Amorim na Defesa: De barrigadas contra e a favor

Se você tem uma conta no Twitter e uma TL cheia de tuiteiros que se interessam por política, dos mais variados pontos de vista (como é o caso da minha), você presenciou ontem um...

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Se você tem uma conta no Twitter e uma TL cheia de tuiteiros que se interessam por política, dos mais variados pontos de vista (como é o caso da minha), você presenciou ontem um desses fenômenos bem curiosos do comentário instantâneo na era da internet: uma sequência de barrigas com sinal trocado, mas absolutamente idênticas em sua forma. O Estadão publicou a notícia de que Nelson Jobim seria demitido, depois de mais uma coleção de insultos a colegas de governo, e junto com a notícia vinha a barriga de que Aldo Rebelo seria o mais cotado para assumir o Ministério da Defesa.

Foi o suficiente para que tuiteiros que apoiam incondicionalmente o governo e dizem “sim” a tudo passassem a inventar desculpas esfarrapadas para justificar a (imaginária) atrocidade. A minha favorita foi a pérola: “Aldo na Defesa seria positivo porque ele deixaria o Código Florestal em paz”, como se Aldo Rebelo já não tivesse destruído o Código Florestal brasileiro. Os blogueiros e tuiteiros que apoiam incondicionalmente o governo teriam prestado um serviço muito mais eficaz à Presidenta se, em vez de tentar justificar a (imaginária) atrocidade, tentassem apurar se a “notícia” do Estadão tinha procedência. Qualquer um com meia fonte que preste em Brasília teria sido capaz de apurar que não procedia.

Mas no campo dos opositores incondicionais do governo—falo aqui da oposição de esquerda e da oposição ambientalista, não dos demotucanos–, a coisa também não esteve melhor. Uma legião tomou a barriga do Estadão como se fosse notícia e passou a comentar: “É a prova de que o governo Dilma é um governo de direita”, “O PT superou o PSDB”, entre outras pérolas. Uma semana atrás, foi dito que “o fato de Jobim não ser demitido diz tudo”. E agora, que ele foi demitido e substituído por Celso Amorim, reconhecido por toda a esquerda—incluída a oposição de esquerda—como um dos responsáveis pelo que de melhor houve no Governo Lula? A demissão diz algo? Ou os fatos só dizem algo quando se coadunam com nossas ideias preconcebidas?

O indiscutível é que política é uma coisa muito difícil de se comentar na velocidade do Twitter se a sua única fonte de informação é a pior imprensa do mundo. Há muitas coisas a se criticar no governo Dilma mas, de um ponto de vista de esquerda, as trocas ministeriais, até agora, não estão entre elas. Antonio Palocci por Gleisi Hoffman, Alfredo Nascimento, um membro do que de pior tem a fauna política nacional, por Paulo Sérgio Passos, um técnico de carreira, Luiz Sérgio Oliveira por Ideli Salvatti e Nelson Jobim por Celso Amorim não contam, no meu léxico, como “retrocessos”.

A prova é que os mesmos apoiadores incondicionais do governo, que tratavam os críticos de Antonio Palocci como traidores do projeto petista e “amigos do PIG”, passaram a tecer loas a Glesi Hoffman minutos depois de sua indicação, esquecendo-se imediatamente de continuar defendendo aquele que, minutos antes, apresentavam como o paladino ribeiro-pretano do petismo injustiçado pelos “amigos de esquerda do PIG” ou pela “esquerda de que a direita gosta”, porque, como sabemos, no Brasil, quando cai um ministro petista, a culpa é sempre da esquerda.

Do lado de quem critica o governo não importa quais os fatos (de novo, falo da esquerda e do ambientalismo, não dos demotucanos), a mudança no Ministério dos Transportes ofereceu deliciosa e idêntica simetria. Há gente inteligente, que respeito muito, que até hoje acredita que é “credulidade petista” o fato de que Dilma fez um convite mandrake, inaceitável, a Blairo Maggi, como forma de xeque-matear o PR a aceitar como Ministro o homem que ela sempre quis, o técnico Paulo Sérgio Passos. Que o convite a Maggi era parte de uma manobra de Dilma para ter Passos como Ministro não é simplesmente um fato comprovado com fontes em Brasília. Foi algo anunciado com dias de antecipação no Twitter pela jornalista Cynara Menezes, que tem as extraordinárias qualidades de ser bem informada e de não brigar com as informações que apura. Mas tudo isso não impede que gente inteligente na oposição ambientalista continue afirmando que o fato apurado é “credulidade petista”. A crítica da credulidade também pode ser, ela mesma, vítima da mais ingênua credulidade.

