisas, estudantes cotistas têm médias superiores aos não-cotistas, onde é que as cotas colaboram para piorar a qualidade acadêmica? Tem provas?

  8. rachel nunes Responder

    Para finalizar, o título de matéria publicada no Globo on line agora há pouco deixa bem claro: Cor e raça são determinantes no trabalho, mostra pesquisa do IBGE (ver em http://oglobo.globo.com/pais/mat/2011/07/22/pesquisa-do-ibge-mostra-que-63-7-dos-entrevistados-reconhecem-influencia-da-raca-da-cor-na-vida-924959050.asp). Nos comentários dos leitores de O Globo, vemos a expressão de toda desfaçatez acima mencionada, e pior: racismo explícito. Portanto, por favor, não me venham com negaceios óbvios – a verdade está estampada nas palavras, por menos cor que elas tenham.

  9. Juarez Silva (Manaus) Responder

    Olá Ana Maria, sempre muito gratificante ler seus artigos a exemplo da “Carta ao Ziraldo”.

    É isso mesmo, o fenômeno que você descreve e que agora os norte-americanos estão descobrindo, já é velho conhecido dos brazucas…; é o Brasil “exportando tecnologia racista mascarada” que como diria Lobato ” ´Work´ muito melhor”.

    O estilo e práticas que agora vemos nos EUA (como a argumentação de que qualquer manifestação ou denúncia sobre racismo é “playing the race card” ) ou tentando inverter descaradamente as coisas ao chamar os ativistas anti-racistas de “racialistas”, já tem registro farto no Brasil.

    Há algum tempo dediquei também alguns escritos no mesmo sentido, tendo sido repercutidos por vários sites na web, vai ai o link de um deles:
    http://amaivos.uol.com.br/amaivos09/noticia/noticia.asp?cod_noticia=10852&cod_canal=71

  10. Mateus Araújo Responder

    Ana, color-blind é o que chamamos de daltônico, uma pessoa que é incapaz de diferenciar todas ou algumas cores (verde e vermelho é a combinação mais comum). Portanto, “racismo daltônico”.

    Forte abraço,

    Mateus Araújo

  11. DENILSON JOSÉ Responder

    ATÉ MEADOS DO SÉCULO IXX, AINDA PERDURAVA NOS MEIOS ACADÊMICOS A IDÉIA DE QUE O NEGRO ERA FRUTO DE UM CRUZAMENTO, RESULTANDO EM UM SER HÍBRIDO, OU AINDA UMA TEORIA MAIS RECENTE DIZ QUE O NEGRO SOFRE DISGENIA, UMA ESPÉCIE DE INVOLUÇÃO DEVIDO AO LONGO TEMPO SUBMETIDO A UMA VIDA DE STRESS CONTÍNUO, TENDO COMO RESULTADO UMA OCORRÊNCIA MAIOR DE DOENÇAS CARDIOVASCULARES, ANEMIAS, DIABETES ENTRE OUTRAS. MAS, CONTRARIANDO VÁRIOS ESTUDIOSOS, OS NEGROS SE CONSTITUEM O GRUPO RACIAL MAIS RESISTENTE E COM UMA MEMÓRIA ANCESTRAL MAIS APURADA, CARREGANDO ASSIM UM SABER CAPAZ DE ULTRAPASSAR O TEMPO DE OUTRAS TEORIAS E SABERES. POR EXEMPLO: APESAR DO AVANÇO TECNOLÓGICO NA AGRICULTURA, A ENXADA E O ARADO AINDA SÃO TECNOLOGIAS INDISPENSÁVEIS NA MAIORIA DAS LAVOURAS. ARTEFATOS ESTES CRIADOS NA ÁFRICA. ENTÃO, ESSE CONHECIMENTO ANCESTRAL E ESSE OLHAR DIFERENCIADO CONTRASTA COM O PENSAMENTO CARTESIANO QUE O MUNDO OCIDENTAL APRENDEU A CONVIVER E CHAMAR DE RAZÃO, APESAR DO DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO CRÍTICO, NEGANDO A HUMANIDADE DAQUELES QUE ENTENDIAM O MUNDO DE OUTRA FORMA. AGORA O MUNDO ACADÊMICO PEDE SOCORRO, PORQUE SEUS FILÓSOFOS ESTÃO MORTOS E SUAS TEORIAS ESTÃO MORRENDO TAMBÉM, SÓ RESTA APELAR PARA NOVAS NOMENCLATURAS PARA BURLAR A CONTRIBUIÇÃO DOS POVOS DE ÁFRICA NO DESENVOLVIMENTO HUMANO. ENQUANTO ISSO ESTUDOS MOSTRAM QUE OS BRANCOS CONSTITUEM O GRUPO RACIAL QUE TEM MORRIDO MAIS CEDO (CONSIDERANDO A MORTE NATURAL, DEVIDO A UMA DEFICIÊNCIA NA SUA GLÂNDULA PINEAL. POR ISSO TANTO ALVOROÇO E TANTA AGONIA,É UMA NECESSIDADE DE CONTINUAR DANDOA AS REGRAS EM UM TERRENO QUE JÁ CONTEMPLA A DIVERSIDADE CULTURAL. AINDA QUE NÃO QUEIRAM O VERDADEIRO SABER QUE LEVARÁ A HUINIDADE A SUA MATURIDADE CONTARÁ COM ESSA DIVERSIDADE DE SABERES, É SÓ UMA QUESTÃO DE TEMPO. “O TEMPO DISSE PRO TEMPO QUE TUDO COM TEMPO TEM O SEU PRÓPRIO TEMPO”.

  12. Brenda Ligia Responder

    YES, we CAN!

  13. Mac Williams Responder

    Eu tenho me perguntado se Obama foi mais palatável para o eleitorado branco, porque ele não era descendente de escravos, e não trazer essa história junto com ele durante a sua campanha. Eu não tenho certeza se é importante, mas a pergunta tem passado pela minha cabeça mais que uma vez.

    Sorry if my Portuguese is messy. I’m very out of practice.


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