Doenças que não valem nada

Entre 1975 e 1999, foram desenvolvidos 1.393 remédios. Dentre eles, apenas 13, ou seja, menos de 1%, destinavam-se ao tratamento de doenças que matam milhões de pessoas nos países pobres. É a lógica da indústria farmacêutica, o que vale é o lucro

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Entre 1975 e 1999, foram desenvolvidos 1.393 remédios. Dentre eles, apenas 13, ou seja, menos de 1%, destinavam-se ao tratamento de doenças que matam milhões de pessoas nos países pobres. É a lógica da indústria farmacêutica, o que vale é o lucro

Por Glauco Faria e Nicolau Soares

A malária mata de 2 a 3 milhões de pessoas no mundo por ano. A doença não possui nenhuma vacina aprovada pela comunidade científica e só existem cinco remédios para combatê-la. Boa parte dos doentes não responde mais ao tratamento, já que tais drogas estão ultrapassadas. Mesmo que não venha a falecer, quem já adquiriu malária pode contrair a moléstia novamente, o que fatalmente ocorrerá se continuar morando numa área de risco. Há quem contraia a enfermidade mais de vinte vezes durante a vida, sofrendo com seus efeitos, como febres altíssimas e delírios.

No ano de 1989, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o combate à malária como uma prioridade mundial, em função do recrudescimento da doença. Esse apelo foi renovado pelo mesmo organismo em 1993. Não adiantou. Embora seja uma das principais causas de morte no mundo, a malária não recebe atenção da indústria farmacêutica, da mídia ou dos governos. Ela é uma das chamadas doenças negligenciadas. As que só matam aqueles que moram em países pobres.

A ONG internacional Médico Sem Fronteiras (MSF) divulgou o relatório Desequilíbrio Fatal, levantamento das atividades de pesquisa e desenvolvimento de novas drogas dos onze maiores laboratórios do mundo. Segundo o documento, doenças tropicais, como a malária, a doença do sono e a leishmaniose, foram abandonadas pelas pesquisas da indústria farmacêutica. Entre 1975 e 1999 foram desenvolvidos 1.393 remédios. Dentre eles, apenas 13, ou seja, menos de 1% do total, destinavam-se ao tratamento das doenças tropicais.

“Para essas doenças, a indústria não faz pesquisa porque não se consegue formar um mercado consumidor. Os tratamentos acabam sendo feitos com remédios muito ruins, com baixa eficácia e diversos efeitos colaterais”, explica Michel Lotrowska, economista e membro da MSF. Como exemplo do descaso da indústria com as “doenças de pobres”, ele cita o exemplo da doença do sono, causada pela mosca Tsé-Tsé, moléstia que atinge 100 mil pessoas por ano apenas no continente africano. “O tratamento para essa doença é feito à base de arsênico, altamente tóxico. Depois de algumas aplicações, isso simplesmente mata o paciente”, relata Lotrowska.

Outra doença que atinge índices alarmantes em todo o mundo é a tuberculose, que ressurgiu graças às condições de miséria em várias partes do planeta e ao alastramento da Aids, que debilita o organismo e facilita o contágio pelo bacilo causador. De acordo com a OMS, são registrados cerca de 10 milhões de novos casos por ano no mundo, com aproximadamente 3 milhões de mortes. Somente no Brasil calcula-se entre 90 mil a 100 mil novos casos anuais. O mais dramático nesse quadro é que há mais de trinta anos não é desenvolvida nova droga para o combate à doença. “Atualmente, o tratamento dura de seis a nove meses e, devido aos efeitos colaterais, o paciente abandona a medicação muito cedo, antes de a doença ser totalmente curada. Isso provoca o aparecimento de formas mais resistentes de tuberculose”, esclarece a professora Ida Caramico Soares, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP.

A indústria farmacêutica mundial movimenta mais de 300 bilhões de dólares por ano. O seu principal nicho de mercado são os Estados Unidos que, sozinhos, são responsáveis por 40% de todas as vendas de produtos farmacêuticos. Como a preocupação principal da indústria é o lucro, os remédios desenvolvidos são voltados para as doenças que preocupam mais o Primeiro Mundo, como câncer, doenças cardíacas, obesidade e problemas dermatológicos como calvície.

A Aids é um caso à parte. A doença, que surgiu como epidemia nos países desenvolvidos, tem à disposição uma imensa quantidade de recursos. Para ter idéia, neste ano o Banco Mundial destinou mais de 1 bilhão de dólares para 99 projetos ligados ao HIV. Enquanto isso, o mesmo organismo, em conjunto com a OMS e o Instituto para uma Sociedade Aberta, do “benemérito” e megaespeculador George Soros, anunciou com pompa um programa mundial de combate à tuberculose, ao custo estimado de 9,3 milhões de dólares em cinco anos.

Mas o dinheiro investido na pesquisa de novos medicamentos contra a Aids não reverteu em benefícios para os países pobres, que hoje são os mais atingidos pela doença. Enquanto a vida média de um soropositivo aumentou muito em países desenvolvidos, na África, que possui 28,1 milhões de pessoas infectadas, isso não ocorreu. Em Botswana, por exemplo, calcula-se que a média de vida esteja 23 anos abaixo que ficaria sem a epidemia. O continente sofre 76% das 3 milhões de mortes causadas pela doença no mundo anualmente, alcançando 2,3 milhões de mortos apenas neste ano. De novo o imperativo econômico fala mais alto. A maior parte da população não consegue ter acesso ao coquetel de drogas anti-aids, já que o custo do tratamento é muito alto, chegando a 15 mil dólares por doente ao ano. Para efeito de comparação, o PIB per capita de Zâmbia, por exemplo, não chega a mil dólares anuais.

No caso africano, não bastaria ameaçar as gigantes farmacêuticas com a quebra da patente dos remédios contra Aids como foi feito no Brasil. “A situação deles é muito mais complicada, pois a maioria dos países do continente não tem estrutura para fabricar remédios em escala industrial”, destaca o médico sanitarista Tuyoshi Ninomya. As condições miseráveis da África e de outros países subdesenvolvidos impedem grande parte das tentativas de barrar epidemias como a Aids ou as doenças negligenciadas. As doenças endêmicas, em geral, estão associadas à pobreza, desnutrição e condições ambientais desfavoráveis. “Seria necessário não só um melhor direcionamento de investimentos financeiros da indústria farmacêutica, mas também melhora das condições gerais da população”, defende a professora Ida Caramico Soares. Deu pra entender qual é a diferença entre um rico e um pobre doente?



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