Este blogueiro continuará onde sempre esteve: tentando ser fiel a um ideário de esquerda que seja capaz de combinar a redução da desigualdade com a urgente revisão do desenvolvimentismo que nos permita estabelecer outra relação com o meio ambiente; criticando o governo sempre que, segundo esse ideário, ele me parecer merecedor de críticas; apoiando-o sempre que, ainda segundo esse ideário, ele for merecedor de apoio. Continuarei fazendo questão de tentar dialogar com o leque mais amplo possível de apoiadores e opositores do governo que tenham alguma relação com o todo ou com partes desse ideário. Mas, acima de tudo, o meu respeito e admiração por cada interlocutor continuará dependendo muito menos da ênfase com que defendam ou ataquem o governo, e muito mais do respeito que demonstrem àquilo que é da ordem do factual.

Celso Amorim é o nosso novo Ministro da Defesa. Se você é de esquerda, não importa se apoiador ou opositor do governo, e não vê nisso motivo para comemoração, você pode continuar barrigando com o Estadão e afirmando que o Ministro será o Aldo. Afinal de contas, barrigadas, hoje em dia, não se corrigem, não é mesmo?



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19 comments

  1. Hugo Albuquerque Responder

    Idelber,

    Pior do que a barrigada do Aldo foi a do Moreira Franco. E, independentemente do nome, as críticas sobre conjecturas foram extremamente complicadas, por mais ansiedade e tensão que houvesse ontem à noite. Essa contrafactualidade toda esvazia a oposição ao governo – seja do lado que ela vier. Continuemos a espera de um debate maduro.

    abraços

    1. Idelber Responder

      Exato, teve a barrigada do Moreira Franco também, no Diário Liberdade. Essa realmente foi lá onde foi o pênalti do Elano.

  2. Marcio TAQUARAL Responder

    Sou de Esquerda e Governista, gostei muito da escolha do Celso Amorim, mas acho que o Aldo Rebelo também seria um excelente Ministro da Defesa. Tem perfil nacionalista e é respeitado por muitos generais. O comunista seria uma escolha interessante, pois consolidaria o Ministério, deixando claro que é um cargo civil e alinhado com o Governo Federal. Mas tudo bem, a escolha de Amorim foi ótima!

    A propósito, continuo achando que Palocci foi injustiçado. Foi injustiçado pois não havia qualquer elemento que justificasse as acusações de ordem ética. Por outro lado, seu afastamento foi bom para o Governo, uma vez que Palocci (assim como Jobim) eram tucanos infiltrados. Enfim, acho que Palocci deveria ser afastado por ser adversário do projeto do Governo Dilma, não por conta das acusações furadas. E, só para não perder a deixa, o Jobim pelo menos teve coragem de assumir que votou no Serra, já o Palocci nunca assumiu…

  3. Artionka Capiberibe Responder

    Olá Idelber,

    Gostei deste texto. De vez em quando, é bom chamar à lucidez aqueles (de esquerda) que fazem uma oposição intransigente ao governo Dilma, como se um outro governo, o governo ideal por eles imaginado, não fosse ter de lidar com as contradições que a política real apresenta aos eleitos.
    Foi um prazer lê-lo.
    Um abraço,
    Artionka

    1. Idelber Responder

      Sempre um prazer e honra, Profa. Artionka!

  4. Luiz Responder

    Me lembrei do PiG dizendo q a cansada” dona das lojas Marisa estava cotada para ser ministra isso sim seria um retrocesso. Piada de mau gosto afe !

