Palestra em Uberlândia (26/09 às 16h): O dizível e o indizível do sexo em Freyre

Nesta segunda-feira, 29/09, no campus da Universidade Federal de Uberlândia, apresento — a gentil convite da instituição, que me leva ao Brasil juntamente com a UFG-Jataí e a UFG-Goiânia — palestra sobre sexualidade, gênero...

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Nesta segunda-feira, 29/09, no campus da Universidade Federal de Uberlândia, apresento — a gentil convite da instituição, que me leva ao Brasil juntamente com a UFG-Jataí e a UFG-Goiânia — palestra sobre sexualidade, gênero e raça em Gilberto Freyre. O texto está estruturado em torno a um par conceitual (o dizível e o indizível) e três cenas sexuais: a primeira, presente obsessivamente ao longo de sua obra, heterossexual entre o branco e a negra; a segunda, relatada sem grandes percalços mas com algumas curiosas assimetrias, homo-“afetiva” entre o sinhozinho e o muleque; e a terceira, só raríssimas vezes aludida e ao mesmo tempo silenciada — aludida enquanto silenciada — entre o negro e a branca.

Deixo aos leitores do Triângulo o convite para o evento e, para todos, o cartaz e cinco parágrafos do texto, que é bastante longo e será publicado em breve na Luso-Brazilian Review:

Casa-Grande e Senzala traduziu a versão canônica da auto-compreensão nacional em parte por causa da posição central que o livro conferiu à sexualidade. Freyre representou tanto a crítica definitiva e a superação da antropologia racista como também o papel de suspeito de ter acolchoado e adocicado o racismo estrutural brasileiro. Boa parte da fortuna crítica desta elusiva figura se dedica a escolher um desses polos ou optar por uma oscilação entre eles, e assim replicar uma estratégia retórica preferida do texto do próprio Freyre. Talvez isso seja inevitável. Em todo caso, Freyre, reconhecido unanimemente como co-fundador das ciências sociais brasileiras modernas, ao lado de Sérgio Buarque de Hollanda, Caio Prado Jr. e outros integrantes da escola paulista, ocupa uma posição singular. Escreveu numa linguagem mais “literária” que seus contemporâneos, seu texto procedia segundo uma lógica que poderíamos chamar de poética, e sua versão da realidade brasileira produziu uma forma narrativa, mais que estritamente científica, de coerência. Como é o caso com, digamos, Friedrich Nietzsche, o texto de Freyre inclui vários trechos que sustentam leituras antagônicas. Em sua crítica a apropriações estadunidenses de Freyre, que o apresentariam como promotor de um paraíso racial nos trópicos, Hermano Vianna também apontou que não há nada mais fácil que reunir dois conjuntos de citações freyreanas mutuamente contraditórias.

 

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Desde o início desta história até seus momentos mais recentes, a sexualidade esteve no centro da discussão. A sexualidade é, em Freyre, “instrumento de poder no âmbito da família patriarcal” e, ao mesmo tempo, “território de negociações e amortecimento de contradições no seio da escravidão e das hierarquias coloniais” (Vainfas 781). Não somente a análise de Freyre da estrutura social brasileira está atravessada por referências a questões de gênero e sexualidade. A própria linguagem que se observa na trilogia de Freyre é entendida, já bem cedo, a partir de uma lógica sexualizada. Em sua introdução à segunda edição de Sobrados e Mucambos, Freyre mencionou algumas das críticas recebidas por Casa-Grande e Senzala, entre elas a de que ele havia praticado uma sociologia não muito viril ou masculina (802-3). A tensão entre Freyre e as correntes quantitativas e supostamente mais científicas da sociologia e da antropologia foi, então, codificada em termos de gênero já no início de sua fortuna crítica, na medida em que se estabeleceu uma leitura de Casa-Grande e Senzala como livro com preocupações femininas, excessivamente colado à esfera doméstica da vida cotidiana. De acordo com aquela sociologia “viril”, a obra de Freyre não fazia justiça às esferas masculinas política e jurídica. Dentro do típico padrão freyreano do equilíbrio de antagonismos, sua resposta a essa crítica é seguida imediatamente por uma consideração do reclamo oposto, o de que ele não prestou suficiente atenção a uma suposta sobrevivência de um (suposto) matriarcado africano no Brasil. Em uma palavra, seria difícil encontrar, em torno à trilogia de Freyre, uma polêmica na qual o gênero e a sexualidade não estivessem no centro do debate.

