Os intelectuais no pós-lulismo

Há dez anos, nascia a Revista Fórum. Há dez anos, os ataques terroristas a Nova York e Washington—embora não diferentes moralmente de incontáveis ataques realizados pelo terrorismo de Estado ocidental no...

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Há dez anos, nascia a Revista Fórum. Há dez anos, os ataques terroristas a Nova York e Washington—embora não diferentes moralmente de incontáveis ataques realizados pelo terrorismo de Estado ocidental no mundo árabe—inauguravam um momento histórico distinto, caracterizado pelo declínio da aura de invencibilidade dos Estados Unidos e pela lógica perversa da guerra sem fim. Na América Latina, a eleição de Hugo Chávez, três anos antes, e de Lula, um ano depois, dava início à guinada à esquerda que caracterizou a década no continente. Nos ataques de 11 de setembro de 2001, apareceram em tempo real para o grande público, pela primeira vez, testemunhos pessoais compilados em ferramentas de publicação online que então começavam a serem conhecidas como “blogs”. Coincidentemente, a década conclui com enormes protestos populares no mundo árabe, em Israel, Chile, Inglaterra e Espanha, nos quais as novas tecnologias cumpriram papel central. Onde estão os intelectuais que pensaram esta década? Onde é que o pensamento tem se encontrado com a práxis?

O termo “intelectual” é usado em vários sentidos, alguns deles, inclusive, pejorativos. Em seu sentido estrito, ele remete ao “caso Dreyfus”, na França. O jornal L’Aurore publicou, em 13 de janeiro de 1898, uma carta aberta do então já renomado escritor Émile Zola, dirigida ao presidente da República, com o título que se tornaria célebre: J’accuse (Eu acuso). O texto era um potente ataque ao processo militar que havia injustamente condenado o oficial judeu Alfred Dreyfus por crime de traição. Evocando a verdade e a justiça, denunciando o antissemitismo do caso, lembrando a França dos direitos do homem, a carta de Zola criou uma mobilização sem precedentes entre artistas e escritores, que logo publicaram textos em apoio a Dreyfus. Foi a retaliação dos adversários que usou pejorativamente, como neologismo para se referir a eles, o termo “intelectuais”, que até então não tinha circulação em francês. Desde então, a palavra se firmou para, nesse sentido estrito, definir aqueles sujeitos sociais que, trabalhando com o pensamento, intervêm para além das suas especialidades particulares, de forma pública, em temas que dizem respeito à pólis como um todo. Seu grande modelo, durante o século XX, também foi francês, Jean-Paul Sartre, mas as últimas décadas nos deram vários indícios de esgotamento do modelo humanista e orgânico do intelectual sartriano, questionado duramente a partir da explosão anárquica e horizontal de Maio de 1968.

No Brasil, como de resto em outros países da América Latina, a reforma universitária impôs uma tecnificação e uma compartimentalização que limitaram a possibilidade de que a universidade produzisse intelectuais com condições e disposição de intervir publicamente, para além das suas áreas de especialização. Privilegiou-se aqui a produção de um outro espécimen, o técnico, que tem em relação ao intelectual uma diferença marcante: o técnico jamais apresenta suas opções como resultado de escolhas políticas, e sim de uma racionalidade instrumental lógica. O técnico, portanto, não se coloca na posição de ter que assumir as consequências políticas do que preconiza, já que todo o processo de escolha é situado numa arena supostamente externa à política. Seu grande modelo brasileiro, nas últimas décadas, foram os economistas do tucanato, que apresentaram a privatização, a desregulamentação dos mercados e a descapitalização do Estado como produtos de uma escolha puramente racional, técnica, que seguia uma inexorabilidade científica. Foi preciso que um outro modelo se impusesse para que ficasse claro quão ideológicas eram aquelas escolhas. Mas ao longo dos anos 90, os economistas da privatização não se apresentavam, e não eram percebidos por grande parte da população, como representantes de um projeto político. Falavam em nome da ciência.