  5. Maria da Paz Ribeiro Dantas Responder

    Idelber,
    parabéns pelo seu comentário e pela visão lúcida e não tendenciosa de analisar os fatos. Isso é raro – para não dizer inexistente – no momento político que estamos vivendo. E conte com o meu respeito e total apoio a sua postura: “…mas acime de tudo, o meu respeito e admiração por cada interlocutor continuará dependendo muito menos da ênfase com que defendam ou ataquem o governo, e muito mais do respeito que demonstrem àquilo que é da ordem do factual.”
    Cordialmente,

    Maria da Paz R. Dantas
    Recife -PE.

  6. Cláudio Freire Responder

    Pois é, Rovai. Incrível como tem gente que se pauta pela velha e carcomida “grande” mídia, e sai fazendo comentários apressados, sem base segura para fazê-los.

    Quando isso acontece, impressiona-me mais as pessoas de esquerda, que sempre criticaram o PIG.

  7. Tiago Mesquita Responder

    Olha, essa crença na imprensa nacional, que de resto, não tem fontes em Brasília se mostrou uma vontade de repudiar o governo. Acho que os marineiros entraram num jogo a la Heloísa Helena. Acho uma pena. É a mesma besteira de quem acha que os milicos estão de cabelo em pé com a nomeação do Amorim. O estadão entrevista dois coronéis reservados do clubinho e fala da insatisfação da categoria. Benzadeus

  8. Tiago Mesquita Responder

    O que eu achei mais estranho nessa história do Aldo é o fato dele se posicionar em diversos momentos contra o governo. Achava difícil a Dilma colocar outro oposicionista no lugar do Jobim.

  9. Cláudio Freire Responder

    Mestre Idelber, o texto é seu!! Me desculpe, pois no comentário anterior eu citei o Rovai.

  10. Ana Paula Medeiros Responder

    Ah, Idelber, que saudade de você e – digo mesmo – do biscoito! Quando vi a notícia foi a primeira pessoa em que pensei e a primeira opinião que quis ouvir. Ouvi o noticiário via GloboNews e achei patético. Os comentários da Catanhêde foram os mais ridículos, a tentativa clara de ao mesmo tempo mostrar que a Dilma tava trocando 6 por meia dúzia (porque segundo ela são ambos falastrões e arrogantes), a sutileza maquiavélica com que insinuava a todo momento o descontentamento da “tropa” e, minutos antes do anúncio oficial da saída do Jobim e da entrada do Amorim, o quanto que o âncora do jornal ficava botando lenha na fogueira sobre “o que será que está acontecendo nessa conversa da Dilma com o Jobim? Será que a presidente vai aceitar a demissão? Será que o Jobim vai pedir demissão mesmo? E se ele não pedir, o que será que a Dilma vai fazer? Será que ela vai ter coragem de demití-lo? O que ela vai dizer para a opinião pública?”. Fora toda a especulação de se a conversa seria constrangedora, se demoraria muito.
    Depois, gastaram um bloco inteiro tratando uma suposta declaração do Jobim a uma repórter num almoço em Brasília de que a Dilma não é de nada (declaração essa que tem como única fonte o próprio Jobim) como fato. O cara faz uma bravata, ou de repente nem faz mas diz que fez, ninguém testemunhou, só se tem o que ele mesmo está falando, e o troço é tratado como fato: “nossa, o ministro disse isso da presidente, o que será que ela vai fazer a respeito? Ela terá coragem de fazer alguma coisa a respeito?”. Tá difícil.
    Gostei de uma análise que o Rodrigo Vianna fez (acho que foi ele, não estou achando o link aqui) que defende a escolha do Amorim em função de que, diante do jogo de forças posto hoje no mundo, alguém com a tarimba diplomática dele é adequadíssimo, já que Defesa e Relações Exteriores estão intrinsecamente ligadas.
    Eu sou fã de carteirinha do Amorim, e torço para que a presidenta esteja finalmente dando uma cara mais dela ao governo.

  11. Roberto Martins Responder

    Você acha realmente que a aproximação com Venezuela e Cuba, além da vergonhosa tentativa de intermediação no caso nuclear iraniano, você acha mesmo que esses fatos, capitaneados por Amorim, fazem parte do que de melhor foi feito no governo Lula?