 

Nos relatos de Freyre sobre manifestações não sancionadas de sexualidade, como as aventuras de mulheres casadas, o princípio do equilíbrio de antagonismos dá lugar ao oximoro, ao choque entre afirmativas antagônicas. Bem mais que no caso das experiências homossexuais masculinas, que aparecem relativamente livres de censura em Casa-Grande e Senzala, o típico parágrafo freyreano sobre as escapadas de mulheres casadas inclui um verdadeiro vaivém de afirmações e negações:  “nas histórias galantes contadas por Pyrard e Coreal, quem aparece auxiliando as senhoras brancas nas suas aventuras de amor são escravas negras. O mais provável é que fossem negras as principais alcoviteiras. Tudo, porém, nos leva a crer na extrema dificuldade das aventuras de amor das mulheres coloniais, a toda hora cercadas de olhos indiscretos. Olhos de frades. Olhos de negros. Olhos de sogras” (425).

 

O que é mais “provável” está em clara contradição com aquilo em que “tudo nos leva a crer”. A probabilidade e a crença, com frequência, entram em guerra nas páginas de Freyre quando se trata de sexualidade feminina expressando-se em formas não sancionadas pela sociedade patriarcal. Essa oscilação, ubíqua em Casa-Grande e Senzala, reaparece em Sobrados e Mucambos: “nas anedotas sobre maridos enganados—aliás, relativamente raros nos dias mais ortodoxamente patriarcais do Brasil—a figura do padre donjuan foi sendo substituída pela do médico” (912). De novo, a anedota é evocada no texto apenas para, logo depois, ser declarada rara. Freyre escreve páginas eloquentes sobre o pesadelo que era a vida da mulher mais velha que se mantinha solteira na ordem patriarcal, caracterizando-a como “a grande vítima do patriarcalismo em declínio”, sempre “em situação toda artificial para regalo e conveniência do homem” (915). Também aqui a oscilação aparece. Logo depois de citar um testemunho de viajante alemão, de que muitos brasileiros internavam suas mulheres para manter uma amante em casa, Freyre o relativiza: “Nos tempos coloniais parece que não eram tão fáceis nas áreas de população mais estável esses internamentos” (917). Certamente é um tributo ao texto de Freyre que ele torne essas contradições tão visíveis que a matéria passa a ser a própria incongruência. A hipótese deste estudo é que os paradoxos freyreanos acerca da sexualidade expressam um conflito entre interseções dizíveis e indizíveis de raça e gênero, como se verá abaixo.

Poder-se-iam multiplicar os exemplos dessa oscilação de afirmativas oximorônicas em Freyre. Aqui vai outro, de Sobrados e Mucambos: “Na formação patriarcal brasileira, as diferenças sociais de sexo – favoráveis ao homem – andaram às vezes em conflito com as diferenças sociais de raça – favoráveis ao branco. Nos casos de iaiás brancas e finas apaixonadas por mulatos, aquelas diferenças sociais perturbaram-se. Mas raras vezes” (919). “nas anedotas sobre maridos enganados—aliás, relativamente raros nos dias mais ortodoxamente patriarcais do Brasil—a figura do padre donjuan foi sendo substituída pela do médico” (912). De novo, a anedota é evocada no texto apenas para, logo depois, ser declarada rara. Freyre escreve páginas eloquentes sobre o pesadelo que era a vida da mulher mais velha que se mantinha solteira na ordem patriarcal, caracterizando-a como “a grande vítima do patriarcalismo em declínio”, sempre “em situação toda artificial para regalo e conveniência do homem” (915). Também aqui a oscilação aparece. Logo depois de citar um testemunho de viajante alemão, de que muitos brasileiros internavam suas mulheres para manter uma amante em casa, Freyre o relativiza: “Nos tempos coloniais parece que não eram tão fáceis nas áreas de população mais estável esses internamentos” (917). Certamente é um tributo ao texto de Freyre que ele torne essas contradições tão visíveis que a matéria passa a ser a própria incongruência. A hipótese deste estudo é que os paradoxos freyreanos acerca da sexualidade expressam um conflito entre interseções dizíveis e indizíveis de raça e gênero, como se verá abaixo.

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Daí o texto passa a fazer aquilo a que se propõe. Quem estiver no Triângulo, está convidado a ouvir, na segunda. Quem não estiver, terá acesso à publicação em breve, caso seja de interesse.



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1 comment

  1. anolipiu Responder

    blog sem e-mail é brochante


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