E se todo mundo fosse como os americanos

Um habitante de Madagascar só dispõe de 5 litros de água por dia. O americano, segundo a ONU, consome 600, os europeus, 200. De energia, cada americano precisa em média de tanta quanto três suíços, quatro italianos, 160 tanzanianos e 1.100 ruandenses. Na luta...

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Um habitante de Madagascar só dispõe de 5 litros de água por dia. O americano, segundo a ONU, consome 600, os europeus, 200. De energia, cada americano precisa em média de tanta quanto três suíços, quatro italianos, 160 tanzanianos e 1.100 ruandenses. Na luta do “bem contra o mal” é impossível ser igual ao “bem”

Por Newron Carlos

 Os Estados Unidos lutaram duas guerras mundiais, mas nenhuma em seu território. Washington já enfrentou os rigores da guerra. No século 18, nas mãos dos ingleses, nas lutas da independência. Desde então nada do gênero. Nenhum bombardeio, como sofreu Londres, e nenhuma ocupação, com sofreu Paris. Dá para imaginar a comoção interna de cada americano diante de parte do Pentágono calcinada, dos escombros em Wall Street, onde ficavam as torres destruídas, da Casa Branca evacuada e de Washington, na prática, em estado de sítio. A insegurança penetrou no íntimo de cada um. O “american way of life” se sente em terreno pantanoso e se angustia como nunca antes. O que é esse “way”? Nos anos 70 o The New York Times perguntou ao primeiro embaixador da China na ONU o que mais o havia impressionado nos EUA. “O tamanho do lixo”, foi a resposta. Consumismo e desperdício quis dizer o chinês. São 100 milhões de carros com ar condicionado, queimando gasolina a granel. Com 4,5% da população mundial, os Estados Unidos consomem um quarto de todo petróleo produzido.

Um malgache (habitante de Madagascar) só dispõe de 5 litros de água por dia. O americano, segundo a ONU, consome 600, os europeus, 200. Cada americano precisa em média de tanta energia quanto três suíços, quatro italianos, 160 tanzanianos e 1.100 ruandenses. O último levantamento, em relatório do World Watch Institute, constata que 25,5% do petróleo extraído são tragados pelos Estados Unidos. Se o resto do universo se igualasse aos americanos na queima de petróleo, seriam necessários 360 milhões de barris por dia.

A produção atual é de 67 milhões. De 1989 a 1999 essa queima aumentou 11% e a produção interna caiu 17%. As necessidades de importação já vão a 522 milhões de toneladas por ano, 60% mais que o extraído em casa. As emissões per capta de gás carbônico são 27 vezes maiores “do que a cota sustentável num mundo equilibrado”. Tem mais no estudo The Natural Wealth of Nations. Se o restante dos seres humanos se alimentasse como os americanos, a comida disponível só daria para 2 bilhões de pessoas. Só Índia e China têm mais pessoas. A população mundial ultrapassa os 6 bilhões. Os Estados Unidos são os maiores devoradores de carne, 100 quilos per capta por ano.

Os Estados Unidos foram chamados de “gated society”. Ou sociedade trancada. O escudo espacial que Bush quer construir seria a tranca maior. Mas agora a sensação é de porta arrombada e o “way” ameaçado. Os atentados pegaram em cheio o isolacionismo e o unilateralismo de Bush. A idéia de uma nação poderosa, cheia de si, a salvo num “bunker”, está em crise. Mas ainda é muito grande a força da “internalização”.

Guerra de civilizações – O professor Samuel Huntington, dos Estados Unidos, falou de guerras futuras como “choques entre civilizações”. Na época em que o livro saiu, em encontros e artigos, sobretudo na Foreing Affairs, Huntington teve de se desdobrar na defesa de sua visão de um mundo que teria ultrapassado os padrões de guerra conhecidos. Foi até acusado de “imaginar” fronteiras religiosas e, de certa maneira, alentar os que identificam um “diabo islâmico”.
Agora Huntington é lembrado, às vezes confusamente, e Bush usou o termo “cruzada” (teria sido distração?) ao descrever a campanha dos Estados Unidos contra o terrorismo. Repetição da guerra santa contra os muçulmanos na Idade Média? Huntington meteu a cabeça (atuou como intelectual e não soldado) no lamaçal do Vietnã e sofreu não só com a tragédia da intervenção americana. Também constatou a impotência da mente ocidental, por mais sofisticada que fosse, diante de outra “civilização”.

