Resenha de “Crítica cheia de graça”, de José Ramos Tinhorão

Foi lançada, no começo de agosto, a Revista Auditório, do Centro de Estudos do Auditório Ibirapuera, de São Paulo,...

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Foi lançada, no começo de agosto, a Revista Auditório, do Centro de Estudos do Auditório Ibirapuera, de São Paulo, onde, aliás, ocorreu anteontem um importante debate. A revista pode ser baixada em pdf pela internet e este blogueiro recomenda a publicação com muita ênfase. O dossiê sobre música inclui feras como David Byrne, Allen Ginsberg e Guilherme Wisnik. O craque Tiago Mesquita escreve sobre cinema, além de ser um dos participantes da entrevista com Lenine. Há muita gente mais e o trabalho gráfico ficou maravilhoso. Recebi convite gentil de Lauro Mesquita e Juliana Nolasco para resenhar o livro mais recente de José Ramos Tinhorão. A resenha segue abaixo, mas não deixe de conferir a revista inteira.


Esta compilação de trabalhos do pesquisador José Ramos Tinhorão traz quinze artigos sobre artistas ou gêneros da música popular (dois deles inéditos, posto que censurados pela ditadura), duas belas entrevistas (uma com João da Baiana, publicada em 1971 na Veja, e uma inédita, com o pioneiro radialista Ademar Casé, também destinada à revista e vetada por um dos editores), uma série de breves textos sobre a história das gafieiras, publicados em 1965 no Diário Carioca, e um apêndice que contém uma sátira sobre o Gênesis e dois breves ensaios sobre o século XVIII francês. Excetuando-se esta última parte, o volume reitera o perfil já conhecido dos leitores de Tinhorão: um erudito autodidata, feroz na defesa do nacionalismo musical e das expressões culturais das classes populares, inimigo declarado do que ele percebe como o estrangeirismo da bossa nova e a falta de autenticidade das elites brasileiras. Seja nos ataques a Realce, de Gilberto Gil, ao violão de João Gilberto e ao piano de Johnny Alf, ou na celebração do calango mineiro, da cantoria e das obras de Patativa do Assaré, Martinho da Vila, Geraldo Vandré e mesmo de Chico Buarque (elogiado num artigo cujo título afirma que Chico “é mesmo o melhor”), não há grandes surpresas neste volume para aqueles que acompanham a trajetória de Tinhorão.

Daí não se segue que o livro seja desprovido de interesse. A compilação oferece um ótimo panorama do que foi a atividade crítica de Tinhorão da década de 60 a princípios dos anos 80, especialmente no Jornal do Brasil. São todos eles textos breves, de duas a três páginas. É sintomático que os dois artigos censurados pela ditadura tenham sido aqueles dedicados a Chico Buarque de Hollanda, vítima preferencial das tesouras dos militares, e aos artistas negros brasileiros. No texto intitulado “Por que artista crioulo tem sempre que ser engraçado?”, Tinhorão toca numa manifestação bem particular do racismo brasileiro. Citando como exemplos os Originais do Samba, Jair Rodrigues e Martinho da Vila, Tinhorão propõe que “tocar seu instrumento fazendo piruetas ou cantar rindo” se transformou em requisito para que o artista negro aceda ao primeiro plano nos palcos. Trata-se da conversão forçada da figura do artista negro em peça exótica ou engraçada. A observação me parece perfeita, e é inclusive verificável em outras áreas da indústria do entretenimento. Na televisão e no cinema, atestam a afirmação de Tinhorão as trajetórias de figuras como Mussum e Grande Otelo. No entanto, como frequentemente é o caso com Tinhorão, há distinções taxativas que não parecem resistir a um exame dos fatos. Terá sido somente nos anos 60, como ele afirma, que surgiu a “necessidade de usar a linha de cor de uma maneira mais rigorosa”? Terão sido os programas de televisão dos anos 50 caracterizados pela avaliação dos dotes dos artistas “de um ponto de vista de absoluta igualdade”, como afirma o autor? Conhecendo-se a história do racismo brasileiro—do qual não esteve imune, por exemplo, Jackson do Pandeiro, que debutou na TV nos anos 50–, parece-me difícil seguir Tinhorão numa distinção cronológica tão taxativa, que pressupõe que os primeiros programas de televisão no Brasil tenham se mantido, de alguma forma, intocados pelo racismo.