Em virtude do enorme grau de concentração e homogeneidade política da mídia brasileira, as figuras que nela falam como intelectuais tendem a ser, em geral, as mesmas. O leque dos chamados a opinar é notavelmente estreito: sobre ações afirmativas, se escutará Yvonne Maggie ou Demétrio Magnoli (de nenhuma produção acadêmica séria sobre o tema) dizendo que elas “racializam” a sociedade; sobre qualquer episódio da história moderna do Brasil, aguarde a entrevista com Marco Antonio Villa. E assim por diante, com a lista completa disponível num texto anterior que publiquei aqui na Fórum (“Acadêmicos Amestrados”, edição 80). Há exceções que desafiam o coro, como mostram as recentes contratações de José Miguel Wisnik por O Globo e Vladimir Safatle pela Folha de São Paulo. Mas, em geral, a intelectualidade que fala na mídia brasileira é bastante homogênea.

A partir de 2003 e, em especial, do final de 2005, que marca a recuperação do Presidente Lula do episódio do mensalão e o aparecimento mais nítido de indicadores do sucesso sócio-econômico do governo, a reação da intelectualidade alinhada com o lulismo centrou todo o seu poder de fogo na crítica da mídia. Dada a virulência com que os conglomerados de mídia brasileiros atacaram o lulismo com moralidade seletiva e, em muitos casos, com pura e simples falsificação (como na montagem publicada pela Folha como se fosse a ficha do DOPS de Dilma), essa reação era esperável, mas ela também solapou severamente a capacidade dessa intelligentsia de produzir pensamento crítico sobre o Brasil. A proliferação do termo “PiG”, que se fundamenta numa teoria de mídia patentemente ultrapassada, favoreceu atos de leitura seletiva que confundiam com golpismo qualquer crítica ao governo, mesmo as legítimas (como muitas críticas ambientalistas, ou as restrições às nomeações ao STF, ou o lamentável compadrio com Ricardo Teixeira na gestão do futebol). Daí foi um pulo para declarações em que, mesmo confessando ignorância sobre um tema, o intelectual alinhado descartava, por exemplo, com o argumento de que o tema não tinha transcendência. São os momentos em que o intelectual abdica dessa condição para se transformar em puro apparatchik.

Talvez o grande legado dos últimos anos para a renovação do papel do intelectual no Brasil tenha sido a experiência dos Pontos de Cultura do Ministério de Gilberto Gil e Juca Ferreira. Mais de quatro mil centros produtores e difusores de cultura, em todo o território nacional, revolucionaram a concepção que regia a relação entre a esquerda e as culturas populares no Executivo. Em vez de “levar” um produto cultural ao povo, os Pontos de Cultura potencializaram expressões já desenvolvidas pelas próprias comunidades, valorizando-as. Quando, por exemplo, os índios ashaninka, da aldeia Apiwtxa, no Acre, produzem um filme como A gente luta, mas come fruta (2006), mostrando o trabalho de manejo agroflorestal e a luta contra os madeireiros, e depois passam a ser uma das primeiras trinta aldeias contempladas como Pontos de Cultura indígenas (2009), é toda uma formação de intelectuais não tradicionais que vai se gerando por disseminação descentralizada. Infelizmente, como a Fórum tem debatido à exaustão nos últimos meses, a restauração conservadora no Ministério da Cultura de Dilma, retomado pelo ECAD, pelo lobby dos direitos autorais e da propriedade intelectual e pela “classe artística” tradicional, tem causado um dano considerável a esse legado. Ele sobrevive no ativismo, mas foi completamente desalojado do aparato estatal e não há perspectiva de que ele encontre grandes brechas ali num futuro próximo.

O brutal retrocesso no Ministério da Cultura, a intensificação do paradigma desenvolvimentista herdado de Lula, com a consequente destruição ambiental (da qual a Usina Belo Monte é o maior, mas nem de longe o único exemplo) e a timidez do governo na regulamentação das telecomunicações são só alguns indicadores de que a intelectualidade de esquerda terá que ter jogo de cintura para se descolar do governismo sempre que necessário, sem fazer, evidentemente, o jogo da oposição de direita. Estão aí os recados do mundo contemporâneo: Wikileaks, Revoluções Árabes, M-15 espanhol, revoltas de consumidores excluídos em Londres, o radicalizado movimento estudantil no Chile, as surpreendentes manifestações de massa em Israel. Quais serão os pensadores ativistas brasileiros que entenderão que a simples manutenção do atual paradigma não será suficiente por muito tempo mais? Quem será capaz de articular pontes entre o ambientalismo e o combate à desigualdade social, de tal forma que a nova Classe C seja permeável à urgente mensagem de que fazer hidrelétricas e exportar soja até a água e o solo acabarem não é exatamente um bom plano? Quais serão os intelectuais que entenderão o recado das comunidades digitais, da disseminação do comum na internet, do potencial político da troca, cópia e circulação infinita de arquivos? Quais serão os acadêmicos que saberão romper os muros da universidade e vincular suas pesquisas específicas com os interesses gerais em conflito na pólis? As tarefas que se apresentam para a intelectualidade de esquerda são enormes, e repetir a eterna cantilena de atacar e corrigir as distorções de Globo e Folha não é o caminho para enfrentá-las. Embora a luta pelas democratizações continue sendo uma das mais urgentes entre essas mesmas tarefas.

