Concerto geopolítico para Solo de cavaquinho

O recifense Fred Zero Quatro, líder dabanda Mundo Livre S/A faz uma explosiva mistura de samba, punk rock e - como gosta de dizer - "contra-informação"

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O recifense Fred Zero Quatro, líder dabanda Mundo Livre S/A faz uma explosiva mistura de samba, punk rock e – como gosta de dizer – “contra-informação”

Por Pedro Biondi

Com a MPB chocha há tempos e o rock ora puramente comercial ora indignado-porém-bobinho, às vezes tem-se a impressão de que só no rap restam vozes de protesto legítimas. No reino das guitarras, à parte um pingo de injustiça – O Rappa, por exemplo, já soltou belos retratos do absurdo social -, podemos dizer que uma banda defende praticamente sozinha a trincheira. Ela responde por Mundo Livre S/A.

O conjunto, formado em Recife há dezessete anos, tem no vocalista e compositor Fred Zero Quatro seu canhão antiaéreo. Fred Rodrigues Montenegro (o final do RG substitui o sobrenome) tem 39 anos e formou-se em jornalismo, mas acabou escolhendo como armas a guitarra e o cavaquinho (o punk rock e o samba são duas das principais referências do conjunto). Trata de drogas sem caretice, é lírico sem pieguismo e político sem cair no lugar-comum. O som da banda segue a rima. Em Roendo os Restos de Ronald Reagan, por exemplo, uma performance irada veste a letra punk. Em Musa da Ilha Grande, um delicioso fundo sonoro cheio de “nheco-nheco” ajuda a compor o clima sensual. Jorge Ben, aliás, é outra influência assumida.

A banda lançou-se em plano nacional com o mangue beat (ou manguebit ou, simplesmente, mangue), para muitos o mais importante movimento musical brasileiro desde o Tropicalismo. A idéia era fazer do manguezal metáfora da miséria mas, também, da tradição. E conectá-lo ao universo pop e às novas tecnologias – fincar a parabólica na lama, como pregavam os mangueboys. Na época, o som da banda e a figura de Fred foram um pouco ofuscados por Chico Science & Nação Zumbi. Afinal, Chico (que morreu num acidente em 1997) era um poço de carisma -verdadeiro ímã -, e não havia nada mais impactante que a mistura sonora da Nação. Mas fica difícil entender como vende pouco um conjunto que consegue falar sobre temas sérios como o poder irrefreado das multinacionais, a miséria e a truculência da “otoridade” sem ser chato – e que musicalmente casa isso com balanço, fúria e algum experimentalismo. Um conjunto que teve a sacada de transformar em música aquela vergonhosa conversa, acidentalmente transmitida, entre o então ministro da Fazenda Rubens Ricupero e o jornalista Carlos Monforte. “O que é bom a gente fatura; o que é ruim, esconde”, lembra?

No entanto, o tema que obceca Zero Quatro é a política externa norte-americana. O nome da banda remete à Guerra Fria. A expressão “mundo livre” era usada pelos americanos para definir o Ocidente e o mundo capitalista em geral, e os EUA em particular, em contraposição à União Soviética. O letrista já cogitava trocá-lo por um nome menos anacrônico quando, para sua surpresa, deparou com a expressão usada a torto e a direito nos noticiários da CNN e da BBC – desdobramento dos atentados que derrubaram o World Trade Center e parte do Pentágono em 11 de setembro. Na noite em que conversamos por telefone, treze dias depois, o clima era de apreensão. Bush conclamara todos à “guerra contra o terror” e posicionara porta-aviões, destróieres e caças nas vizinhanças do Afeganistão. Bela ocasião para chamarmos a ajuda de Mundo Livre S/A e Fred Zero Quatro.

O que você achou dos acontecimentos nos EUA e da cobertura feita pelos meios de comunicação?
O que aconteceu não é reconfortante, de maneira nenhuma, mas a comoção mundial que os atentados causaram é um tanto hipócrita. Assistimos a pessoas inocentes sendo trituradas todos os dias, só que em 99,9% dos casos é gente negra, asiática, dos Bálcãs. E ninguém dá a mínima. A atuação da mídia foi, como de costume, autoritária, hegemônica, tratando a informação como mercadoria. O mais triste é ver que a tragédia não contribuiu em nada para uma reflexão, uma mudança na opinião pública americana frente a essa arrogância, esse intervencionismo todo de seu governo. Parece que vai haver um retrocesso em relação às conquistas que vinham acontecendo, à consciência que estava se formando. Existia uma mobilização crescente contra o pensamento único. Agora haverá um canhão apontado para tudo que for visto como “ameaça”.

