Os cachorros estão soltos

Com a revogação da lei que proibia os agentes da CIA de atentar contra as vidas de personalidades estrangeiras o caminho fica ainda mais livre para ações arbitrárias em nome da democracia Por Newton Carlos  ...

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Com a revogação da lei que proibia os agentes da CIA de atentar contra as vidas de personalidades estrangeiras o caminho fica ainda mais livre para ações arbitrárias em nome da democracia

Por Newton Carlos

 

A 20 de outubro de 1970 o carro do general René Schneider, comandante do exército chileno, foi interceptado por um grupo armado que pretendia seqüestrá-lo. Schneider reagiu e acabou assassinado. A ação era parte de empreendimento maior. Conspiradores nativos, insuflados e equipados pela CIA, o serviço de inteligência dos Estados Unidos, procuravam desestabilizar a eleição de Salvador Allende. O tiro saiu pela culatra. O sacrifício de Schneider só fortaleceu, entre os militares, o legalismo de seu chefe. O Congresso confirmou Allende por ampla maioria. Traumatizados com a violência, mesmo políticos conservadores trataram de distanciar-se das células entregues a um terrorismo até então incomum no Chile, já na mira das armadilhas da Guerra Fria.

A CIA, sucessora do OOS, centro de espionagem na Segunda Guerra, surgiu em 1947. Desde o seu nascimento enfrentou uma dúvida. As operações encobertas, ou sujas, como a no Chile, podem chegar a assassinatos de personalidades estrangeiras? A primeira executada em território latino-americano consumiu dois anos, de 1952 a 1954. Destruiu à força, por meio de exército de mercenários contratados pela CIA, raro período de constitucionalidade na Guatemala. Livro escrito por Gerald Haines, em 1997, comprova que a CIA chegou a propor o assassinato de dirigentes guatemaltecos eleitos. Não foi necessário. Desembarque anfíbio, com cobertura aérea, desalojou o regime que contrariava interesses do gigante bananeiro United Fruit, da qual a Guatemala era colônia, segundo Theodore Drapper.

Depois da queda do ditador Ubico, em 1944, presidentes eleitos e embalados no antinazismo se imaginaram autorizados a “modernizar” a Guatemala. Fazer, por exemplo, uma reforma agrária. A United Fruit queixou-se em Washington e a Casa Branca colocou a CIA em campo. O próprio presidente norte-americano Dwight Eisenhower confessou-o em suas memórias. A invasão da Guatemala provocou um trauma continental. Documentos a respeito ficaram lacrados até 1997. Mas cinco anos antes, temendo as repercussões da liberação inevitável, a CIA contratou um Ph.D., Nicholas Cullalher, abriu arquivos escolhidos a dedo e mandou que escrevesse a versão oficial, intitulada Operation Presucess. Cullather rebate críticas com o seguinte argumento: a ação deve ser vista “como parte de um padrão global de atividades comunistas”, não num contexto guatemalteco.

O general Schneider e o próprio Allende, três anos depois, foram vítimas da continuidade desse “presucess”. Com um aditivo. A CIA tomou parte num assassinato. A caçada a Fidel Castro se fazia na penumbra e assassinatos anteriores permaneciam encobertos. Os assassinos de Schneider, todo mundo ficou sabendo, receberam armas da CIA. Jornais americanos contaram isso. O Congresso americano acabou proibindo por lei atentados contra as vidas de personalidades estrangeiras. Isso foi em 1970.

No livro A Bíblia Envenenada, saga africana da família de um missionário americano, a autora mostra como Patrice Lumumba, eleito o primeiro governante do Congo libertado, caminhava pelas aldeias do seu país e era saudado como redentor. Mas o nacionalismo de Lumumba era rastreado pela CIA.

Ludo de Witte, historiador belga, revela agora como Estados Unidos, Bélgica e Inglaterra (o império falido que tornou-se sócio menor dos americanos) conspiraram para acabar com Lumumba. O Congo havia conseguido a independência da Bélgica em 1960. Em setembro do mesmo ano Eisenhower disse ao ministro do Exterior inglês, Lord Home, que gostaria de ver Lumumba “cair num rio cheio de crocodilos”. Em 1961, aconteceu a execução brutal, com recheios de desumanidades. Os tiros de misericórdia foram dados por um pelotão de fuzilamento comandado por oficiais belgas. São histórias que saem aos poucos de arquivos selados.

Embora eleito segundo padrões ocidentais, Lumumba foi carimbado e assassinado como ameaça aos interesses do Ocidente. Gabriel Kolko, em alentado estudo, comprova que os Estados Unidos usaram seu arsenal de anti-sovietismos para minar ou destruir movimentos nacionais do Terceiro Mundo. É preciso “reconfigurar” a Guerra Fria e incluir entre seus componentes a CIA no encalço de nacionalismos nem sempre simpáticos a Moscou.

Em seus oito anos de Casa Branca Eisenhower, além de dar “cobertura” ao golpe da Guatemala e de assassinar Lumumba, também patrocinou o assassinato de Mossadegh, no Irã, em 1953. No país, agentes da CIA disfarçavam-se de “comunistas” e colocavam bombas em casas de personalidades islâmicas. A radiografia da operação, considerada modelo, está num dossiê publicado pelo New York Times. Era preciso destruir o primeiro-ministro Mossadegh. Ele havia nacionalizado o petróleo e poderia bandear-se para os russos, com presença secular no Irã. Hoje sabe-se que Mossadegh e os comunistas mal se falavam.

A invenção de comunistas não ocorreu só no Irã. O livro Bitter Fruit, ou fruta amarga, revela como eram montadas “manifestações comunistas” em frente a hotéis onde se hospedavam jornalistas estrangeiros convidados a constatar a “comunização” da Guatemala. Eisenhower formalizou a acusação de que o país centro-americano, com a raridade de um governo eleito democraticamente, tornara-se cabeça-de-ponte de Moscou. A OEA reuniu-se na Venezuela, sob a ditadura de Peréz Jimenez, com a única alternativa de engolir a versão americana.

Essa viagem ao tempo vale como lembrança. E como alerta. Até porque o Congresso americano acaba de revogar a lei aprovada após o assassinato do general René Schneider, que proibia atentados contra as vidas de personalidades estrangeiras. A justificativa é a luta contra o terrorismo. Soltos os cachorros das guerras sujas, segundo o Washington Post, com a liberdade de ação dada à CIA.



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