A partir daí Huntingon elaborou o que viria a ser a pedra angular do “choque entre civilizações”: o Ocidente não pode impor seus padrões como se fosse a única condição civilizatória possível. Ele estava entre os acadêmicos que se juntaram em Harvard para discutir o “fato” de que pelos menos dois terços da população mundial (chineses, russos, indianos, árabes e africanos) encaram os Estados Unidos como a grande ameaça externa a suas sociedades. Não se trata simplesmente de temor diante da formidável máquina militar americana, disse Huntington na Foreing Affairs. Os Estados Unidos são chamados por ele de “potência intervencionista, unilateral, hipócrita, com dois pesos e duas medidas, empenhada em impor imperialismo financeiro e colonialismo intelectual”. Com isso “assumem a imagem de ameaça à integridade, prosperidade e liberdade de ação” de muita gente pelo mundo afora. Palavras de Huntington, depois de “reciclado” pelo Vietnã e de um mergulho acadêmico nas diferentes civilizações.

O que acontece agora não é “choque entre civilizações”, diz o historiador Eric Hobsbawn. Cristãos e islâmicos formam uma única civilização, com valores e dogmas bem sedimentados. Bush no íntimo deve se sentir mesmo um cruzado, com a “espada da justiça” e “moral onipotente”, mal contra o bem, a profecia bíblica de Armagedon, a mãe das batalhas etc. A insanidade dos terroristas não pode ser interpretada como gesto de defesa da “sua civilização”, ou de uma civilização islâmica. Monarcas e potentados islâmicos têm tapete vermelho em Washington. As massas árabes são de pobres, excluídos e oprimidos.

Aí devem ser procuradas as razões dessa enorme tragédia. Não no livro de Huntington. Com os atentados terroristas a alvos no coração dos Estados Unidos, especialistas levantaram a hipótese de uma terceira guerra. Os que acham isso um despropósito argumentam que guerra incorpora o convencional, emprego de tropas, tanques, canhões, aviões, inimigo conhecido, arsenais de regras negociados em Genebra, e o atentado foi não convencional, embora ato de guerra. Meras especulações. Há uma pergunta maior, que aparece de modo majestoso diante de montanhas de palpites. Como isso foi possível? Não faz muito tempo que se soube que os Estados Unidos e parceiros menores, como Inglaterra e Austrália, construíram uma rede planetária de vigilância.

Ela tem condições, em seus detalhes mais surpreendentes, de interceptar telefonemas privados, meus, seus, de toda a espécie humana. Houve inquérito a respeito no parlamento europeu. Echelón seria o nome. Por outro lado, O Los Angeles Times noticiou que o secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, apresentou projeto de construção de um “bombardeiro espacial”. Ele permitirá aos Estados Unidos executarem “rápidos ataques globais”. Qualquer objetivo no universo seria alcançado em no máximo 30 minutos, com bombas de alta precisão lançadas do espaço, a 100 quilômetros da terra. A volta à base, nos Estados Unidos, não excederia 1h30.

Não se trata de militarizar o espaço, justifica-se o Pentágono, porque os alvos estão em terra. Mas o próprio Pentágono confirma que “a força aérea espacial se transforma em força espacial aérea”. Dominar o espaço para dominar em terra.
Mesmo assim o ataque a Nova York aconteceu. Os militares americanos, empurrados pelo governo Bush, se embriagam com guerras nas estrelas, enquanto se fala em guerra aqui na Terra.

O resto do mundo existe, aprende Bush, numa trágica lição, e os Estados Unidos, mais do que nunca, precisam relacionar-se com esse fato.



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