Nem mesmo os muitos desafetos e críticos que Tinhorão ganhou ao longo dos anos lhe costumam negar um mérito, que também a mim parece indiscutível: seus dotes de pesquisador erudito e conhecedor profundo da história da música brasileira. Quando trata de música popular, especialmente dos gêneros e artistas nos quais reconhece valor, Tinhorão sabe do que fala. Isso é ponto pacífico. Este volume traz duas manifestações especiais destes dotes, um excepcional artigo sobre o calango mineiro e um breve estudo sobre as origens da música urbana. No texto sobre o calango, publicado em 1981 no Jornal do Brasil, Tinhorão nota que sequer a edição de 1975 do Novo Dicionário Aurélio registrava o vocábulo “calango” na acepção de canto e dança. Tinhorão oferece uma bela introdução a essa dança mineira e fluminense “em ritmo quaternário, dois por quatro, par enlaçado e sem complicações coreográficas”, em cuja forma cantada “o solista diz quadrinhas e o coro repete o refrão”. Tinhorão vai além e demonstra como o calango é uma via de contato entre Minas Gerais e o Nordeste, sendo nada menos que a “versão mineira da embolada do coco nordestino”. Por influência ou não desse artigo, a segunda edição do Aurélio, de 1986, já incluía os termos “calango”, “calanguear”, “calangueado” e “calangueiro”, em suas acepções musicais.

No texto sobre as origens da música urbana, “A música urbana nasce com a canção de amor”, Tinhorão rende tributo aos músicos de escola e de capela, que seguiram a tradição dos trovadores palacianos dos séculos XIV e XV. Segundo Tinhorão, eles “encaminhavam-se através do virtuosismo contrapontístico na direção do canto polifônico e coral, os tocadores do povo, sucessores dos jograis e artistas de rua medievais, passavam a transformar em cantigas autônomas as partes líricas dos denominados ‘romances velhos’ , herdeiros da cantoria cavaleiresca quase recitada das canções de gesta” (p. 74).

Trechos como este nos fazem sentir saudades da época em que os jornais tinham colunistas de música capazes de eruditas exposições históricas perfeitamente compreensíveis por qualquer leitor regular não-especializado. Nesse caso, tratava-se de um estudo sobre as origens amorosas medievais da canção urbana, que aparecia numa coluna regular do impresso, em forma de um breve texto de três laudas.

A dica de Tinhorão acerca das origens trovadoras da canção urbana abre um canal de diálogo entre estudos de música popular e de literatura acerca de um período histórico sobre cujos estudos não costuma haver grande diálogo: a Idade Média e a primeira Era Moderna. Nem as Faculdades de Letras costumam tocar na parte musical das cantigas medievais de amor, de amigo, de escárnio e de maldizer, nem as Faculdades de Música incluem, em geral, profissionais especializados no texto poético. Com sua erudição de pesquisador autodidata, Tinhorão foi dos que melhor abriram caminhos de pesquisa como este, inexplorado devido à sobreespecialização na universidade. Tinhorão argumenta que a popularização das chamadas guitarras (as violas simplificadas em Portugal de 1500) foi chave para a transformação da cantilena baseada quase que somente na musicalidade das próprias palavras em canto melódico acompanhado. Eis aí a manifestação por excelência da música brasileira popular urbana, a canção, filha de um processo de democratização do espaço da cidade: a música saía do espaço circunscrito das produções da Igreja e entrava no terreno da experiência coletiva da polis. Seria como mediadora da relação amorosa, mostra o autor, que essa forma, a canção, sentaria raízes na pólis pela primeira vez.

Para os que conhecem a trajetória de Tinhorão e já se acostumaram com suas posições sobre o que é música autenticamente nacional e o que é macaqueamento da cultura estrangeira, este volume traz bastante material: críticas ao “brinquedo musical” de João Gilberto, ataques ao americanismo de Johnny Alf, torpedos contra Realce, de Gilberto Gil, como pausterização de música pop estadunidense, interessante contraposição entre um nissei cantando sertanejo (autêntico, posto que homenageia a colônia japonesa via referência à guarânia paraguaia) e um brasileiro cantando rock (inautêntico, posto que padece a condição de vítima da indústria cultural e do imperialismo). Essas posições são taxativas linhas divisórias nos debates sobre música brasileira popular contemporâneos e não seria incorreto sugerir que Tinhorão passou a representar o segmento neles minoritário. Cada volume publicado por ele, mesmo que sem novidades no que se refere a esse antagonismo tão conhecido, renova o que deve ser sempre ressaltado: o fato de que a notável solvência de sua pesquisa permanece, incólume, independente do dogmatismo que se possa apontar em suas dicotomias valorativas. A extrema qualidade desse trabalho se manifesta em Crítica cheia de graça também no elogio ao disco Cantoria (emblemático, para Tinhorão, da criatividade da arte popular), no estudo dedicado ao cantador pernambucano Oliveira de Panelas (em disco produzido por Zé Ramalho) e no artigo sobre a poesia de Patativa do Assaré. São momentos cintilantes de jornalismo musical da melhor qualidade, com conhecimento de causa e paixão pelo objeto de estudo.

