Por um fio de papelão

Projeto iniciado na Argentina, as editoras cartoneras se espalham pelo continente transformando o papelão coletado nas ruas em objeto de arte, recheadas de literatura latino-americana

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Projeto iniciado na Argentina, as editoras cartoneras se espalham pelo continente transformando o papelão coletado nas ruas em objeto de arte, recheadas de literatura latino-americana

Por Ana Cristina d’Angelo

Um fio sai da churrasqueira e se estende ao outro lado da parede fazendo um tipo de cortina para quem passa em direção ao banheiro do bar. Pregados no varal, uma dezena de livros com títulos enormes de cores vivas, feitos com capas de papelão. Um cartaz colado na chaminé da churrasqueira anuncia: “beba dulcineia, fritas, poesia, chopp, conto, Engov”. Os livros são do coletivo Dulcineia Catadora, o bar é a Mercearia São Pedro, em um bairro nobre de São Paulo. As obras expostas são elaboradas por um grupo que compra o papelão que virou lixo, o transforma em capa de livro e publica autores que não teriam chance em outra editora que não aquela. Estes, por sua vez, adoraram a ideia de ver sua literatura embalada com o dejeto transformado em objeto único, numa capa pintada a guache, algumas vezes, pelo filho de um catador de papelão.
Esse formato de livro, que chegou aos bares, galerias de arte e viadutos de São Paulo em 2007, foi idealizado inicialmente na Argentina, mais especificamente no bairro de La Boca pós-crise de 2001, e já se estendeu por pelo menos outros cinco países latino-americanos. As editoras cartoneras podem ser lidas também como uma linha fina, colorida e poderosa entre Brasil, Bolívia, Argentina, Chile, Paraguai, Equador, Peru e muito brevemente em outros lugares onde há gente adepta da convivência no trabalho livre e de planos paralelos para a literatura.
Buenos Aires, Argentina, ano 2001. A economia em profunda recessão deixa 22% da população sem emprego e sem expectativa de mudança. O contingente de 9 mil catadores de papel da capital portenha engrossou ainda mais a partir desse período. No bairro República de La Boca, onde o futebol no estádio da Bombonera ainda aliviava os ânimos, um poeta suburbano de codinome Washington Cucurto resolve fazer o que já matutava há tempos. Corta uma dúzia de caixas de papelão em formato de uma folha A4, faz fotocópia de textos próprios, cola e pinta a capa com título e nome do autor com tinta guache, da forma mais esgarranchada e colorida possível. “Disseram que eu era louco, que papelão fedia, era sujo”, conta baixinho Cucurto, seis anos depois, enquanto não para um instante de dobrar catálogos e capas prontas para receber cola e tinta, no ateliê sede do Eloisa Cartonera, no mesmo La Boca do princípio.
É ali que se reúnem, de segunda a sábado, o poeta e ex-vendedor de produtos químicos Ricardo, o estudante chileno Alejandro, o colombiano Juan , a ex-cartonera Miriam La Osa Poderosa e Leo de La Carto, que vende o papelão que vai virar capa de livro. Se qualquer um quiser, na página da web do projeto argentino se aprende a fazer um livro cartonero a partir de um vídeo com Miriam La Osa, integrante do Eloisa há um ano. “Você corta o papelão de forma que dobrado abrace o livro, faz uma máscara branca com o título e nome do autor e depois usa as tintas a seu gosto. No Eloisa, a regra é quanto mais colorido melhor”, ensina La Osa.