  12. marcos nunes Responder

    Está correto, mas toda queda de ministro, secretário ou assessor é assim, começa aquela bolsa de apostas e chutes baseados em boatos às vezes plantados por diversionistas, finalizando-se o processo com surpresas nem tão surpreendentes assim (a nomeação de Celso) e desculpas esfarrapadas de praxe. Quanto ao alinhamento automático de seguidores de Twitter e governos, nada mais recorrente. Os erros do governo sempre viram acertos, os acertos coisas de gênio, e as coisas de gênio, divinas. Erros, que erros? Impossível, este governo não erra!

    Dá para concordar numa coisa: Jobim já foi tarde, pois nem deveria ter entrado. Nomes, se discute, Aldo, Celso, ou qualquer outro. O que não dá para entender mesmo foi a demora de Jobim no cargo. Ou dá, não é?

  13. Guilherme Scalzilli Responder

    Depuração

    Aos poucos Dilma Rousseff vai arrumando certas bagunças e conferindo características próprias ao seu governo. Desde já fica previsto que as defenestrações dos quadros mais indigestos do ministério fornecerão à imprensa oposicionista e aos desafetos da própria base um motivo para desqualificar a presidenta assim que alguma ocorrência fortuita arranhar sua popularidade. Se souber resistir às pressões, contudo, em poucos meses ela colherá frutos político-administrativos que sequer Lula almejou.

    A excelente nomeação de Celso Amorim para a Defesa também anuncia uma gritaria desestabilizadora dentro e fora dos quartéis. O ridículo (e termerário) Nelson Jobim teve tempo e poderes suficientes para garantir que sua futura demissão causasse o máximo de barulho. É um erro subestimar a força dos lobbies militares.

    Com o aval da chefe, Amorim poderia começar a gestão imitando os militares da antiga: batendo o sabre na mesa, distribuindo ordens e negando permissão para falar. Caso precise amansar as tropas, o ministro retiraria da túnica certas idéias reformistas envolvendo o Plano Nacional de Defesa (no mínimo extinguindo o abjeto serviço militar obrigatório), o fortalecimento da Comissão da Verdade e uma revisão da Lei de Anistia com apoio nos organismos internacionais de Direitos Humanos.

  14. Sônia Responder

    Cantanhêde (“Bandeira Branca”-9.8)se rendeu as evidências -“a perplexidade e a surpresa” foram só dela e de seus miolos; mas, ainda sente estranhamento, pela foto dos militares “sorridentes, quase felizes”. Arma outra agora, eliane.Essa não deu certo.

  15. Luís CPPrudente Responder

    Sou eleitor do PCdoB, votei várias vezes no deputado Aldo Rebelo (com exceção da última vez,2010, quando percebi o voto claro de Aldo Rebelo a favor do latifúndio improdutivo socialmente), mas considero uma barrigada tremenda dizer que o Ministério da Defesa estaria em boas mãos se o titular desta pasta fosse o deputado Aldo Rebelo.

    Considero que o deputado Aldo Rebelo foi o principal mentor do assassinato do finado Código Florestal (este morreu inapelavelmente naquela votação estrondosa a favor do latifúndio escravista e devastador). Considero mesmo que o nobre deputado Aldo Rebelo chantageou o PCdoB a votar do jeito que ele determinou (do jeito que os latifundiários assassinos e devastadores quiseram). O PCdoB está devendo uma auto-crítica neste assunto. Desta forma o Celso Amorim é inúmeras vezes o melhor nome para a Pasta da Defesa do que o nome do comunista (até quando?) Aldo Rebelo.

  16. Bosco Responder

    Aldo Rabelo seria bom talvez num livro de contos de fadas. Quando eu era criança diziam que comunista fazia churrasco de criancinha. Agora constatei que comunista faz churrasco dos recursos naturais além de criancinhas. E olha que eu sou governo, vibrei com a saida do PSDBesta Nelsom Joguim.

  17. Anitinha '' antinha'' Responder

    Caro Idelber, primeiramente, parabéns pelo espaço.
    Confesso que sou analfabeta politica (mas nao pretendo continuar a ser por muito tempo) por isso pergunto: Porque ”barriga” ou barrigada? E q fez o estadão? Antecipou algo que tava na cara? Pelo que senti no seu post, vc é oposição e nem por isso ataca ferosmente a situação e sabe elogiar quando é pra elogiar.
    Um grande abraço.


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