Estação moderna e engajada na música pop

Globalização, dolarização das economias latino-americanas, Chiapas, desigualdades sociais, reforma agrária. Um discurso porrada e antipanfletário. Manu Chao bota pra quebrar sem sisudez e com muita ginga Por Carlos Eduardo Oliveira  ...

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Globalização, dolarização das economias latino-americanas, Chiapas, desigualdades sociais, reforma agrária. Um discurso porrada e antipanfletário. Manu Chao bota pra quebrar sem sisudez e com muita ginga

Por Carlos Eduardo Oliveira

 

A carteira de identidade e o passaporte atestam, ele é francês. Mas Manu Chao acumula tanta milhagem planeta afora que o rótulo “cidadão do mundo” lhe cai feito luva. Ok., Ricky Martin, Jon Bon Jovi, Arnaldo “concretista” Antunes e toneladas de outros músicos também têm milhares de milhas. A diferença é que, com Manu Chao, por mais déjà-vu que a expressão soe, poucas vezes o pop sincretizou o moderno e o “engajado” com resultados tão criativamente surpreendentes. O canhão e a flor, juntos, proporcionaram ao franco-basco-galego unânime reputação mundial de vanguarda musical em que um caliente coquetel sonoro movido a mariachi mexicano, salsa cubana, flamenco, reggae, pop eletrificado e folk rock abre caminho para agudas preocupações político-sociais destinadas a romper o torpor das audiências massificadas. “É muito fácil chegar numa platéia e mandar um �Viva Chiapas� para levantar o ânimo das pessoas. Isso é moleza. Mas tem de haver sintonia pessoal com o que se diz, não?”, afirma Mano.

Bem trabalhados, ácidos, anarquistas por excelência, mas sobretudo bem-humorados, seus escritos demonstram preocupações com o mundo moderno, a globalização, a dolarização das economias latino-americanas, as desigualdades sociais, a fragmentação ideológico/religiosa, o avanço da extrema-direita na Europa, ao mesmo tempo em que defendem a necessidade da reforma agrária nos países economicamente desfavorecidos e relativa permissividade em relação às drogas (mas não aos traficantes). Contundente e ao mesmo tempo antipanfletária, sua música dista anos-luz de discursos esquerdo-ginasianos de grupos como o yankee Rage Against the Machine ou da virulenta (e hermética) sisudez que a parte séria do rap paulista costuma metralhar em suas letras, só para ficar em dois paralelos. “Ele é absurdamente nômade e criativo, grava em várias partes do mundo e isso é sensacional. Agora, o mais interessante é seu bom humor, que o distingue do mofado que a palavra “engajado” traz, aquela coisa vandrélica de ranço, de autopiedade. Seu humor e espírito crítico sublimam qualquer coisa”, acredita Lobão, Ph.D. em independência fonográfica no país.

Aos 40 anos, esse filho de espanhóis, que até os 25 morou em Paris e atualmente passa boa parte do tempo em Barcelona, não esconde de ninguém que prefere mesmo o clima e as influências latinas para tecer seu som. As andanças em dez anos sem residência fixa incluem Tóquio e a Terra do Fogo, uma travessia do Atlântico Sul num navio caindo aos pedaços (e fazendo shows a cada porto), a Colômbia, a bordo de um trem de terceira classe, o Senegal, a Cidade do México, improviso com repentistas cearenses e uma parada pelo (ex) bucólico bairro de Santa Tereza, reduto artístico/alternativo carioca onde morou. Não são apenas os eflúvios musicais da estrada que alimentam uma das mais ousadas e instigantes sonoridades do pop (etnopop?) atual – o vulcão social em eterna erupção chamado América Latina fornece lenha mais que adequada para um trabalho na mesma proporção transgressor, acessível e extremamente palatável aos sentidos.