Riso e avião
Miriam coletava material reciclável no bairro de La Boca desde pequena. Passou a frequentar a sede do Eloisa e bater papo com o grupo. Conversar e agregar gente são especialidades dela. Grande e forte, conhece toda a gente do bairro, das feiras de livro, de movimentos sociais, das universidades de Buenos Aires. Tem um riso largo e contagiante, o que certamente lhe conferiu o título de “osa poderosa”. Cucurto se encantou pela cartonera, escreveu várias crônicas e artigos sobre a menina que comia lixo e algumas vezes levava presentes a eles encontrados nas suas andanças, da força e do coração de uma mulher que sabe partilhar. Ela coleciona os textos a seu respeito e pede aos visitantes do ateliê que os leiam em voz alta. Sabe ler mas não gosta muito. Prefere pintar capas e fazer empanadas. Seu maior orgulho é ter viajado de avião pelo projeto para participar de uma feira de livros no Chaco, no ano passado. “Nunca imaginava que isso ia acontecer comigo.” Dá entrevistas e com um gravador na mão é capaz de fazer uma reportagem e meia com os moradores de La Boca.
Cucurto chega ao ateliê no final da tarde junto com Maria, sua substituta imediata e dona do maior grau de ação e organização naquele espaço. Trabalham juntos na impressora, põem tintas, rodam o catálogo que será levado naquele mesmo dia a um festival de cinema. Maria cobra as vendas de Juan e Alejandro, indaga sobre uma feira que foram e não venderam. Antes de chegar, porém, já tinha ligado para saber como anda o dia, quem está fazendo o quê, como está o movimento. O ateliê funciona na base do que é necessário. Se alguém precisa de uma água, o outro vai buscar, se é de papelão, idem. Trabalho colaborativo incessante até para quem acaba de chegar. Acontece de as visitas começarem a fazer capas.
Só é possível falar com Cucurto no meio de suas tarefas, o que significa que ele também terá arrumado uma incumbência para você. Trabalho é a palavra que ele mais repete. Diz que o transformou, o moldou. “Tudo depende de nós, se vamos bem ou mal, se trabalhamos mais ganhamos mais. Eu não sabia nada disso, como se imprime, cola, pinta. Tudo é uma experiência, vamos aprendendo. São seis anos de cartoneria, mas ainda vamos aprendendo dia após dia. O importante é que se faz o que se gosta, independentemente de patrão, do massacre que é esse sistema capitalista neoliberal.”
O grupo se modifica muito. O salário é um mistério. Juan diz que ganham entre $700 e $800 (pesos argentinos) por mês; Cucurto diz que é mais, desconfiado. Faz parte do jogo. No começo, com Javier Barilaro, havia pretensões artísticas. Com a saída do artista plástico, ficou o trabalho. Autor celebrado entre os críticos argentinos, Cucurto diz que apenas se diverte fazendo literatura. “É bom saber que se pode fazer literatura, qualquer pessoa, seja boa ou má.” Quando o assunto é o Eloisa, livro não é mais importante que fazer um alfajor ou o choripan, pão com chourizo portenho. O trabalho coletivo sim é a alma do negócio. “Antes me importava ganhar mais dinheiro para mim e minha família. Agora vejo que não é tão importante assim. Vamos fazer uma escola agrícola. As cidades também estão ficando inviáveis, é preciso voltar para o campo, e em autogestão produzir o que comemos. Plantar, trabalhar a terra em conjunto, aprender. Vamos comprar um terreno, virar cooperativa, buscar financiamento”, profetiza.