PS: Como preparação para esta coluna, fiz em meu Twitter (@iavelar) uma breve enquete: quais são os intelectuais que, na última década, o ajudaram a pensar, entender e planejar o Brasil? Deixo para o leitor da Fórum uma seleção dos mais votados, como convite a que se conheçam suas obras. Em primeiro lugar, o meu próprio voto: Maria Rita Kehl, José Miguel Wisnik, Eduardo Viveiros de Castro, Luiz Antonio Simas, Vladimir Safatle, Nei Lopes, Gilberto Gil, Luiz Felipe de Alencastro, Raquel Rolnik, Maria da Conceição Tavares, Márcio Pochmann, Tostão e Lorenzo Mammi. Outros bem votados foram: Roberto DaMatta, Luiz Fernando Veríssimo, Jessé de Souza, Rodrigo Naves, Marcos Nobre, Alexandre Nodari, Raúl Antelo, Marilena Chauí, Pádua Fernandes, Ronaldo Lemos, Sérgio Amadeu, João Reis, Ana Maria Gonçalves, Luiz Costa Lima e Francisco Foot Hardman.

Este artigo é parte da Edição 102 da Revista Fórum.



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20 comments

  1. Gilson Moura Junior Responder

    Idelber, tomei a liberdade de escrever um texto sobre o seu… menos criticando e mais complementando o que sua colocação me trouxe como reflexão: http://tranversaldotempo.blogspot.com/2011/10/quem-serao-os-intelectuais-do-pos.html?spref=fb

    1. Idelber Responder

      Gostei muito, Gilson, essa hipótese de que o ProUni pode ser o grande gerador de intelectuais do pós-lulismo é excelente.

  2. Adriana Torres Responder

    Excelente texto, como sempre.

    Gostaria também de apontar dois intelectuais que tem, para mim e para todos os Movimentos que integram a Rede Social Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis, ajudado a pensar o Brasil – e os nossos desafios.

    São eles Ladislau Dowbor e Bernardo Toro (apesar do último não ser brasileiro, sua contribuição ao nosso trabalho tem sido vital e ele está sempre presente em nossos debates).

    Abraço!

    Adriana

    1. Idelber Responder

      Cara amiga atleticana, obrigado pela dica do Toro e do Dowbor. Eu só havia tido referências vagas sobre o trabalho deles. Tentarei colocá-los no meu radar. Forte abraço.

  3. Carlos Henrique Machado Responder

    Belíssimo artigo Idelber! O intelectual que mais me traz a compreensão desse momento e a impressionante visão que ele teve e porque a teve, foi Milton Santos. O seu livro “Por uma outra Globalização – Do pensamento único à consciência universal” tem uma narrativa simplificada e bastante objetiva, de onde viemos, aonde estamos e para onde vamos.

    Quanto à questão do Ecad, há algo que tem me preocupado muito, e que já está perigosamente em prática e de forma galopante, que é a repressão nos espaços públicos por esse cartel do Ecad que ninguém consegue frear, às manifestações espontâneas da sociedade. O assédio desse escritório utilizando a falta de informação de comunidades pobres que não têm noção dos seus direitos, tem provocado um grande estrago na cultura brasileira.

    Não consigo entender como os blocos carnavalescos do Rio se submetem ao Ecad. Não é possível que uma multidão daquela não aproveite a sua força para se rebelar contra essa milícia. Acho que as redes sociais deveriam começar um movimento para que, no carnaval, ninguém pague por manifestações em espaços públicos. Está faltando uma mobilização da sociedade de enfrentamento a esse absurdo. O Ecad está, ano após ano, batendo recordes de arrecadação encima das manifestações espontâneas.

