Entre o Céu e a Terra

Ao dividir o mundo em sagrado e profano, as principais religiões diminuem sua capacidade orientadora e estimulam a cultura do medo, abrindo brechas para a justificação de atos bárbaros Por Marco...

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Ao dividir o mundo em sagrado e profano, as principais religiões diminuem sua capacidade orientadora e estimulam a cultura do medo, abrindo brechas para a justificação de atos bárbaros

Por Marco Frenette

 A imensa vala coberta de metais e carnes carbonizadas no centro de Manhattan ressuscitou, entre tantas questões, a crítica das religiões, lembrando que Deus é um ser discutível, assim como são discutíveis seus seguidores. Para a sorte do debate democrático, alguns tiveram coragem de se insurgir contra uma timidez politicamente correta que ameaçava manter fora da discussão as fabulações religiosas.

Dessa pequena safra libertária destaca-se o belo artigo intitulado O Fator Deus, de José Saramago. “Deus não existe, não existiu e não existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações de seu poder e da sua glória.” O escritor português acusa a maioria dos crentes de se recusar a admitir o óbvio: as religiões nunca serviram para congraçar os homens, mas sim para lavar a terra de sangue e sofrimento, sendo a destruição das torres gêmeas mais um capítulo dessa tenebrosa e longa história. Ao falar da intolerância dos crentes diante “daqueles para quem Deus não é nada mais que um nome”, ele acaba tocando no ponto nevrálgico das religiões: elas já trazem o germe da intolerância em seus próprios ensinamentos.

Três das mais destacadas religiões do planeta – o cristianismo, com sua Bíblia e 1,9 bilhão de seguidores; o islamismo, com seu Alcorão e 1,3 bilhão de fiéis; e o judaísmo, com sua Torá e seus 13 milhões de eleitos -, além de se assemelharem pela crença num Deus único, têm em comum histórias em que o divino se manifesta através da cólera e da vingança, usando o extermínio e o castigo para fazer valer sua vontade. No cristianismo e no judaísmo são inúmeras as situações nas quais o mundo é melhorado através do assassinato, como no mito do Dilúvio de Noé, quando Deus se arrepende da sua má obra e promove um genocídio pela água. No Alcorão, os ensinamentos piedosos também têm sua hora de recreio. Um trecho citado recorrentemente pela mídia prega o seguinte: “Matai os idólatras onde quer que os encontrei, e capturai-os, e cercai-os e usai de emboscadas contra eles”.

Na defesa de palavras tão comprometedoras, geralmente se argumenta que tudo é “questão de interpretação”. Seja como for, a questão que surge é a de como esses textos podem realmente colaborar para a evolução da espécie humana, posto que trazem tanto exortações de paz quanto justificativas para a morte e a perseguição. Qual seria a utilidade prática, por exemplo, de um código civil que fosse tão contraditório a ponto de justificar as ações mais conflitantes possíveis? É uma questão que não tem a ver com incentivo à intolerância religiosa, mas com um debate sobre as bases capengas sobre as quais se assenta a civilização humana. Livros contraditórios, a despeito de serem preciosidades históricas e verdadeiras obras poéticas, não deveriam ser tomados por livros com força de lei, como ocorre em países de governos islâmicos.

O historiador inglês Paul Johnson costuma afirmar que o fundamentalismo não é um traço acidental do Islã, mas parte de sua essência. O autor dos clássicos História dos Judeus e História do Cristianismo afirma que a expressão “fundamentalismo islâmico” é um pleonasmo, pois todo o Islã seria “fundamentalista em sua essência”, não havendo nada de moderado – em termos de religião comparada – em sua interpretação de mundo, justamente por se basear na crença de que “toda a palavra no Alcorão é verdadeira e imutável”. Caso clássico disso foi o fato de um líder religioso do Irã decretar uma sentença de morte contra o autor de Versos Satânicos, livro considerado ofensivo ao Islã. O assustador é que aiatolá Khomeini, ao condenar à morte Salman Rushdie, não estava fazendo uma “leitura enviesada” do Alcorão, mas apenas aplicando o que está na sura 9, versículo 5 do livro revelado pelo profeta Maomé: “Matai os idólatras onde quer que os encontrei…”

