Eles vêem o jornal como uma fábrica de sapatos

Ignácio Ramonet, diretor do Le Monde Diplomatique, é um dos pensadores mais agudos e lúcidos quando o tema é a comunicação dos tempos globais. Seus textos e pensamentos têm aquecido boa parte dos debates dessa área, tanto os realizados nos centros de estudos universitários...

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Ignácio Ramonet, diretor do Le Monde Diplomatique, é um dos pensadores mais agudos e lúcidos quando o tema é a comunicação dos tempos globais. Seus textos e pensamentos têm aquecido boa parte dos debates dessa área, tanto os realizados nos centros de estudos universitários quanto por ativistas da informação independente. Entre outros livros seus publicados no Brasil destaca-se A Tirania da Comunicação, da editora Vozes

Por Luciana Bento

O poder da imprensa
Existem dois poderes fundamentais no mundo hoje: o econômico e o midiático. A imprensa já é planetária, as grandes redes e agências de notícias geram informações que são consumidas em todo o mundo. O problema é que a informação transformou-se em espetáculo. Os textos são breves, curtos, publicitários. As notícias são dadas em dropes para evitar o suposto tédio do leitor. A conseqüência é que não há reflexão, ninguém sabe de verdade o que acontece, quais são os interesses envolvidos em determinados fatos. Não queremos um conto de fadas – como foram as coberturas da Guerra do Golfo, do conflito em Kosovo ou do Plano Colômbia.

A ideologia dos meios
Os meios de comunicação e a cultura de massas fazem parte do aparato ideológico daglobalização.
Quando observamos o conteúdo do que é veiculado não restam dúvidas de que as coberturas não são apenas técnicas. Mas é preciso combater e resistir. Primeiro entendendo como funciona. Se não compreendemos o problema não podemos contestá-lo. É preciso saber por que e contra o que estamos protestando. Depois é preciso saber em que medida o protesto contém uma proposição, uma substituição de valores. Não me entenda mal: protestar é necessário, mas não se pode perder de vista o trabalho de compreender as fragilidades do sistema para melhor nos protegermos e propormos algo diferente.

A comunicação alternativa
Ela não precisa ser militante, mas não deve ser neutra. Há que perceber todo o poder da mídia e como isso afeta nossas vidas. Costumo dizer que precisamos reler 1984, de George Orwell. É atualíssimo. Basta transferir o discurso da propaganda política dos estados autoritários para o discurso comercial e publicitário de hoje. Ele é profundamente ideológico, impõe um modelo de vida e tolhe nossa liberdade de ser e de pensar.

A técnica
Acredito que a técnica é super importante. Mesmo que você tenha informações quentíssimas, denúncias ou grandes reportagens, é preciso saber passá-las ao leitor. Quem não enxerga isso corre o risco de ter uma atitude arrogante, de dono da verdade. Mas dominar as técnicas e fazer reflexões sérias, baseadas em fatos, exige um grau de formação e informação acima da média. É por isso que o ofício do jornalista está desaparecendo.

Sem jornalistas
Os grandes grupos não precisam mais dos jornalistas. Para informar, investigar, fazer reportagens sérias e reflexivas, eles são necessários. Para fazer espetáculo, não. Um bom jornalista funciona como um filtro, ele faz um verdadeiro trabalho de reflexão sobre o que vê. Mas hoje só se valoriza a espetacularização.

Jornalismo fábrica de sapatos
O que está em jogo é a criatividade nacional, a cultura de cada país. Dar-se conta disso é crucial. Os grandes editores trabalham única e exclusivamente sob o princípio da rentabilidade. Não há nenhuma novidade nisso, mas antes existiam mais pessoas ligadas à cultura. Os jornais eram dirigidos por jornalistas. Hoje está mudando. A maioria dos jornais e revistas é dirigida por managers, que saem de escolas de economia e administração de empresas. Então é claro que eles consideram que a rentabilidade de um jornal deve ser a mesma de uma fábrica de sapatos.

O espaço da publicidade
Fico surpreso em ver como a publicidade invadiu os espaços públicos. É uma constatação que qualquer um pode fazer. Mas podemos fazer reflexões sobre a invasão do espaço privado também. Hoje as marcas estão mescladas de forma absurda em nosso cotidiano. Existe uma vontade de ostentar marcas como se fossem uma tatuagem que nos dá identidade. A publicidade não vende apenas produtos, mas também valores. Se você usa um produto Nike, está identificado com um “estilo de vida” Nike. Mais que um produto é uma personalidade. As pessoas precisam treinar para perceber e resistir a esse tipo de propaganda silenciosa.

O que o cérebro consome
Estamos todos muito preocupados com a contaminação do meio ambiente, dos alimentos, do ar e da água. Mas temos que nos preocupar não só com nosso estômago, mas também com a contaminação do que consome o nosso cérebro. A informação jornalística misturou-se completamente com a comunicação institucional. Muitas vezes o leitor normal não sabe distinguir o que é informação plantada, de interesse de uma empresa, e o que é informação apurada, de interesse público.

Interesses e monopólios
Os meios de comunicação de massa não têm mais o monopólio da informação. Tiveram por todo o século, mas agora todos informam. Qualquer um pode ter um site na Internet e comunicar-se com o planeta gratuitamente. Governos e empresas mantêm redação, profissionais pagos para gerar suas notícias. Há um lado interessante, mas a partir do momento em que há demasiada comunicação, existe também muita contaminação, muitas mentiras, muitos interesses.



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