    Na semana passada conversei com a líder de uma comunidade jongueira que me falou, revoltada, do assédio que está sofrendo de agentes do Ecad querendo recolher direitos autorais dos pontos criados pelos escravos e cantados hoje pelas comunidades.

    Abraços.

    1. Idelber Responder

      Os sanguessugas do ECAD não dão sossego nem às comunidades jongueiras. Inacreditável a cara-de-pau. Abraços, Carlos.

  4. Hugo Albuquerque Responder

    Idelber,

    É curioso notar como o surgimento da criatura chamada intelectual está intrinsecamente ligada à própria produção de subjetividade da sociedade industrial, ilustrando, ao mesmo tempo, uma necessidade premente sua e o seu próprio limiar: sim, ideias e perspectivas novas são necessárias, tanto quanto elas podem ser perigosas para o Capitalismo. Aquele sistema produz a mesma academia que ele próprio sitia com forças policiais, pois a produção de conhecimento – e, mais ainda, de intelectuais – é um mal necessário, um risco calculado na medida do possível. No Socialismo, tal como o conhecemos, um processo parecido, embora mais chocante também se desenvolveu.

    No Brasil, esse fenômeno toma uma caráter bastante singular, seja pela exclusão da população da universidade ou pela situação de miséria cultural que o capitalismo local, ainda, mantém grande parte da população – que, a bem da verdade, é praticamente analfabeta em quase a sua maioria.

    Eu veria, no entanto, que o surgimento do “técnico” – embora prefira “gerente” – é uma construção que vai para além da reforma universitária, pois trata-se de algo que marca a passagem da sociedade disciplinar para a sociedade de controle: se antes os intelectuais eram produzidos em larga escala, mantidos cercados em suas existências enxeridas e, às vezes, um pouco produtivas, tomando safanões – ou coisa pior – quando saiam da linha, hoje, a coisa passa por um processo muito mais complexo, que é o da desintelectualização dos setores voltados para a produção de conhecimento, não só pela formação do técnico/gerente no seu lugar como o uso do segundo para neutralizar o primeiro.

    Na era do trabalho imaterial, é necessário não formar intelectuais e, sobretudo, destruir os que estão por aí. De certa forma, voltando ao socialismo “real”, é uma coisa que já aconteceu nos finais dos anos 20 na União Soviética. São dois fenômenos econômicos diferentes, mas é preciso atentar para um detalhe: tanto na União Soviética de Stalin quanto no Brasil da era da globalização, o Estado – e não confundir com os programas sociais que ele gere, todos criados em decorrência do permanente atrito das reivindicações de seus súditos – cresceu assustadoramente e assumiu mais e mais o controle sobre a vida.

    Nesse sentido, tanto na União Soviética dos anos 30 quanto o no mundo de hoje, pensar possibilidades deixou, por N motivos, de ser um mal necessário e para ser tomado, necessariamente, enquanto problema a ser resolvido. O Brasil que eclode da dita reforma do Estado nos anos 90 é precisamente esse lugar, mas não diferimos dos EUA desde os anos 60 – com autores como Chomsky e Negri apontando, com precisão, para as transformações no Departamento de Estado -, muito menos da China contemporânea. A via é única, a vida está solapada.

    Hoje, quem frequenta os bancos universitários brasileiros sabe que o padrão dos universitários até é mais representativo junto às classes sociais e etnias que compõem a nossa sociedade do que antes, mas isso não chega, ainda, a ser tão efetivo quanto poderia. O que muda é que os pequeno-burgueses brancos e bem cuidados que ainda são maioria desse caldo convivem menos com trabalhadores e negros em sua vida quotidiana. Essas pessoas vivem em condomínios fechados, não frequentam hospitais públicas tampouco estudam em escolar que sequer têm bolsas. Em grande parte, esse contingente não é formado sequer para ser técnico/gerente ou intelectual, mas para ser um mero operador de qualquer coisa. Mas o ideal que esse futuro operador projeta é, de fato, a do técnico/gerente.

    Nesse sentido, a hipótese do Gilson aí em cima, faz sentido. Os prounistas – mas, temo, apenas os das melhores universidades privadas, em geral, as Pucs – podem, a exemplo dos cotistas da universidade pública, se tornarem um grupo mais propenso a escapar dos ditâmes da máquina universitária. O que seria uma versão atípica do intelectual, algo que, de maneira mais pura, seria um intelectual nascido da produção de subjetividade resultante do atrito da luta de classes. O intelectual nascido no bojo de mudanças (pequenas, ainda) que permitiram uma maior inclusão no ensino superior e pela (pequena e ameaçada) abertura na cultura.

