A tragédia tibetana

Ocupado pela China, o povo do Tibete tem sua cultura sufocada e seu povo massacrado. O resto do mundo faz de conta que não vê, afinal, do outro lado, está a China

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Ocupado pela China, o povo do Tibete tem sua cultura sufocada e seu povo massacrado. O resto do mundo faz de conta que não vê, afinal, do outro lado, está a China

Por Luiz Cesar Pimentel

“Quero ressaltar a importância do nosso relacionamento com o povo e governo chineses. É do interesse dos Estados Unidos da América manter boas relações com esse país.” Dessa forma o então presidente dos EUA, George Bush (pai), respondeu em 1989 a uma pergunta sobre que atitudes tomaria em relação ao massacre da Praça da Paz Celestial, ocorrido dois dias antes. Quatro dias depois da violência contra os estudantes chineses, na qual o correspondente do The New York Times contabilizou pelo menos 2 mil mortos, a revista Newsweek publicou matéria com a seguinte declaração de um membro da administração Bush, que pediu para não ter o nome revelado: “Não podemos perder dezessete anos de diplomacia por causa de um final de semana”. Referia-se ao ano em que a China tomou o lugar de Taiwan na ONU e o presidente norte-americano Richard Nixon fez uma célebre visita a Pequim.

Quando estive no dia 3 de junho de 1999 em Pequim, dia do décimo aniversário da manifestação estudantil, fui à Praça da Paz Celestial visitar o mausoléu onde Mao Tsetung está embalsamado. A praça estava fechada. Motivo: uma troca “emergencial” do piso para a comemoração do 50º aniversário da República Popular da China, quatro meses depois. É com essa lógica democrática que a China trata o Tibete, ocupado pela recém-nascida República Popular, em 1950. É com essa cegueira proposital que os líderes americanos e de outros países tratam essa ocupação.

Durante cinco dias, cruzei o Tibete desde a fronteira com o Nepal até chegar à capital, Lhasa. O percurso é belíssimo. A Friendship Highway – mil quilômetros desde Kathmandu, capital do Nepal, até Lhasa – é considerada a estrada mais bonita do mundo. A paisagem constante da janela do carro é de aridez total, o trecho cruza as montanhas do Himalaia, passando por picos de 5.050 metros, uma barreira instransponível para o cultivo agrícola. A cada parada, tibetanos parecem brotar da terra para pedir comida, já que não conseguem plantar nada. Qual o interesse que pode despertar um território assim? Bem, a resposta dos chineses é: “a libertação do povo tibetano, que vivia oprimido por forças estrangeiras e pelo feudalismo”. Abertas as cartas do jogo, revelam-se outros interesses. A primeira atende pela palavra minério, mais especificamente o urânio, matéria-prima de elementos combustíveis que acionam os reatores de usinas nucleares. O Tibete é um dos maiores, se não o maior, produtor do minério no mundo.

Outra carta mostra um orgulho na incorporação. Um orgulho enraizado que não separa fantasia de realidade. Conversando com uma jornalista chinesa bastante esclarecida, poliglota, que trabalhou como correspondente internacional, indaguei sobre Tibete: “Você sabia que o Dalai Lama faz rituais tocando tambor confeccionados com pele de tibetanos traidores?” Difícil contra-argumentar.

A terceira carta do interesse está ligada à explosão populacional. Na China de 1,3 bilhão de habitantes, apesar da política de um filho por casal, nasce o equivalente a uma Austrália todos os anos. Uma área do tamanho da Europa Ocidental, como o Tibete, torna-se fundamental. Até por isso, para povoar a região, o governo chinês fez diversas campanhas oferecendo facilidades a quem rumasse para lá. Infelizmente as cidades não estavam preparadas para esse inchaço e quem paga a conta são os tibetanos, com graves problemas de estrutura e saneamento.

O quarto ponto é a posição estratégica. O Tibete faz larga fronteira com outra potência nuclear, dona de um exército gigantesco, a Índia, além de estender os braços ocidentais chineses.

Logo após a invasão, o Dalai Lama tomou o caminho lógico: fez um apelo à ONU. O resultado foi ridículo. A Inglaterra, que invadira o Tibete décadas antes, mas que desistira após constatar que o país não poderia oferecer muito para seus interesses, apontou que o status tibetano era “confuso” e claramente preferia ver a China expandir a influência na Ásia à URSS, que à época era o maior inimigo ocidental. Os EUA, que estavam com a atenção voltada para a disputa na Coréia, coçaram a cabeça, pensaram nas dificuldades que teriam para mover um exército pelo Himalaia, no custo-benefício, e deram de ombros. O único país que teve atitude foi El Salvador, uma das grandes vítimas dos EUA durante e após a Guerra Fria, que recomendou uma moção condenatória.

