Meu Deus…

Crônica de José Roberto Torero

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Crônica de José Roberto Torero

Por José Roberto Torero

Eram 5h da tarde e, como fazem todos os dias desde o início dos tempos, os deuses juntaram-se numa nuvem para tomar seu chá (ou, no caso de Odin, cerveja). Os anjos voavam para lá e para cá servindo ambrosia e os querubins faziam o som ambiente, tocando harpa (Pan, de vez em quando, acompanhava no flautim).

Tudo ia bem e a reunião seguia animada: Zeus fazia suas imitações e Baco, já um pouco bêbado, imitava o Cauby. Porém, num dado momento, Deus falou para Alá (que é um sujeito parecido com Deus, só que com turbante):

– Os seus rapazes estragaram uma das minhas cidades por estes dias.
– Sua não, que os motoristas de táxi são meus, interrompeu Vishnu (que é parecido com Deus, só que mais escuro).
– Alá sabe o que eu quero dizer, falou Deus balançando o gigantesco
indicador.
– Acidentes acontecem…, respondeu Alá.
– Acidente?
– Está bem, erros.
– Pois sua turma comete erros demais!
– E vocês? Pensa que eu já esqueci aquela história de Cruzadas?
– Você sempre volta para esse assunto…
– Até hoje não escutei seu pedido de desculpas.
– Os rapazes entenderam errado as minhas palavras.
– Digo o mesmo.
– Eles nos levam muito a sério, disse Javé (que é muito parecido com Deus, só que com um nariz maior) interrompendo a conversa dos dois. – Falando nisso, vocês conhecem aquela do judeu, do português e do papagaio vesgo?
– Não é hora para anedotas, falou Alá.
– Tudo bem, vou contar essa para o Quetzacóatl, despediu-se Javé resmungando.
– Onde estávamos?, perguntou Deus.
– Em todo lugar, respondeu Alá.
– Não, em relação à conversa.
– Ah, sim. Falávamos de intolerância e vingança.
– Pois é, o pessoal lá de baixo não consegue conviver direito.
– E nós aqui em cima nos damos tão bem… Temos um entendimento divino. É como se fôssemos uma família.
– Talvez mais que isso.
– Como assim?, perguntou Alá.
– Sabe o que eu penso?
– Como é que eu vou saber? Você não diz que é onisciente?!
– Penso que todos nós somos um.
– Já não basta você querer ser três, agora quer ser todos.
– É sério. Acho que eu, você, Javé…, e mesmo os chefes dos politeístas, como Zeus e Oxalá, somos todos um só, mas vistos de maneiras diferentes. Interpretações culturais distintas de um mesmo ser.
– Já que estamos em clima de confissão, vou lhe dizer uma coisa ainda pior.
– É algo sobre Afrodite?
– Não, sobre os deuses em geral.
– Pena, pena…
– Desconfio que nós nem existimos. Somos apenas símbolos, tentativas do homem explicar sua origem, de encontrar um sentido para sua vida, um consolo para sua morte.
– Mas nós não estamos conversando agora?, observou Deus enquanto cofiava sua vasta barba.
– Vai saber… Podemos apenas ser personagens de um escritor. E ruim.
– Se isso for verdade, o homem está entregue a si mesmo e nós não temos nada a ver com a história.
– Nada. A responsabilidade por todas a guerras santas, por todas as inquisições, por todos os assassinatos religiosos é só deles.
– Só deles?
– Só.
– Meu Deus…
– Está bem, erros.
– Pois sua turma comete erros demais!
– E vocês? Pensa que eu já esqueci aquela história de Cruzadas?
– Você sempre volta para esse assunto…
– Até hoje não escutei seu pedido de desculpas.
– Os rapazes entenderam errado as minhas palavras.
– Digo o mesmo.
– Eles nos levam muito a sério, disse Javé (que é muito parecido com Deus, só que com um nariz maior) interrompendo a conversa dos dois. – Falando nisso, vocês conhecem aquela do judeu, do português e do papagaio vesgo?
– Não é hora para anedotas, falou Alá.
– Tudo bem, vou contar essa para o Quetzacóatl, despediu-se Javé resmungando.
– Onde estávamos?, perguntou Deus.
– Em todo lugar, respondeu Alá.
– Não, em relação à conversa.
– Ah, sim. Falávamos de intolerância e vingança.
– Pois é, o pessoal lá de baixo não consegue conviver direito.
– E nós aqui em cima nos damos tão bem… Temos um entendimento divino. É como se fôssemos uma família.
– Talvez mais que isso.
– Como assim?, perguntou Alá.
– Sabe o que eu penso?
– Como é que eu vou saber? Você não diz que é onisciente?!
– Penso que todos nós somos um.
– Já não basta você querer ser três, agora quer ser todos.
– É sério. Acho que eu, você, Javé…, e mesmo os chefes dos politeístas, como Zeus e Oxalá, somos todos um só, mas vistos de maneiras diferentes. Interpretações culturais distintas de um mesmo ser.
– Já que estamos em clima de confissão, vou lhe dizer uma coisa ainda pior.
– É algo sobre Afrodite?
– Não, sobre os deuses em geral.
– Pena, pena…
– Desconfio que nós nem existimos. Somos apenas símbolos, tentativas do homem explicar sua origem, de encontrar um sentido para sua vida, um consolo para sua morte.
– Mas nós não estamos conversando agora?, observou Deus enquanto cofiava sua vasta barba.
– Vai saber… Podemos apenas ser personagens de um escritor. E ruim.
– Se isso for verdade, o homem está entregue a si mesmo e nós não temos nada a ver com a história.
– Nada. A responsabilidade por todas a guerras santas, por todas as inquisições, por todos os assassinatos religiosos é só deles.
– Só deles?
– Só.
– Meu Deus…



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