O Enigma venezuelano

Desde 1958 se alternam no poder do país a Ação Democrática (AD) e um partido de origem clerical, o democrata-cristão Copei. Foi a mais longa "continuidade democrática" do continente. Até que apareceu Hugo Chavez

407 0

Desde 1958 se alternam no poder do país a Ação Democrática (AD) e um partido de origem clerical, o democrata-cristão Copei. Foi a mais longa “continuidade democrática” do continente. Até que apareceu Hugo Chavez

Por Newton Carlos

Pequena Veneza, ou Venezuela. Esse foi o nome dado à região do lago Maracaibo pelos primeiros exploradores vindos de mares distantes. Seria um dos tesouros do universo, com montanhas de ouro e prata. A fantasia de um Eldorado. Na primeira fase colonial a riqueza foi a cana de açúcar. O petróleo tornou-se produto em 1914 e em 1917 constou da pauta da balança comercial. Mas o café e o cacau continuaram na cabeça. Foi em 1922 que os jornais venezuelanos anunciaram “verdadeira explosão de petróleo”, que viria a financiar esperanças… e perversidades na política.

Com a proposta de mudar os rumos surgiu na década de 40 a Ação Democrática (AD), partido de centro-esquerda. Mas continuou prevalecendo a lógica e o poder dos militares corruptos, latifundiários obstinados e grandes negociantes. Por meio deles o petróleo financiou a ditadura do general Perez Jimenez, afinal derrubado em 1958. Desde então se alternaram no poder a AD e um partido de origem clerical, o democrata-cristão Copei. Foi a mais longa “continuidade democrática” do continente. Até que apareceu Hugo Chavez.

Para entender o fenômeno Chavez é preciso saber o que foi essa “continuidade”. Entre 1976 e 1995, por exemplo, as vendas de petróleo renderam ao Estado 270 bilhões de dólares. O Plano Marshall, que ajudou a Europa a recuperar-se dos estragos da Segunda Guerra, contou com 13 bilhões de dólares. Ou seja, a Venezuela teve à disposição algo equivalente a vinte planos Marshall. Mesmo com essa cifra astronômica, pouco ou nada se fez em matéria de infra-estrutura e combate às desigualdades sociais. Hoje, 71% vivem na pobreza, o desemprego atinge 21% da população ativa e 48% se refugiam na “informalidade”. Além disso, 2 milhões de crianças estão na miséria e em Caracas, a capital, a massa de pessoas amontoadas em favelas ao seu redor é maior (60%) que a população da cidade propriamente dita. A criminalidade tem formas de flagelo, a violência urbana é a maior do mundo.

A Venezuela chegou ao topo de sua riqueza em 1976, com o choque dos preços do petróleo. O presidente da época, Carlos Andrés Perez, da AD, nacionalizou a indústria petrolífera e criou a “Petróleos de Venezuela Sociedad Anonima”, que se tornou, com mais de 3 milhões de barris diários, a segunda maior produtora mundial. Mas pouco ou nada foi investido em industrialização. O Estado preferiu assegurar a passividade do cidadão por meio de uma economia assistencial. Os venezuelanos foram se tornando cada vez mais dependentes do Estado, enquanto os governos, da AD ou do Copei, serviam-se da imensa riqueza petrolífera para corromper, criando sistemas de subsídios, isenções fiscais, privilégios etc. Somas gigantescas foram dilapidadas na megalomania dos grandes projetos. O que fez com que a dívida externa em 1997 atingisse o equivalente a 60% do produto interno bruto.

Com o monopólio AD-Copei já em crise, em 1993 ganhou um “independente”, Rafael Caldera, um dos fundadores do Copei, com o qual rompera. Ele significou uma primeira ruptura, com o ingresso no governo de um partido de esquerda, o Movimento ao Socialismo. Caldera até tentou distanciar-se do FMI, mas não conseguiu. Como ministro da Fazenda foi empossado um ex-guerrilheiro, Teodoro Petkoff, que administrou o “ajuste” negociado em 1996.

Num gesto considerado ousado, o presidente octogenário anistiou o ex-coronel Hugo Chavez, que em 1992 havia tentado um golpe à frente de onze batalhões e com o apoio de estudantes de esquerda da Universidade de Valência. Esse coronel criticava a corrupção geral, denunciava as desigualdades sociais e se insurgia contra a “ditadura dos mercados financeiros”. Da cadeia, onde Chavez ficou dois anos, à presidência e à avalanche de votos para uma Constituinte com a tarefa de “refundar a República” foi mera questão de tempo. “A velha política e os velhos partidos estão mortos, só falta sepultá-los”, garantia o coronel.

Em dezembro de 1998, Chavez triunfou nas urnas com 56,2%, abrindo a “refundação”. Assembléia Constituinte, nova Constituição, de cunho “bolivariano”, e confirmação do mandato, agora por seis anos, com direito a reeleição, a 30 de julho de 2000. Mais votos, 56,98%, tomados como reiteração da confiança popular. A primeira ruptura política na história da Venezuela realizada democraticamente e sem violência. Mas com as primeiras rachaduras. Foi oponente de Chavez um coronel companheiro de 1992, Árias Cardenas. O MVR de Chavez, com catorze governadores de Estados e maioria na nova Assembléia Nacional, foi acusado por aliados de comportamento hegemônico e de não deixar espaço para grupos políticos não-tradicionais.

Chavez como espécie de entidade “dual” aparece num texto de Gabriel Garcia Marquez. “É ao mesmo tempo esquerda e direita, nele coexistem de modo constante tensões idealísticas e o mais puro pragmatismo”, afirma o ex-guerrilheiro, ex-ministro da Fazenda e hoje eminente jornalista, Teodoro Petkoff, criador do “Movimiento hacia el socialismo”. Os “fidelíssimos” da tropa de choque chavista são egressos da velha guarda de esquerda dos anos 60, como o ex-dirigente comunista Luiz Miquilena, presidente da Assembléia Nacional. Também o ministro da Defesa, José Vicente Rangeal, e o ex-guerrilheiro Ali Rodriguez, ministro do Petróleo.

Chavez aumentou os salários em 20%, dentro de sua promessa de colocar em prática um modelo “humanista, autogerido e competitivo, no qual o principal investimento será em educação, no capital humano”. Mas a recessão é de ferro e dois graves problemas persistem: a criminalidade e o alto desemprego. Até aliados no Pólo Patriótico (que lhe dá sustentação política) têm votado com a oposição na Assembléia Nacional e isso tem levado Chavez a ameaçar assumir poderes especiais: “Estou convencido de que, se falhar essa tentativa de revolução pacífica, uma revolução armada virá algum dia, porque seria a única saída para o povo venezuelano”. Opositores encaram isso como vinda à tona de impulsos autoritários, agravados pela aparente incapacidade em resolver problemas. Segundo Chavez, “extremamente complexos”.



No artigo

x