Algumas notas sobre a tradução do termo “settlement” no contexto da ocupação israelense

Faz umas duas semanas, rolou lá no Viomundo um enorme balacobaco a propósito da tradução da...

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Faz umas duas semanas, rolou lá no Viomundo um enorme balacobaco a propósito da tradução da Vila Vudu de um texto do israelense Uri Avnery, ferrenho opositor da política de ocupação levada a cabo pelo seu governo sobre os territórios palestinos. O texto de Avnery, intitulado “Dogs of War” [Cães de Guerra], denuncia as manobras israelenses para reprimir a mobilização palestina que vem ocorrendo no bojo do pedido de reconhecimento do “estado” palestino à ONU. Os cães de guarda a que se refere o texto de Avnery são os quase 500.000 colonos judeus ilegais que continuam ocupando terras palestinas na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.

Num determinado momento do texto, Avnery diz: Their task is to protect the settlements and attack Palestinians. They are settler-dogs, or, rather, dog-settlers. Tradução da Vila Vudu: A tarefa deles é proteger os colonos judeus e atacar os palestinos. São cães colonos judeus ou, melhor, colonos judeus cães. A inserção da palavra “judeu” junto à palavra “cães” foi tomada pelo jornalista Bernardo Kucinski para atribuir conteúdo antissemita à tradução da Vila Vudu. Essa inserção – que é, em outros contextos, um recurso legítimo para que o leitor de língua portuguesa entenda o que significa “colono” dentro da realidade da ocupação israelense—ecoava, argumentou o jornalista, utilizações antissemitas do termo “cães” para referenciar judeus. Caia Fittipaldi, respondendo em nome da Vila Vudu, deu razão parcial ao jornalista, mas elencou uma série de argumentos pra defender os princípios que regem as traduções do coletivo. Esses argumentos, no meu modo de ver, ficaram sem resposta. Sobre todos os crimes denunciados por Avnery, um judeu fundador do estado de Israel e combatente na guerra de 1948, Kucinski, evidentemente,  não disse nada.

Este post não é pra entrar na pendenga, inclusive porque, à luz da própria entrevista de Kucinski ao Viomundo, não há muito mais o que dizer acerca de suas declarações sobre 1948. Depois de repetir a propaganda oficial israelense de que o fato gerador do exílio palestino foi a invasão de seis exércitos de países árabes que não aceitaram o plano de partilha proposta pela ONU em 1947, Kucinski declara: não conheço Finkelstein nem Pappé. Fazer afirmações sobre o que aconteceu em 1948 para, na frase seguinte, confessar desconhecer Pappé e Finkelstein é como dizer o que foi o futebol paulista nos anos 60 e logo depois declarar não saber quem foram Pelé e Ademir da Guia. É como pontificar sobre o que é a antropologia para, em seguida, declarar desconhecer Franz Boas e Claude Lévi-Strauss. Sobre isso, nada a acrescentar além do baile de argumentos oferecido pelos próprios leitores do Viomundo, em especial por Pedro Germano Leal.

O objetivo aqui é só reforçar uma escolha da equipe de tradutores da Vila Vudu que também é a minha, ao traduzir textos sobre o assunto: formar língua de chegada de tal forma que não se obscureça aquilo que é compreendido por qualquer leitor do original que possua o mínimo contexto. Em particular, há tempos venho me batendo sobre a tradução da palavra settlement, que aparece na mídia brasileira traduzida doce, inofensivamente como assentamentos, assim, sem mais. Eu sempre o traduzi como assentamentos colonizadores. O pessoal da Vila Vudu opta por colônias exclusivas para judeus. Considero a tradução da Vila Vudu melhor que a minha e passarei a adotá-la daqui em diante.