    Por outro lado, o mesmo governo que promoveu isso, é aquele que – como ilustra de maneira clara no fenômeno da MinC – sofreu um refluxo burocrático. Se as eleições de 2006 era, certamente, a disputa entre a política, com Lula, e o gerencialismo – uma forma de fazer política sem assumi-la, algo que só vimos, talvez, no Medievo com a Teologia propriamente dita – tucano que assume sua forma definitiva na figura de Alckmin, por outro lado, em 2010, o PT estava pautando uma candidata cujas qualidades são, vejamos só que ironia, a competência gerencial.

    Não à toa, o intelectual tradicional tem cada vez menos importância nisso tudo. Em uma sociedade de redes, o intelectual sabe que é menos importante do que gostaria de ser. Ele precisa se reinventar e isso só é possível na insurgência, largando mão do espaço público, partindo para constituição de um comum, em outras palavras, é preciso devir clandestino em certa medida, clandestino – e produtivo – como um partisan e, ao mesmo tempo, aceitar a própria desimportância de sua condição para ser produtivo – como fez um certo Foucault.

    abraços

  5. hernani dimantas Responder

    bem, acho apenas que faltou referenciar o metareciclagem. Foi o movimento que impactou fundamentalmente as politicas de cultura digital :P

  6. Idelber Responder

    Imperdoável omissão, tá certíssimo :)

  7. Talita R da Silva Responder

    Ótimo texto, que traz uma perspectiva admirável, e comentários bastante argutos, incluso o post do Gilson Moura Junior.

    Vejamos como será a intelectualidade nacional daqui a uma década, levando em conta o maior acesso à universidade, sobretudo, por mulheres. E com que benefícios virá a participação da classe C, que adentra a universidade. Enfim, queria apenas contribuir dizendo que não poderia deixar de correlacionar nossa realidade à Sociologia da Educação de Bourdieu.

  8. Flavia (@ladyrasta) Responder

    Belo artigo. Assino embaixo. :-)

  9. Raphael Tsavkko Responder

    Belíssimo artigo, Idelber. Aliás, noto a ausência de notórios blogueiros e tuiteiros governistas nos comentários de um post tão importante! Será que não teriam sugestões?

  10. Guilherme Scalzilli Responder

    Piada sem graça

    A propaganda com Gisele Bündchen, o personagem machista da novela global e as desventuras do tal Rafinha Bastos motivaram um clima de patrulhamento que precisa ser questionado enquanto resta algo a debater. A cada batalha moralista a esquerda se distancia do espírito libertário e tolerante que a diferenciava dos adversários. E permite que tais valores sejam apropriados pelo conservadorismo decadente, transformando-o em repositório de boas plataformas negligenciadas. Aconteceu com a descriminalização da maconha, por exemplo, e agora acontece com a liberdade de expressão.

    Concordo que há limites para certas manifestações públicas, e sou defensor antigo de uma legislação específica voltada à imprensa. Mas quem estabelece limites no entretenimento, na farsa ou na ficção? O Tribunal dos Valores Éticos e Sociais? A Liga das Senhoras Ridentes analisará trocadilhos e anedotas? Qualquer dignidade que se julgar desrespeitada poderá vetar a provocação alheia? E se as vítimas de gangues psicóticas tentarem proibir “Laranja Mecânica”? Vamos amaldiçoar os velhos traquinas de Mario Monicelli ou os idiotas de Lars von Trier porque ridicularizam incautos e doentes? A animação “Family guy” será metida no índex degenerado? Há diferença entre vetar um filme sérvio ruim ou “Je Vous Salue, Marie”?

    Essas questões incômodas evidenciam o perigo de se tolerar precedentes regulatórios na atividade criativa. Se os paralelos soam exagerados é porque os vilões momentâneos pertencem à chamada cultura de massas, tida como descartável, indigna de compartilhar as prerrogativas republicanas daqueles que a menosprezam. Os sábios jamais permitiriam bedelhos nas suas diversões “cultas”, mas não hesitam em determinar o que as audiências ignorantes podem assistir. A pedagogia do bom gosto camufla uma visão pejorativa do que é popular (nas muitas acepções possíveis), adquirindo um viés social pernicioso e, no limite, autodestrutivo.