Esta é a razão pela qual os melhores momentos deste livro sejam aqueles em que Tinhorão deixa seu objeto falar por si: as entrevistas com João da Baiana e Ademar Casé. Em especial o comovente depoimento do velho sambista “de Ogum e de Xangô” já seria suficiente para saudar esta publicação como indispensável para os estudiosos de música brasileira popular. Mas há muito mais e, como dito acima, três ítens são inéditos, dois deles censurados pela ditadura e um terceiro pela própria editoria da revista. Não é o dado menos revelador desta oportuna publicação.



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7 comments

  1. marcos nunes Responder

    Gosto do Tinhorão, é um cara que sempre fundamentou bem seu ranhetismo; como ele, também acho intolerável a bossa nova e o novo riquismo musical brasileiro que “sofisticou” o samba via jazz, o que dá até um estilo diferente, mas menos interessante aos ouvidos do que se supõe, e é por demais caracterizado em seu viralatismo voluntário.

    Porém…

    Gosto de rock. Não tenho certeza se Tinhorão falou sobre isso, uma vez que ele via o rock como ponta de lança do imperialismo cultural, mas penso que aí há um detalhe interessante. A música mundial se segmentou em gêneros para crianças, adultos, classes, culturas e etnias. Mas não havia música para jovens. A música brasileira não falava aos jovens, como a canção norte-americana também não o fazia, e ainda o jazz. O jovem carecia de uma expressão determinada, que falasse de seus atribulados cotidianos, de sua angústia diante da descoberta do sexo e do surgimento, no horizonte, do universo do trabalho. E precisava de uma música adequada e imediatista, sem grandes refinamentos, três acordes e muitas perguntas sobre o que fazer diante das próprias demandas e das demandas do mundo sobre ele. Posições políticas, sexuais, sociais. O rock nasce como filho bastardo do blues e do jazz (logo sua origem também é africana, como o samba), como música popular dançante, mas logo incorpora questionamentos ao modo de vida, às obrigações, aos papéis sociais. Quem, como eu, foi jovem nos anos 80, sabe bem o quanto esse tipo de música, enquanto estertorava a ditadura, serviu como descompressão, e nos permitiu olhar não apenas para nós, mas para o país e mais o mundo inteiro. Ok, ele é um gênero que veio dentro de um projeto imperialista, mas o mesmo podemos dizer, ou pelo menos em uma categoria imediatamente anterior, colonialista, sobre a ascendência das expressões ibéricas sobre a música indígena, que quase desapareceu.

    No mais, atenção: só por ter origem popular, não quer dizer que uma forma musical deve permanecer. Gêneros são superáveis em arte, são superados o tempo inteiro. Uma forma arcaica dá nascitura a outra mais burilada. Ou se reverte em outra forma que, mesmo que simples, utiliza novas formas de expressão, incorporando novas instrumentos, tecnologias.

    Bem, é isso.

  2. érico cordeiro Responder

    Idelber,
    O Tinhorão tem muitos méritos, mas fico com o Aldir Blanc: “Tinhorão, urutu, sucuri… O Jobim, sabiá, bem-te-vi…”
    Sobre ele o crítico José Domingos Raffaelli deu um depoimento no meu blog, onde ele costuma postar comentários e acabou se tornando um grande amigo:
    “Há muitos anos, quando trabalhava no Jornal do Brasil, o xenófobo crítico José Ramos Tinhorão (que odiava música estrangeira, especialmente jazz, e, por extensão, também me odiava), constantemente fazia umas gracinhas comigo nas reuniões de pauta do JB, indagando se já recebera meu salário no Consulado Americano por escrever sobre jazz. Numa dessas reuniões, admoestado por Paulo Henrique Amorim, então editor do Caderno “B” (atualmente na TV Record) e amante do jazz, Tinhorão insurgiu-se e ofendeu-o com palavras de baixo calão, sendo imediatamente demitido. Isso foi em 1980 e, desde então, nunca mais trabalhou em qualquer veículo da imprensa nacional.”
    Essa xenofobia é obscurantista. Transpondo esse preconceito para a literatura, por exemplo, era como se um crítico desprezasse Borges e Shakespeare e quisesse que nós valorizássemos apenas José de Alencar e Machado de Assis…
    O link é: http://ericocordeiro.blogspot.com/2009/05/sob-as-bencaos-de-bilac-um-cometa.html

  3. Eugenio Hansen, OFS Responder

    Paz e bem!

    Já encomendei !

  4. renato Responder

    Comprei, já chegou, vou ler.

    Mas antes de ler permita-me um comentário prévio: talvez nas décadas de 50 e 60 argumentar que João Gilberto era vendido aos EUA podia ter algum sentido, alguma base de argumentação.