Viver junto
A ideia é que a cartoneira cresça – mas não muito –, e que haja uma convergência com o projeto irmão no Brasil, Dulcineia Catadora. Do lado brasileiro, na sala emprestada na Vila Madalena, Lúcia Rosa não acredita em números nem em propostas mirabolantes. A artista plástica que coordena a editora cartonera brasileira gosta de se dedicar pessoalmente a cada um dos integrantes do Dulcineia. Tapa os olhos de um novato para que ele se veja livre para pintar. Aquilo dá um pouco de medo no menino. Mas logo ele dispara as pinceladas. Sem cartilha, Lúcia gosta de citar Nicolas Bourriaud e sua estética relacional – arte como processo e o afeto coletivo gerado sem obrigação do objeto final.
A diversidade entre os participantes estimula a discussão e o respeito à diferença, abrindo espaço para uma troca intensa de vivências. Compartilham a mesa dos pincéis Tião, o ex-morador de rua e escritor que vai e vem; Peterson e Marlon, jovens dedicados, filhos de Ailton, catador de papelão, dois que começam a desafiar o destino e armar outros rumos para eles. Ali também está seu Israel, que apareceu no ateliê com sua pintura sui generis de bonequinhos em disparada e Carlos, cardiologista que escreve, dá moral à turma, faz curadoria e sai pra rua vestido de papelão recitando poesia nas intervenções artísticas do coletivo.
“A opção é que a experiência estética seja um ato conjunto, gerando prazer no encontro e participação”, é o mantra do Dulcineia. A despeito disso, cada participante ganha uma diária de R$ 30 pelo trabalho, tudo que entra além é dividido em partes iguais, sem dependência de patrocínios públicos ou privados. A renda vem da venda de livros (R$ 6 reais cada) e cachês de trabalhos artísticos.
Em ritmo menos acelerado que no ateliê argentino, ali se deixa e se aproveita alguma marca do papelão em seu estado anterior, a primeira história do dejeto que depois vai ganhar a função de proteger e apresentar uma obra literária. Os meninos são estimulados a ler e escrever. Tião já lançou seu Cátia, Simone e Outras Marvadas pelo Dulcineia e está preparando um próximo. Peterson gosta de fotografia e acaba de conseguir trabalho em um estúdio. Recitou poema em megafone durante intervenção artística em um festival de cinema em Minas Gerais, cuida do livro de vendas e tem seus sonhos.
Num certo dia, os meninos preparam o cartaz para evento no bar Mercearia São Pedro. Vão reeditar uma antologia de 2004 com as capas de papelão pintado. Num instante espicham o papelão na mesa, cada um dá sua pincelada de contribuição, Tião solta das suas… “Beba Dulcineia, a gente podia mudar o cardápio, colocar batata frita, poesia, conto, Engov”… Lúcia vibra. De avental sujo de tinta, ela vai contando aos poucos suas próximas ideias, reforçando que o “nós” prevalece. “Não é comercial. Mas queremos, por exemplo, que os catadores comecem a vender os livros também. Ele vende o papelão, mas também vende os livros, isso muda tudo, ele participa desde a coleta do lixo até o lixo transformado num objeto de maior valor. Com isso ele também se dará maior valor.”
Seu Ailton, pai de Peterson e Marlon, já está interessado em vender os livros. Tem esperança, mas se preocupa com o destino dos dois meninos, conta ele no meio do trabalho na Cooperativa de Catadores da Baixada do Glicério, com sede bem debaixo do viaduto do Glicério, Centro de São Paulo. “Meu pai foi catador por 50 anos aqui. Eu já fui, larguei, fiquei doente e voltei. Tem trabalho nesta cidade. O importante é não ter vergonha do que se faz”. Ailton é franzino e sorridente. Com seus 43 anos é capaz de pilotar seu carrinho catador pelas ruas da região. Carrega de 200 kg a 300 kg por viagem. O Dulcineia Catadora chegou a comprar papelão da cooperativa do Glicério, mas agora optou por uma central mais próxima do ateliê. “Era uma briga danada para vender porque eles pagam R$ 1 o quilo e o preço na época era R$ 0,20.” Um compromisso de editoras cartoneras é comprar o papelão por um preço acima do praticado no mercado de forma a valorizar a matéria-prima para literatura de primeira.
Na ponta final, os livros do Dulcineia Catadora podem ser vistos em São Paulo na Galeria Vermelho, especializada em arte contemporânea, em livrarias, sebos e bares. Com a cara e a coragem, Dulcineia Catadora seguiu para a Flip de 2007, sofisticada feira de literatura em Parati, oferecendo seus livros de R$ 5. Uma editora não gostou, reclamou, pense na petulância… Ronaldo Bressane, escritor brasileiro que publicou livros pelo coletivo brasileiro (Corpo Porco Alma Lama) e pela irmã paraguaia Yiyi Jambo, diz que não conhece autor que não doe seus escritos para uma cartonera e põe fé nos “talentos insuspeitados” que habitam as editoras, pintando livros no anonimato.
Desacreditar na arte desconectada da vida é um princípio que o Dulcineia Catadora levou da sua origem, a Bienal de Artes de SP, com o tema “Como Viver Junto”, em 2007. A curadoria convidou o Eloisa Cartonera para que reproduzisse seu trabalho ali naquele painel da arte contemporânea mundial e jovens filhos de catadores de papelão brasileiros foram chamados a participar da oficina de manufatura do livro cartonero. Ao final, uma nova editora de papelão surgia em São Paulo. Neste meio-tempo, a ideia ganhava outras plagas. Em 2005, no Peru, um grupo de intelectuais criava o Sarita Cartonera, que inspirou iniciativas na Bolívia (Yerba Mala) e no México (La Cartonera).