Mas Johnson, bom católico que é, ao falar da obtusidade do Islã não a compara com coisas como a Inquisição, que espalhou o terror pelo Velho e Novo Mundo. A lógica que norteou o Santo Ofício – e outras atividades como as Cruzadas – é a mesma que norteia o islamismo: punir, muitas vezes com tortura e morte, quem atentar contra a fé. Já o jornalista e escritor Christopher Hitchens, afirmou que o fanatismo religioso muçulmano, tal qual praticado por corjas como a de Bin Laden, “envenena tudo o que toca”. Mas, talvez, seja mais correto afirmar que o envenenamento do espírito e intelecto humanos vem de uma interpretação do mundo como uma eterna luta entre o bem e o mal, algo que passa pelo islamismo, mas o transcende.

Bem antes do imperialismo americano e das crises do Oriente Médio, o homem já adquirira este péssimo hábito de dividir o mundo entre o bem e o mal para criar religiões. No século VI a.C., por exemplo, o sábio persa Zoroastro fez essa divisão, a qual ficaria conhecida mais tarde como maniqueísmo. Mas seriam as grandes religiões monoteístas que levariam a divisão às últimas conseqüências, possibilitando um estancamento dos nossos atos e da vida nessas duas categorias, criando, assim, as bases mentais necessárias para futuras discriminações. Pois como valorizar sinceramente o outro se ele não crê em meu Deus, que é o Senhor dos Céus e da Terra? Essa recusa do outro tira-o da circunferência sagrada em que vivo e coloca-o no terreno do profano, espaço que minha religião reserva ao mal. E o mal, todos sabemos, é para ser combatido. Qualquer um que violenta o mundo dividindo-o em sagrado e profano trabalha contra sua espécie.

Nesse contexto, a famosa sentença do escritor russo Dostoiévsky – que em seu artigo Saramago equivoca-se ao atribuir ao pensador alemão Nietzsche -, “Se Deus não existe, tudo é permitido”, sofre uma inversão à luz da história humana e do raciocínio lógico. É justamente porque Deus existe que tudo é permitido, pois suas leis e sua vontade estão em textos que cada um entende e interpreta à sua maneira. E, a rigor, bastaria um único ato de ódio ou vingança perpetrado por Deus em qualquer livro sagrado para justificar a violência por parte de seus seguidores.

Tal qual o terrorismo, que se tornou um pesadelo para o mundo civilizado, as grandes religiões monoteístas têm como um de seus principais pilares um dos sentimentos mais fortes e ancestrais do ser humano: o medo. Noutras palavras, o receio de ser punido sem clemência por seus atos e crenças são coisas essenciais tanto na lógica terrorista quanto na das grandes religiões, onde Deus, com a aprovação de seus fiéis, extermina multidões de infiéis, para livrar a terra dos ímpios e iniciar uma nova era, ou, no mínimo, condena os pecadores à infelicidade. Nesse sentido, Deus e terrorismo são as duas faces de uma mesma moeda, e é aterrador o fato de a espécie humana buscar sua razão de ser nessas lógicas que cultivam o pavor, incentivando uma vida sob o domínio do medo. Essa é uma questão fundamental para o avanço da humanidade, ainda hoje engessada por preconceitos religiosos que se imiscuem perigosamente com política.

O argumento de que todas as religiões têm representantes honestos e de boa fé, sinceramente preocupados com o bem-estar do próximo – a exemplo de personalidades admiráveis como Dom Paulo Evaristo Arns e Henry Sobel, para ficar apenas em nomes locais – não faz desaparecer o fato de que fundamentalistas de todo o tipo também encontram respaldo nas páginas sagradas para fazer o que fazem. Uma opção espiritual aos caminhos tortuosos oferecidos pela onipotência divina – caminho onde só os mais esclarecidos conseguem trilhar sem cair nas armadilhas do preconceito ou da intolerância – pode ser um sentimento secularizado de respeito à vida e ao próximo, que não precise passar pela palavra de um Deus temperamental, contentando-se com um humanismo racional e terreno. Esse combate sem Deus, e sem cores ideológicas, também é um bom combate.



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