    O tempo mostrou que Tinhorão e esta linha de argumentação estava equivocada: ouça JG hoje, a obra toda, e verá que não tem NADA mais brasileiro do que João Gilberto.

  5. Carlos Henrique Machado Responder

    O grande problema da crítica de música no Brasil é a falta de independência, é reduzir o espaço geográfico à seara da indústria fonográfica. E aí, muitas citações se tornam ociosas justo porque não conseguem trazer razões objetivas de todo o mundo da música, mesmo falando da música do nosso tempo.

    Acho que Tinhorão tem um belíssimo trabalho na área da pesquisa com um raro acervo de informações, mas o seu entendimento sobre a criação, a produção, as fusões que equivalem à totalidade da música brasileira fica muito batucado na produção fonográfica.

    Por outro lado, Mário de Andrade faz uma leitura tão fundamental e tão atual sobre as características eficientemente nacionais que não tem como não adotarmos sua obra como principal material de pesquisa. O intenso fornecimento de reflexões, a compreensão de toda a harmonização que os nossos inúmeros processos de interfecundação nos brindaram com perfeitas sonorizações, são ricamente explicados por Mário de Andrade que faz de sua análise um perfeito dicionário onde a música brasileira é esclarecida como expressão da memória afetiva do povo.

    Incontestavelmente Tinhorão, se não tem um poder hipnótico para nos levar ao seu texto pela compreensão de todo o universo de sons do Brasil, seu ponto se torna interessante quando se fixa propositadamente num debate sobre a produção fonográfica. Mas, infelizmente diante do universo de sons, a própria pobreza da indústria fonográfica reduz essa dimensão, as críticas que vêm acompanhadas a esta produção acabam se tornando restritas e absolutamente sem influência para quem quer se aprofundar no estudo da música do Brasil.

  6. Mateus Potumati Responder

    Idelber, como já disse no Twitter tua resenha é tão obrigatória quanto o livro. A paixão cega que o Tinhorão tem pela música brasileira é o que faz dele um pesquisador único, um tesouro da nossa literatura, e ao mesmo tempo é o que faz ele cometer excessos, como qualquer pessoa cega e eternamente apaixonada.

    Uma pena que ele tenha alcançado, para muitas pessoas (na estrondosa maioria dos casos, as que mais precisariam ler a sua obra), o status quase de um pária, um estereótipo de excentricidade digno de chacota. Obviamente, ele não se esforçou nem um pouco para evitar isso, mas qualquer pessoa que transpuser a barreira do senso comum e mergulhar na sua obra vai aprender a reconhecer seus excessos quase com carinho (obviamente, falo com alguém que só conviveu com os livros dele até hoje, e não quer nada mais do que isso heheheh). A paixão dele pelo Vargas, por exemplo, é tão explícita que se torna pitoresca. É um jornalista que, ao contrário de 90% da imprensa brasileira, nunca escondeu seu viés, recurso dos que não têm como sustentar seus argumentos com fatos. O Tinhorão é o oposto completo disso: um pesquisador que sempre deixa clara a sua premissa e nos convida, como você bem expôs, a uma imersão por histórias que valem todo o percurso, concorde o leitor ou não com a conclusão final.

    E os dados e análises que ele apresenta servem como base para os (cada vez mais raros) estudiosos de qualquer estilo de música feita no Brasil, mesmo os que o Tinhorão despreza. Muito do que ele escreve é indispensável, por exemplo, para se entender o que acontece com o rap hoje, como o texto que você citou, “Por que artista crioulo tem sempre que ser engraçado?”. Estamos vivendo isso agora, em 2011. Nada mudou, nada.

    Finalizando, este trecho da sua resenha é especialmente fantástico:

    “Trechos como este nos fazem sentir saudades da época em que os jornais tinham colunistas de música capazes de eruditas exposições históricas perfeitamente compreensíveis por qualquer leitor regular não-especializado.”

    Isso praticamente morreu no Brasil. Faço uma revista de cultura e sei o quanto é difícil tentar manter pelo menos um pouco disso vivo.

    Grande abraço,

    m.

  7. celia Responder

    Caro Idelber,
    Sou assessora de imprensa da Editora Unesp, que vai publicar em breve uma obra de Tinhorão (Festa de negro em devoão de branco), em que ele retoma a participação dos negros nas manifestações culturais e religiosas em Portugal, momento que o país busca “esquercer”, de acordo com o autor. É uma espécie de síntese da obra de Tinhorão. Li esta sua crítica e pensei que vc pudesse se interessar pelo livro. Caso se interesse, por favor, me contate pelo email que deixei registrado.
    Grata,
    Celia


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