Leve-se em conta que a China não é e nunca foi um Iraque ou Afeganistão. Trata-se de um país de dimensões continentais – ocupa mais de 2/3 do Leste Asiático. Além disso, é uma potência nuclear, possui forte peso político e tem uma população cada vez mais jovem.

A situação continuou sob tensão até 1959, quando na comemoração do Ano Novo Tibetano, os militares chineses convidaram o Dalai Lama para uma performance de dança na base militar chinesa em Lhasa. No convite, uma exigência: que ele comparecesse desacompanhado dos 25 seguranças que o guardavam. Apesar de ser mais que evidente que as intenções não eram boas, ele aceitou. Mas, os tibetanos em Lhasa, deduzindo que se tratava de plano para raptá-lo, cercaram o Palácio de Verão onde estava. O governo chinês entendeu como insurreição e partiu para a dispersão das pessoas, situação que logo caminhou para o bombardeio do palácio. No meio da noite, disfarçado de guarda, o líder tibetano deixou a residência e fugiu para a Índia, onde chegou quase um mês depois no lombo de um cavalo. Foi recebido como exilado, só que, para não desagradar os vizinhos, o governo indiano garantiu que o Dalai Lama exerceria apenas funções religiosas no exílio.

Começava, então, o período mais difícil da história do povo tibetano. Entre 1958 e 1960, Mao Tsetung institui o “Grande Salto Adiante”, com a intenção de eliminar os “rabos do capitalismo”. Para isso, era necessário exterminar a produção familiar, ou seja, coletivizar e mobilizar o povo a atacar tudo o que levasse ao individual, à polarização social e à exploração. O Tibete tornou-se prato cheio dessa política, já que ainda existiam traços feudais em sua composição social – prática cuja eliminação era considerada prioritária pelo Dalai Lama em sua política de modernização do país. Esse plano se encontra em sua biografia Minha Terra e Meu Povo.

O resultado dessa política? Na China, entre os três anos, mais de 20 milhões de pessoas morreram de fome. Segundo o senhor Geraldo Chin, filho de mãe mexicana e pai chinês, que conheci em Macau e que morava na China à época, “a situação era tão terrível que as pessoas estavam trabalhando no campo e de repente desabavam mortas”.

No Tibete a situação não foi diferente, devido às condições do meio, não era qualquer semente que brotava e era preciso usar o conhecimento individual para fazer nascer algo. “Morrendo de fome, as pessoas perdiam a dignidade. Comíamos qualquer coisa, corda, couro, alguns comiam ratos e sapos, outros chegaram a comer vermes que encontravam em excrementos”, diz Tenxin Choedrak, médico do Dalai Lama, que ficou preso por dois anos perto da fronteira da Mongólia, um dos dois remanescentes de 300 prisioneiros que foram levados para lá.

Pouco depois de sua chegada à Índia, o líder tibetano exigiu investigação mais rigorosa do caso e foi formada Comissão Internacional de Juristas, que apontou a violação de direitos humanos em dezesseis pontos, incluindo assassinatos, estupros e torturas. Concluíram, também, que o Tibete era uma “nação independente antes da invasão e que os chineses tinham tentado destruir num todo ou em parte os tibetanos como nação separada e o budismo no Tibete”.

Com o relatório na mão, o Dalai Lama fez novo apelo à ONU. Mas era a época em que a URSS acabara de lançar o Sputnik 1 e o 2, foguetes capazes de transportar ogivas nucleares, e exibia mísseis nucleares de curto alcance, saltando na frente nas corridas armamentista e espacial. Amparada pelos satélites, não precisava de muito esforço para garantir vitórias.

O bloco comunista argumentou que levantar o problema nas Nações Unidas era “interferência desmedida em assuntos internos chineses”. Os representantes norte-americanos olharam para o lado e fizeram que não era com eles. A Inglaterra seguiu o exemplo. Mesmo assim, por maioria de votos, o tema foi incluído na agenda da Assembléia Geral, e uma resolução foi feita a favor do Tibete. A China não foi mencionada nominalmente na nota, que pedia “respeito aos direitos do povo tibetano”. Ninguém tocou, entretanto, em soberania e independência.

No ano seguinte e novamente em 1965, após receber mais relatos de assassinatos e atrocidades que estavam sendo cometidas, o Dalai Lama apelou outra vez à ONU, que expressou “grande preocupação” e “profunda inquietude”.

A preocupação e a inquietude da ONU não se revelaram tão grandes nem profundas assim, já que no ano seguinte começava o período mais sangrento da ocupação, a famigerada Revolução Cultural chinesa.