Um brasileiro que leia assentamentos provavelmente pensará em assentamentos rurais (uma das primeiras associações que vêm à mente, claro, é o MST) ou espaços precários e provisórios. É uma forma de traduzir “literalmente” que esconde, em vez de revelar, o sentido presente no original. As colônias ilegais israelenses são fortalezas ilegais, brutalmente armadas, exclusivas para judeus, invariavelmente construídas em território mais elevado e fonte de constantes agressões contra palestinos. Além de serem ilegais segundo a legislação internacional, as colônias exclusivas para judeus na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental são, em grande parte, habitadas por fanáticos religiosos que defendem seu direito sobre a terra com base na Bíblia. Os colonos ilegalmente situados nessas fortalezas desfrutam de estradas exclusivas, proteção do exército (há uma enorme teia de relações entre os colonos e a hierarquia do exército de ocupação), virtual monopólio sobre a escassa água da região e total impunidade em seus crimes de agressão, assassinato e tortura contra palestinos. Eles possuem completa liberdade de trânsito em terras palestinas e não são submetidos às humilhações dos postos de controle que picotam todo o território ocupado. Em alguns lugares, como Hebrom, a construção de colônias sobre as casas e lojas palestinas permite que os colonos, por exemplo, despejem suas fezes e urina sobre os palestinos, obrigando-os a viver enclausurados em lonas protetoras. A distinção entre “judeu” e “israelense” não se aplica aqui: não há árabes israelenses nos assentamentos colonizadores.

Portanto, nesta polêmica, estou com a Vila Vudu: na próxima vez que encontrar o termo “assentamentos” na mídia brasileira, lembre-se de perguntar ao seu jornal ou revista favorita o que a palavra revela e o que ela esconde.

Foto: colônia exclusiva para judeus Har Homa, construída ilegalmente na aldeia de Beit Sahour, a leste de Belém; daqui.



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13 comments

  1. aiaiai Responder

    Ótimo texto q mostra bem o poder das palavras na manipulação da informação! Mas, fiquei pensando: por que não usar “colônias de ocupação judaica”? Afinal, este é o objetivo, né? Ocupar todo o território palestino até que eles não tenham mais o que reclamar e morram todos. Enquanto os sionistas esbravejam pro mundo todo que “os malvados do Irã” querem acabar com eles (coitadinhos dos judeus).

    1. Idelber Responder

      “Colônias de ocupação judaica” também funcionaria, sim. Gosto da tradução da Vila Vudu porque a expressão “exclusivas para judeus” reforça o caráter racista das construções.

  2. Murilo Responder

    Insisto no ponto de aiaiai, Idelber: sempre acjei que ocupação (sem o colônia) é um tradução melhor para settlement nesse contexto. Na Brasil é a expressão consagrada para terras tomadas ilegamente, à força ou não (penso no caso óbvio de minha cidade adotiva, Brasília).

    1. Idelber Responder

      Sim, Murilo, mas no contexto palestino, “ocupação” se refere à totalidade do processo: os checkpoints, o exército nos territórios palestinos, as leis de exceção etc. Precisaríamos de uma palavra (ou expressão) específica para as construções. “Colônia exclusiva para judeus”, como propõe a Vila Vudu, me parece a melhor solução até agora.

  3. CastorFilho Responder

    Prezado Idelber
    Ótimo artigo. Devo notar outrossim que o indigitado crítico do pessoal da Vila Vudu é apenas mais um sionista disfarçado – tem até filho oficial do exército de Israel (provavalmente com mortes de palestinos na consciência, se tiver uma)- e homiziado no PT. Ele “esqueceu” de mencionar seus descendentes, bem como de lembrar como defendeu a operação “Chumbo Derretido” com o sumário assassinato de civis e mais de uma centena de crianças no imenso campo de concentração que os judeus de Israel impuseram a Gaza.
    Quanto a atitude do Viomundo, acovardando-se ao deixar de publicar as traduções da Vila Vudu, já era de se esperar. O Azenha e equipe são jornalistas e bons, mas trabalham na ética de fancaria do “jornalismö”, a qual NADA tem a ver com blogs ou blogueiros. Digo mais, ser blogueiro é muito diferente de ser “jornalista” e este deveria se despir de sua armadura mental que o limita e tornar-se blogueiros de verdade com todas as implicações que isso acarreta. Deveriam deixar o jornalismo para seus veículos e atividades profissionais.
    Ouso dizer que os “jornalistas com sua ética de fancaria” são o verdadeiro câncer da blogosfera.
    Abraço
    Castor

