Outro mundo em Construção

O Fórum Social Mundial 2 tem por objetivo produzir novas propostas para que a globalização se dê de baixo para cima e tenha o ser humano como centro Por Anselmo Massad  ...

296 0

O Fórum Social Mundial 2 tem por objetivo produzir novas propostas para que a globalização se dê de baixo para cima e tenha o ser humano como centro

Por Anselmo Massad

 

Ao mesmo tempo que milhares de pessoas de todas as partes do mundo chegavam a Porto Alegre em 25 de janeiro do ano passado, milhares de outras espantavam-se. De um lado, porque a mídia comercial de todas as partes havia tratado a realização do evento com desdém e silêncio. De outro, porque alguns intelectuais comerciais fizeram acreditar que havia no mundo um pensamento único. E que a história havia acabado.
No FSM1 foram 16 mil pessoas, sendo 5 mil delegados, representando 900 organizações, de 117 países e 764 veículos de comunicação, boa parte independente. Mas, foi só o começo. Para o FSM2, de 31 de janeiro a 5 de fevereiro de 2002, espera-se mais. Em torno de 50 mil pessoas, sendo que se inscreveram 20 mil delegados – ainda que a capacidade prevista inicialmente fosse de 12 mil – de 3,5 mil organizações. E quantidade ainda maior de países e entidades. “Alguns países que estiveram pouco ou nada representados na edição de 2001 virão com grandes delegações”, garante Bernard Cassen, diretor-chefe do Le Monde Diplomatique, presidente da Attac (Associação pela Tributação das Transações Financeiras de Ajuda aos Cidadãos) e um dos idealizadores do Fórum.
Cassen prefere chamar a edição do Fórum do ano passado de “número zero” (expressão utilizada na imprensa para designar um número piloto, quase como um teste em menor escala para ver como saem as coisas). “Aquele Fórum foi um sucesso mesmo tendo sido organizado em tão pouco tempo”, orgulha-se.
Para Oded Grajew, o FSM2 será novamente marcante. “Da mesma forma que o primeiro serviu para romper com o pensamento único, o segundo terá de dar outro grande passo. Será o primeiro grande encontro social depois dos atentados terroristas de 11 de setembro”, lembrou na coletiva de lançamento da grade de conferências. Ele alerta que será a primeira grande manifestação contrária às idéias e aos princípios defendidos e executados pelos EUA e pelas transnacionais. “Após os atentados, está havendo uma tentativa de unir e ligar os movimentos de contestação aos terroristas. Como se houvesse apenas dois lados possíveis, estar a favor ou contra os EUA. Por isso, vamos afirmar outra posição, nem de um lado nem de outro. E sempre pela paz.” O movimento sindical terá representação significativa. A avaliação de Kjeld Jakobsen, secretário internacional da CUT, uma das entidades organizadoras, é que, dos participantes, metade represente entidades sindicais. Para ele “os setores conservadores do mundo todo se fortaleceram após os atentados e, por isso, é provável que a imprensa tente encontrar falhas no evento para minimizar sua importância.” Do ponto de vista organizativo, Jakobsen avalia que o encontro será fundamental para “criar uma aliança social global não só entre sindicatos, mas também com grupos pelos direitos das mulheres, ambientalistas, militantes dos direitos humanos”.
Antônio Martins, jornalista e membro da Attac-Brasil, destaca que o FSM2 deve ser mais propositivo que o primeiro. “Não se pode dizer por duas vezes que um outro mundo é possível. Da segunda, é preciso começar a construí-lo”, sustenta.
A Abong, Associação Brasileira de ONGs, aposta justamente na visibilidade que propostas e projetos terão no Fórum, já que essas organizações da sociedade civil são algumas das principais alternativas à lógica neoliberal. “As ONGs sempre se organizaram em redes internacionais”, relata Marcos José Pereira, assistente de diretoria da entidade. “Mas eram redes entre organizações que tinham o mesmo tipo de trabalho. A possibilidade de mostrar o trabalho para o mundo todo, para gente de todas as áreas, é muito rica e será muito bem aproveitada”, garante. Só em oficinas, cerca de 600 serão coordenadas por ONGs.

Como funciona o Fórum
Todas as atividades – conferências, debates, testemunhos e oficinas – são divididas em quatro eixos temáticos. A novidade deste ano é que as discussões já começaram e acontecem no sítio do evento, abertas a todos.
Nas 26 conferências deste ano, deverão estar alguns dos principais convidados. Por isso são as mais concorridas, ainda que o acesso seja restrito aos delegados e à imprensa.
Abertas a todos serão as 800 oficinas – organizadas por uma ou mais entidades sobre uma área específica -, os debates e testemunhos. Essas atividades guardam relatos de projetos já em prática e opinião de muita gente boa. Para delegados e oficineiros, as inscrições já se encerraram, mas ainda é possível participar como ouvinte ou voluntário. www.forumsocialmundial.org.br

Os direitos do Ser Humano
A questão perspassa quase todas as outras a serem debatidas no Fórum. A opinião é de Maria Luiza Mendonça, da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. Ela acredita que ao se discutirem questões econômicas acaba-se falando dos direitos humanos, porque são os primeiros a serem violados. “Quando se impede um governo de quebrar a patente de um medicamento ou de criar leis ambientais ou trabalhistas sob risco de ser processado, direitos como o da saúde já estão correndo o risco”, lembra. Além disso, durante o Fórum será lançado o Relatório de Direitos Humanos no Brasil 2001, incluindo uma versão em inglês.