Política e geopolítica são matérias-primas importantes de seu trabalho. Como você acompanha essas áreas?
Procuro comprar revistas como Caros Amigos, Carta Capital e agora Fórum. Leio também autores como [o filósofo alemão] Robert Kurz e [o lingüista americano] Noam Chomsky. Ele é o cara mais entendido, ou pelo menos o mais empenhado, em divulgar os trabalhos de contra-informação. Tem acesso a muita informação privilegiada, como documentos internos do Pentágono, e esmiúça as entrelinhas do discurso do império, seus chavões.

Quando você fala em “contra-informação” refere-se estritamente à divulgação de documentos sigilosos?
Não. Muita coisa, hoje, não é secreta, mas é escondida de alguma forma, como as notícias importantes que saem no canto da página. Qualquer tipo de pensamento é permitido, mas somente um é levado a sério. Muitas vezes sinto que a nossa banda mesmo sofre um boicote branco, não-declarado, de boa parte da mídia.

Que outros autores contribuíram para sua formação crítica?
No final da adolescência eu lia muito Ronald Leng, um antipsiquiatra inglês que antecipou o movimento para tirar os esquizofrênicos do isolamento. Li algumas coisas do [filósofo francês Jean] Baudrillard: À Sombra das Maiorias Silenciosas, América e A Sociedade de Consumo, que pega o surgimento dos conceitos de shopping center e cartão de crédito. Na faculdade, estudei bastante [o sociólogo canadense Marshall] Mc Luhan. Gosto também do lado ensaísta do [escritor italiano] Umberto Eco.

Alguém da MPB foi influência importante?
Na adolescência, eu era bem mais ligado ao rock, embora tenha, paralelamente, descoberto o Jorge Ben da fase de A Tábua de Esmeralda (1974). O que mais escutava eram bandas como Led Zeppelin e, depois, rock progressivo. Sempre curti também black music, MPB ouvia um pouco no rádio, mas não me influenciou tanto. Se bem que um disco do Chico Buarque me marcou pra caralho: Meus Caros Amigos (1976). Também o estouro inicial de Raul Seixas – Ouro de Tolo, eu tinha 11 ou 12 anos, foi um soco no estômago, virou um hino.

Você participou da campanha do atual prefeito de Recife, João Paulo (PT). Que limites devem existir entre arte e engajamento?
Apareci no guia (programa) eleitoral dele, assim como no da Luciana Santos (PCdoB), que se elegeu em Olinda. Fiz também o jingle do vereador Dilson Peixoto (PT). Os músicos evitam se envolver com política. Para mim, o compositor, assim como qualquer outro profissional, é antes de tudo cidadão. Na minha música, a preocupação é estética: tem que soar bem. Por isso, nunca me expressarei da mesma maneira numa letra e numa entrevista.

Você faria jingle para algum dos atuais presidenciáveis?
Em princípio, só pro Lula. Mas isso se me ocorresse uma idéia boa, que achasse que poderia contribuir muito.

No auge do movimento mangue, vocês pareciam ter uma visão muito positiva das novas tecnologias e da internet. Tratavam-nas como fatores libertários. Essa percepção se mantém?
É verdade, tínhamos uma visão otimista. Achávamos que aquilo representaria uma transgressão total na lógica do controle da informação. As grandes corporações ainda não investiam tão pesado nessas tecnologias. Hoje é mais complicado. Fusões, telefônicas comprando portais… a internet virou a nova fronteira do capitalismo internacional. A quantidade e a fragmentação da informação se revelaram excessivas, às vezes se perde a orientação. E o público continua muito restrito. Pode-se dizer, pelo menos, que o meio não serviria bem a um projeto de controle nacional, como aconteceu com a TV no regime militar.

Você demonstra enorme simpatia pelo subcomandante Marcos, o líder do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), do México. Ainda o considera a grande referência atual dos movimentos de resistência? Vê chances de surgir, em breve, uma figura equivalente?
Eles foram realmente um marco. A primeira guerrilha a usar bem a contra-informação, a aproveitar a internet quando ela ainda tinha aquele caráter anárquico. Marcos tem veia humanista, um discurso poético surpreendente para um guerrilheiro. Sua figura vai permanecer influente no cenário mexicano, mas, por causa dessa cruzada do “Bem contra o Mal”, acho muito pouco provável surgir alguém assim, com projeção internacional, nos próximos anos.



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