Intercâmbio selvagem
O intercâmbio entre as editoras cartoneras não é uniforme, mas existe. A uma chamada geral da editora chilena Animita Cartonera, as irmãs latinas atenderam e publicaram simultaneamente o poeta mexicano Mario Santiago Papasquiaro. Lúcia descolou uma tradutora para a versão portuguesa e lançou uma edição bilíngue.
A integração cartonera se dá ainda pelo curioso e potente portunhol selvagem. A língua híbrida do português, espanhol e guarani é invenção do poeta Douglas Diegues, editor cartonero do selo paraguaio Yiyi Jambo. Autores brasileiros e paraguaios, como o próprio Douglas, lançaram títulos no novo idioma, sublinhando uma questão que insiste em separar Brasil dos outros países latinos quando há mais semelhanças que diferenças.
Washington Cucurto diz que não ensinou ninguém nem foi procurado pelas outras cartoneras. Foram acontecendo. Desse mesmo jeito, em uma semana, Eloisa Cartonera foi procurada, visitada, frequentada por duas acadêmicas portuguesas – que estão fazendo pós-doutorado sobre o tema –, jornalistas alemães, poloneses e artistas espanhóis que querem fazer parceria com o projeto. Sem contar críticos e professores de literatura que se debruçam sobre a história nas suas mais variadas pegadas: sustentabilidade, convergência das artes, inclusão social, negócio inclusivo, legado criativo da crise. “Você colocou a literatura latina onde deveria estar?”, pergunto a Washington Cucurto. “Qué sé yo?”, responde no melhor castelhano.

BOX – A realização da reportagem

A equipe de reportagem procurou realizar este trabalho seguindo as bases que orientam a existência das editoras Eloisa Cartonera e Dulcineia Catadora, os dois projetos sobre os quais se centrou. No primeiro, em sete dias em Buenos Aires, a equipe se integrou ao grupo de trabalho no ateliê da Eloisa Cartonera, participando da confecção de livros, da venda em feiras e da convivência diária na rotina do projeto. No Brasil, em São Paulo, a aproximação com os membros do Dulcineia Catadora foi mais longa e gerou projetos em parceria, como a participação em intervenções artísticas na cidade, eventos de lançamento de títulos e em oficinas promovidas pelo coletivo. A ideia que permeou esta matéria foi a troca real de experiências como forma de se obter uma narrativa e elementos que trouxessem ao leitor um relato imediato do que gerou estes encontros e não apenas um relato afastado e analítico sobre o tema.

Serviço – Mapa das Editoras Cartoneras

Animita Cartonera– Santiago – Chile
contacto@animita-cartonera.cl

Sarita Cartonera– Lima – Peru
WWW.saritacartonera.com

La Cartonera – Cuernavaca – México
www.edicioneslacartonera.blogspot.com

Yiyi Jambo – Asunción – Paraguai
WWW.yiyijambo.blogspot.com

Matapalo Cartonera– Quito – Equador
WWW.libritocartonero.blogspot.com

Yerba Mala – La Paz – Bolívia
yerbamalacartonera@gmail.com

Mandrágora Cartonera– Cochabamba – Bolívia
www.mandragoracartonera.blogspot.com

Dulcinéia Catadora – Brasil
WWW.dulcineiacatadora.blogspot.com
WWW.noticiasdacatadora.blogspot.com
http://meiotom.sites.uol.com.br/

Eloisa Cartonera – Argentina
WWW.eloisacartonera.com.ar



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