Isso já era patente na obra de seu ex-grupo, o igualmente cultuado Mano Negra, em que era o principal letrista e com o qual excursionou pelo Brasil, na primeira vez, há quase dez anos, durante a lendária Eco 92. Com o fim do grupo, pensou em dedicar-se apenas a projetos como uma improvável trupe de vaudeville pelo interior da África (o que de fato aconteceu). Mas com o sucesso de Clandestino (1998), seu primeiro álbum solo, cujas vendas ultrapassaram 2 milhões de cópias – feito notável para um disco alternativo -, virou cult na Europa e protagonizou turnês com ingressos invariavelmente esgotados, como se viu em São Paulo e Rio de Janeiro durante o Free Jazz Festival de 2000. Por aqui, arregimentou fãs de carteirinha no meio musical – a cantora gaúcha Adriana Calcanhoto, o grupo paulista Tijuana e o pernambucano Mundo Livre S.A. Esses são alguns dos que incluíram releituras de Chao em trabalhos recentes. O Skank já havia gravado com ele em 1996, no CD Samba Poconé. “Ele e o Mano Negra foram das maiores referências para nós. Abrimos os shows deles no Brasil em 1992, antes de serem conhecidos. Tínhamos em comum o interesse em misturar sons de diferentes etnias e o fato de gostar muito de futebol”, sentencia Samuel Rosa, vocalista e guitarrista da banda. “A partir da descoberta de sua sonoridade, os discos de pop latino passaram a ocupar espaços na minha estante antes reservados apenas a bandas de rock americanas e inglesas”.

Completamente despreocupado em relação à comercialização de sua música, Chao atingiu audacioso nível de independência artística – uma espécie de nirvana fonográfico, status almejado por não poucos criadores, impotentes em romper com as faustianas relações com gravadoras. Faz apenas o que tem vontade, o que não deve ser confundido com rebeldia de butique. “Já ganhei dinheiro suficiente com o Mano Negra. Se chegar a depender de marketing para vender um disco vou procurar outra coisa para fazer, tenho arquivados milhares de trabalhos artísticos não-musicais”, diz. Entre esses, uma nova empreitada mambembe pela África e projetos em Chiapas, por exemplo. “(O Subcomandante) Marcos é uma das luzes mais interessantes e inspiradoras que surgiram nos últimos tempos. Desde o princípio estou bem por dentro e interessado no que ocorre em Chiapas, que pra mim até hoje representa uma mensagem nobre, que não se distorceu. Pouco a pouco as coisas estão mudando, também estão havendo levantes indígenas no Equador e na Bolívia. Isso não é um ato político, mas popular, de gente que vive em condições de vida inaceitáveis”, aponta.

Não por coincidência, seu novo trabalho, lançado no primeiro semestre de 2001, leva o titulo antiniilista Proxima Estacion…Esperanza. De novo, unanimidade de crítica: “O Manu Chao provou mais uma vez ser um artista singularíssimo nos dias de hoje. Mantém um espírito verdadeiramente independente, mesmo gravando por uma multinacional. Musicalmente não é nenhum gênio, mas apresenta um trabalho original, despido de preconceitos, aberto a influências. E ao vivo transmite uma comunicação e uma alegria quase baianas, seus shows são pura festa”, avalia o jornalista Pedro So, diretor de conteúdo do portal Usina do Som. Por falar em shows, se vão ou não acontecer nem ele, nem sua gravadora, impotente em localizá-lo para entrevistas (“Só Deus sabe onde achar esse cara”, justifica a assessora de imprensa), sabem. Mas a despeito das novas boas críticas, e de novamente ser entronizado no papel de arauto terceiro-mundista, o músico desconversa. “Acho que a arte pertence a qualquer um. Não se pode impor a um artista qualquer regra. Se alguém quer fazer política com sua arte, como eu faço, tudo bem! Não quer ou não necessita fazer, o.k., tem que ser respeitado da mesma forma. Não se deve obrigar nada a ninguém na arte, ela pertence a qualquer um”, proclama, para em seguida mostrar a alma: “Minha música não é mais que um pequeno retrato do que as pessoas me ensinam, do que aprendi nos lugares por onde passei. Sempre tento o máximo possível reproduzir musicalmente a informação que me deram para em seguida passá-la adiante”. Alguém já disse que artistas que realmente fazem jus ao predicado precisam ir onde o povo está…



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