A destruição – O resultado da barbárie só foi revelado uma década depois, após a morte de Mao Tsetung, em 1976. Para mostrar um pouco de simpatia, o governo chinês convidou o Dalai Lama a visitar o Tibete. Precavido, ele decidiu enviar uma missão para avaliar o que os 26 anos de ocupação haviam causado ao país. O resultado foi terrível: 20% da população tibetana – 1,1 milhão de pessoas – morrera em conseqüência de assassinatos, fome ou das más condições de trabalho. Dos 6.268 monastérios tibetanos, apenas catorze continuavam de pé e a conta apresentava ainda 100 mil tibetanos em campos de trabalhos forçados. As estatísticas do governo tibetano no exílio, em Dharamsala, na Índia, vão além e destrincham as condições de morte das pessoas – 432.705 morreram lutando, 342.970, de fome, 173.221, em prisões e campos de trabalho, 156.758 foram executados, 9.273, após torturas, e 9.002 se suicidaram. Isso além dos problemas óbvios da ocupação desordenada e da falta de trato da natureza, com muitas espécies animais em risco de extinção e danos à natureza que ainda não foram totalmente mensurados, já que a China não é conhecida exatamente pelas preocupações ecológicas. Basta dizer que as principais cidades do país já não são mais “enxergadas” por satélites devido ao grau de poluição. Caminhando por Pequim ou Xangai, um ponto que chama a atenção é a cor marrom acinzentada do céu. Três anos depois da missão tibetana, Deng Xiaoping, então no poder chinês, decidiu fazer o mesmo levantamento e não contestou os números.

Hoje, o tibetano, como povo, respira com ajuda de aparelhos. É um mendigo em sua própria casa. Por todo o país são raros os tibetanos que não se encontram em situação de mendicância. Das cerca de 13 mil lojas que existem hoje em Lhasa, apenas 300 são tocadas por tibetanos. E é difícil enxergar alguma brecha por onde o quadro possa ser revertido, já que as cidades estão totalmente tomadas, em arquitetura, população e costumes, por chineses.

O Dalai Lama propôs uma plano de paz com cinco pontos. São eles: o Tibete ser designado Zona de Paz, sem armas; parar a política de transferência de pessoas e ocupação; direitos humanos e liberdade democrática respeitados; meio ambiente restaurado e protegido; retomada das conversas e negociações com a China. O plano foi considerado separatista pelo governo chinês.

E a conversa tem ficado a cada dia mais difícil. Atualmente, a China é amparada pelo fato de ser um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, órgão máximo decisório na esfera internacional. Como parte desse clube seleto, ao lado de EUA, Rússia, França e Inglaterra, tem força de veto, podendo derrubar qualquer proposta de manutenção de paz internacional e segurança, já que tudo é instituído por unanimidade.

Na teoria, a carta das nações levantaria um sinal de alerta para o Tibete. Mas, na prática, foram instituídas relações que se produzem entre barganhas e submissões, já que o importante é estar protegido por um dos grandes, e as ações que se tomam muitas vezes resultam em paliativos.

Na ONU, a palavra Tibete é proibida. Pouco antes de viajar à Ásia, estive na sede das Nações Unidas em Nova York. Ao comentar que pretendia ir para o Tibete com uma alta funcionária do departamento de comunicação, ouvi a seguinte brincadeira: “Ops, falou a palavra proibida”. Se no curto prazo as condições não se mostram nada favoráveis, no longo prazo o povo tibetano parece ter data para o próprio sepultamento.

Como teocracia, o país tinha o Dalai Lama como líder espiritual e de governo. Na hierarquia, a seguir vinha o Panchen Lama. A função deste, além de eventualmente assumir o poder, era de reconhecer os futuros Dalai Lamas. Ou seja, quando do falecimento de um, o outro assumia o poder e seria responsável pelo reconhecimento do líder seguinte no processo reencarnatório de transferência de poder.

Como eliminar as autoridades tibetanas seria propaganda contrária demais, o governo chinês decidiu pela eliminação do sistema vigente. Ou seja, quando em 1995 o Dalai Lama identificou Gedhun Choekyi Nyima, de 6 anos, como o 11º Panchen Lama, não demorou um mês para que os chineses o raptassem, justificando como “questões de segurança”, e colocassem em seu lugar um outro Panchen Lama, estranhamente filho de um membro do PC chinês. Gedhun Choekyi Nyima que, segundo as autoridades chinesas, está em Pequim, mas não foi visto desde o rapto, é, aos 12 anos, o prisioneiro político mais jovem do mundo. Com o Dalai Lama afastado e um próprio Panchen Lama, é de esperar que o próximo Dalai Lama venha também do PC chinês.



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