Outra Justiça Diversas associações de magistrados de todo o país se organizaram para promover o primeiro Fórum Mundial de Juízes, também simultâneo ao FSM2. Haverá debatedores da Índia, França, Espanha, Guiné-Bissau e Argentina. O objetivo da organização é pensar formas de garantir o cumprimento dos direitos humanos e a independência do judiciário em todo o mundo.

Ari Casagrande, do Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo e presidente da Associação de Juízes pela Democracia – uma das entidades que organizam o evento -, explica que a integração do judiciário de todos os países é uma forma mais eficiente de construir um outro tipo de justiça.
www.ajuris.org.br/forummundialdejuizes.htm

Outra comunicação
Serão duas realizações no sentido de começar a construir um jornalismo independente. A primeira será a continuação da Ciranda da Informação Independente, que funcionou no FSM1. Trata-se de uma rede de jornalistas que cobrirá as centenas de atividades, entre debates, conferências e oficinas, sem falar dos eventos simultâneos. O princípio será o do Copyleft, idéia de Antonio Martins do sítio www.portoalegre2002.orge membro da Attac. Ele explica: “Tudo o que todos os jornalistas da Ciranda produzirem poderá ser republicado. Não haverá direitos autorais, mas, em contrapartida, todos os veículos que participarem poderão ter uma cobertura completa do evento.”

Além da Ciranda, haverá um Seminário sobre Comunicação que irá debater as possibilidades de construir um outro jornalismo. “Por três dias teremos discussões sobre a comunicação, das quais deverão sair propostas efetivas sobre o tema”, conta Bernard Cassen, do Le Monde Diplomatique, que organiza o seminário junto da agência IPS, entre outros.

Acampamento da Juventude
No ano passado, a praça da Harmonia, no centro de Porto Alegre, foi dividida por 3,5 mil pessoas, entre jovens e indígenas. para este ano, só de jovens são esperados 10 mil. A novidade do Acampamento Intercontinental da Juventude será uma programação específica.

Acontecerão atividades culturais, shows, oficinas e debates à parte do Fórum, ainda que com os mesmos objetivos. O que os organizadores querem é tratar de questões ligadas aos jovens, especialmente seu papel na construção de outro mundo.
www.juventudefsm.org.br

Tinha que ter pra criança
“Se estamos pensando em outro mundo para o futuro, as crianças não podem ficar de fora”, aponta Valéria Viana, coordenadora geral do Fórumzinho Social Mundial. Ela conta que o Fórumzinho deve ter 2 mil crianças participando de 320 oficinas, shows, apresentações teatrais e circenses entre outras atividades.

O evento será coordenado por um grupo de professores e educadores ligados à educação popular, não há uma entidade por trás, mas uma rede solidária para viabilizar o evento. A idéia do Fórumzinho partiu da observação de uma menina de 7 anos, que disse durante o FSM1: “Tinha que ter pra criança”.
www.forumzinho.palegre.com.br

Eles vão
São muitas as personalidades que já garantiram a ida a Porto Alegre.
Entre eles, José Saramago, Noam Chomsky e Naomi Klein, Boaventura dos Santos Souza (Portugal), sociólogo, fala sobre democracia participativa; Dita Sari (Indonésia), uma das mais importantes ativistas dos direitos humanos da Ásia; Eric Toussaint (Bélgica), diretor do Comitê pela Anulação da Dívida do Terceiro Mundo; Ignácio Ramonet (Francês), diretor do jornal Le Monde Diplomatique; Irène Fernandez (Malásia), engajada na luta das mulheres trabalhadoras e imigrantes de seu país; José Saramago (Portugal), escritor português, prêmio Nobel da literatura; Leonardo Boff (Brasil), teólogo e escritor; Naomi Klein (Canadá), jornalista conhecida pelo livro No Logo; Noam Chomsky (EUA), professor de lingüística do MIT, um dos mais importantes críticos do modelo e intervencionismo norte-americano no Terceiro Mundo; Pérez Esquivel (Argentina), prêmio Nobel da Paz de 1980; Rigoberta Menchu (Guatemala), Prêmio Nobel da Paz de 1992 pela sua luta em defesa dos direitos dos povos indígenas de seu país; Tariq Ali (Paquistão), editor do New Left Review e forte ativista pela democracia em seu país. Vandana Shiva (Índia), pesquisadora e ativista, atua na área da defesa dos recursos naturais e da biodiversidade, com destaque para a questão dos transgênicos.



No artigo

x