    Assusta ler setores da blogosfera recorrendo à bula politicamente correta para justificar seus arroubos censórios. Mas há lógica no raciocínio. O que motiva essa fantasia eugênica, moldada em padrões medíocres de conduta, é a anulação da individualidade e a conseqüente asfixia das divergências. O êxtase coletivista do pensamento único busca formar rebanhos homogêneos e dóceis, que aplaudem qualquer mistificação despótica para evitar a pecha de reacionário ou preconceituoso. Nem sempre funciona, e é por isso que ainda apostamos na democracia.

  11. gabriel Responder

    minha humilde opinião: ermínia maricato, andré singer, ricardo antunes, chico de oliveira, odette seabra, paulo arantes, ricardo rosas, sérgio vaz, entre outros.

    Mas é realmente estranha a ausência de “grandes pensadores do país” em manifestações recentes como as “marchas da liberdade” e similares.

  12. plf Responder

    Universidade tem um fim muito preciso: produção de conhecimento; produção científica. Independente da área. Se o cidadão se achar no direito de intervir no debate público, quanto maior sua competência e capacidade, melhor. Agora, não vamos misturar as coisas. Fica bonitinho falar em “tecnificação”…em tom pejorativo? O que isso significa? Quais são os impactos das citadas reformas na vida acadêmica brasileira? Será que os intelectuais sobre os quais fala eram/são realmente acadêmicos ou somente figuras públicas – geralmente da elite – com algum título rastaquera e/ou formal? O fato de ter um doutorado ou mestrado não faz do sujeito um acadêmico. Trabalhar na academia, produzindo pesquisa, sim. Sobre o Brasil, tenho opinião distinta: estamos passando por um processo de profissionalização da academia – umas áreas mais do que outras -; e estamos tentando avançar, a duras penas, nesse quesito. É simplesmente imprescindível a necessidade de separação entre o trabalho acadêmico e a decisão a participação do profissional na vida política do país. Não é porque um cidadão é cientista político que tem que virar comentarista político ou analista de conjuntura. No grande quadro, sua contribuição mais valiosa ficará na pesquisa.

    1. Idelber Responder

      plf, eu, pelo menos, não uso “tecnificação” em sentido pejorativo. Pra mim, é a descrição de um processo. Claro que “não é porque” um “cidadão” é cientista político que “ele tem” que virar comentarista político ou analista de conjuntura. A questão é outra e não é individual: por que tão poucos dos profissionais formados na universidade se projetam como intelectuais públicos. Essa limitação não é exclusivamente brasileira e não a compreenderemos se recorremos a formulações que individualizam o problema. Em outras palavras, não é “culpa” de vocês. Pode relaxar.

      Se estiver interessado numa elaboração mais longa minha sobre o tema, pode consultar: Alegorias da Derrota: A ficção pós-ditatorial e o trabalho do luto na América Latina (Editora UFMG, 2003), onde há um capítulo inteiro sobre a universidade brasileira pós-ditatorial. Há uma imensa bibliografia sobre a tecnificação da universidade que, ao contrário do que você parece pensar, não usa o termo em sentido pejorativo ou como acusação a ninguém, mas como descrição de uma transformação histórica e estrutural, ligada à mudança do papel da universidade. Quanto à sua dúvida sobre se figuras como José Miguel Wisnik ou Eduardo Viveiros de Castro são “realmente acadêmicos ou somente figuras públicas – geralmente da elite – com algum título rastaquera”, eu deixo que Tio Google faça o trabalho. Abraços.

  13. Marcelo Delfino Responder

    Esse texto tem muito do pensamento que tenho elaborado a respeito do lulo-dilmismo. Digo que estou satisfeito com a superação do demo-tucanismo, mas não posso dizer que esteja satisfeito com o lulo-dilmismo. Falemos só em pós-lulismo quando o lulo-dilmismo e mesmo a esquerda forem superados. Tem muito intelectual por aí que não merece tal alcunha, pois sequer se dispõem a praticar a leitura. Mesmo de textos discordantes, que lhes permitiriam elaborar o contraponto. No que diz respeito ao PiG muito mais Governista que Golpista, me recuso a participar dessa palhaçada de “lavagem das escadarias da Globo” ao lado dos governistas, da mesma forma que me recuso a participar desses protestos “contra a corrupção e o Governo” que tem a cara de pau de se dizerem “apartidários”. Se for um protesto assumidamente contra o Governo, talvez eu apareça.