    1. Idelber Responder

      Bem, eu gosto do Viomundo, e claro que cada um cuida de seu próprio blog, mas não entendo muito bem a lógica de deixar de publicar traduções de um coletivo porque se trata de um “pseudônimo”. O próprio Viomundo está cheio de comentários de pseudônimos, e todos sabemos que assinar “José da Silva” ou “Paulo Santana” não significa nada. A Vila Vudu tem email que funciona, tem um site aberto ao público e defende suas escolhas em textos abertos — isso me basta, mesmo quando sou eu que levo as traulitadas. O argumento de que o Viomundo não tem como tem como checar a exatidão das traduções do coletivo é meio bizarro: se a tradução vier assinada “Maria das Graças”, ela poderá deixar de ser checada? Não entendo.

      Aliás, admiro o gesto de falar como coletivo. Os poderes do mundo já nos policiam o suficiente com seus passaportes, vistos, CPFs e carimbos. Que nos deem sossego pelo menos na hora de escrever como melhor entendamos.

  4. fm Responder

    Bem, eu penso mais ou menos com o Murilo. Discordo do uso do termo ‘colônia’ para a tradução para o português em ‘colônia de ocupação judaica’.
    Primeiro por serem antagônicos
    O termo apropriado seria invasão de judeus, ou judaica não acho que ai esteja o ponto. O que importa é que fique clara a invasão, a migração acompanhada de violência.
    Pra mim o termo ‘colônia’ sempre alivia, tem algo de pacífico. O MST , pros brasileiros, praticam invasão.

  5. fm Responder

    ops,
    O antagonismo é entre os termos ‘colonia’ e ‘ocupação’

    1. Idelber Responder

      Eu entendo o que vocês dizem, mas entendam please: “ocupação” ou “invasão” não são termos que caibam numa frase que está designando uma construção, um conjunto de prédios. Tentem fazer uma frase e verão.

      “Foi construída uma invasão de judeus em Beit Shour” ? Não faz o menor sentido em língua portuguesa.

      1. Marcelo Job Responder

        Caro Idelber. Não ficaria melhor se “construida” fôsse substituída por “planejada e/ou executada”. O que me leva à pensar sobre uma questão-clichê, “os cães ladram enquanto a caravana passa”.
        abraços

  6. fm Responder

    Pô Idelber, ai é má vontade né.
    Se dissessem que ouve uma invasão judia, dos judeos que seja, à terras que pertenciam a palestino, faria sentido sim em língua portuguesa. Como faria sentido, por exemplo, se dissessem que houve uma invasão argentina a territórios brasileiros, não importa qual.
    Mas se anunciassem que ‘ construiram uma invasão de argentinos em Porto Alegre’, realmente não faria sentido algum em língua portuguesa.
    Mas o curioso é que quando se trata de Israel, detalhes semânticos importa mais que a própria agressão aos palestinos.

  7. Idelber Responder

    Sim, Frank, em português a gente não diz “houve um prédio”. Enfim, desisto. Depois você traduz um texto pra gente aí e a gente vê como fica.

  8. Renata L Responder

    Lindo texto para amantes de tradução e da causa palestina. O trecho essencial, acho, é esse, que deveria ser (mas não é) o objetivo de qualquer tradutor: “formar língua de chegada de tal forma que não se obscureça aquilo que é compreendido por qualquer leitor do original que possua o mínimo contexto.” Se for aceita essa definição como válida, é evidente que a tradução pseudoliteral da palavra “settlement” por “assentamento” – ainda mais, como reforçado na explicação do pessoal da Vila Vudu, com suas conotações de MST aqui em Pindorama – mais esconde do que revela, menos traduz do que obscurece. Há que se encontrar melhores soluções, e tanto a Vila Vudo como você, Idelber, propõem algo melhor do que o chapa-branca (como se nessa história se pudesse fazer tradução “neutra”; como se ser “neutro” aqui não fosse estar do lado dos invasores) “assentamento” tão usado na imprensa brasileira.
    Não dá pra entender: e portanto, não é uma boa tradução.
    Nem comento o Kucinski, que perdeu boa ocasião de ficar calado pra não ser ridículo – fiquei com vergonha da afirmação dele sobre Pappé e Finkelstein. Mas comento a opção do Viomundo: francamente.


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