  14. Neiva Responder

    O que vc acha sobre a constante insistência por parte da imprensa sobre usar o ”eu não sei” que Lula disse e diser que todo o sucesso que ele obteve é por causa de FHC?
    Todos quando querem criticar o Lula disem isso.Como se fosse algo certo, indiscutível, irrefutável.O q vc acha? Vc dá alguma razão para tais argumentos?
    Gosto de política, estou tentando entender e ouvir opiniões diversas, gostaria muito de ouvir a sua.
    Gostei do texto.Vou procurar a saber sobre as pessoas mencionadas, vai me ajudar.Mas agora estou dedicando toda minha atenção aos livros escolares e ao grande Milton Santos.
    Abraço.

  15. Lula Responder

    O grande problema dos intelectuais nesse momento é ser útil afastado dos movimentos de esquerda.
    A esquerda não deu certo na URSS e nem em Cuba, no Brasil se fizeram mobilizados contra o avanço neoliberal imposto no mundo a partir da década Reagan nos EUA.
    Durante o governo de FHC tivemos muitos excessos, muitos erros ocorreram por falta de coragem política e até por omissão da esquerda, mas quando chegou ao poder a esquerda não teve habilidade para mudar o curso da história o que era previsto pelos mais afoitos capitalistas.
    Desde que se instalou na situação a esquerda tem se beneficiado das reformas feitas no passado e enfatizado de programas de subsídios as famílias de baixa renda acomodando os ânimos.
    No entanto os intelectuais que enfatizavam na esquerda a alternativa e a saída para os excessos cometidos pelos capitalistas perceberam que todo homem tem que ter direito ao consumo e ao trabalho e que isso tem de ser permeado pela liberdade democrática algo que vai contra o estado centralizador e provedor defendido pela esquerda.
    Conseqüência disso foi o racha entre radicais e liberais o esvaziamento dos partidos de esquerda e perda de credibilidade de alguns de seus lideres, casos de corrupção ajudaram a reforçar muito essa que era a principal pedra atirada contra os capitalistas.
    Pode parecer ingenuidade, mas a corrupção é algo inerente a qualquer ser humano uns mais outros menos e não é porque ele é de esquerda que isso o impedira de ser corrupto.
    O grande desafio desses intelectuais hoje é encontrar uma utilidade para suas palavras dentro de movimentos que querem a democracia em primeiro lugar e um estado menos pesado, menos oneroso.
    Garantir o direito de liberdade de expressão o direito de ir e vir e de protestar contra esse estado quando esse comete excessos.
    A ausência de intelectuais existe porque esses estão tendo de se reinventar fora da esquerda forçados a admitir o capitalismo como possível alternativa.
    Talvez a alternativa seja produzir idéias para combater os abusos do capitalismo com a volta da Republica, nesse momento em que governantes de esquerda endossam um estado quase Fascista.

  16. Coala Croata Responder

    Estava relendo uns trechos do 1984 do Orwell para um texto que estou escrevendo e esbarrei em um parágrafo que me lembrou este texto quando toca na “tecnicização” da Universidade.
    compartilho só pelo prazer de compartilhar um texto tão visionário.

    All rulers in all ages have tried to impose a false
    view of the world upon their followers, but they could not afford to encourage
    any illusion that tended to impair military efficiency. So long as defeat meant
    the loss of independence, or some other result generally held to be undesirable,
    the precautions against defeat had to be serious. Physical facts could not be
    ignored. In philosophy, or religion, or ethics, or politics, two and two might
    make five, but when one was designing a gun or an aeroplane they had to make
    four. Inefficient nations were always conquered sooner or later, and the struggle
    for efficiency was inimical to illusions. Moreover, to be efficient it was necessary
    to be able to learn from the past, which meant having a fairly accurate idea of
    what had happened in the past. Newspapers and history books were, of course,
    always coloured and biased, but falsification of the kind that is practised today
    would have been impossible. War was a sure safeguard of sanity, and so far
    as the ruling classes were concerned it was probably the most important of all
    safeguards. While wars could be won or lost, no ruling class could be completely
    irresponsible.


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