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O dia em que a terra parou - trechos selecionados sobre o atentado do dia 11 de setembro e suas conseqüências

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O dia em que a terra parou

Leia trechos selecionados sobre o atentado do dia 11 de setembro e suas conseqüências

Emir Sader, professor de sociologia da USP e da Uerj
“A superação da situação atual só será possível se desqualificarmos esses termos e recolocarmos a questão da violência, da guerra e do terrorismo no seus verdadeiros parâmetros. Trata-se de lutar contra a guerra, entendendo-a como o oposto da paz. Lutar contra todas as formas de violência, incluídos os terrorismos, religiosos ou de Estado.
Trata-se, portanto, em primeiro lugar, de lutar pela paz, desativando os múltiplos focos de guerras existentes no mundo, dentre os quais a Palestina, a Colômbia, o País Basco, Chiapas, a Irlanda do Norte e a Caxemira, entre outros.
Buscar termos reais de superação justa e duradoura dos conflitos, em que organismos internacionais como a ONU, o Fórum Social Mundial, organizações religiosas, sociais e culturais internacionais deveriam desempenhar um papel ativo central.”

Mohammed Abed Al Jabri, historiador e cientista político marroquino
“Há uma lógica paralela na qual os EUA têm insistido nas últimas semanas: a de que eles não se opõem ao mundo islâmico, mas apenas àqueles que cometeram os atentados. A meu ver é preciso contextualizar o início das represálias militares num contexto maior, em que o mundo islâmico procura há cinqüenta anos ser dono de sua própria história, que foi apropriada pelo Ocidente no quadro do neocolonialismo.
No Paquistão, no Afeganistão e em qualquer outro ponto do mundo islâmico é óbvio o sentimento de indignação em se tratando da ocorrência das vítimas civis. Também foram vítimas civis aquelas que pereceram nos atentados de 11 de setembro. Seria ilógico e amoral aceitarmos um jogo de compensação, pelo qual as vítimas civis de agora compensariam as vítimas norte-americanas do mês passado.

Fritz Utzeri, jornalista
“Mamãezinha, minhas mãozinhas vão crescer de novo?” Jamais esquecerei a cena que vi, na TV francesa, de uma menina da Costa do Marfim falando com a enfermeira que trocava os curativos de seus dois cotos de braços. Era uma criança linda, de 4 anos, a face da inocência martirizada e que em seu sofrimento não conseguia imaginar a extensão do mal que lhe haviam feito. Não entendia e ainda tinha esperanças.
E não era caso isolado. Milhares de crianças daquele país foram selvagemente mutiladas … (como qualificar quem faz isso?) … em conseqüência de mais uma guerra, resultado tardio do colonialismo, ao criar na África países inviáveis abrigando etnias rivais, exacerbadas pelos colonizadores e massacrando-se com armas que sua gente não produz, vendidas por americanos, russos, europeus, israelenses e outros ‘civilizados’ de boa consciência e que avaliam seus lucros em lugares como o World Trade Center. Isso para não falar do Pentágono.
Justifica-se um atentado terrorista como o de Nova York? Jamais! Temos visto, dia após dia, pela TV, cenas de destruição, tristeza e desespero. Os aviões continuam entrando nas torres provocando uma espécie de anestesia e de ‘videogueimização’ muito comuns à nossa era eletrônica e voyerista. Fala-se em ‘ataque à civilização’ e dá frio na espinha ouvir o semitonto presidente Bush falar em ‘eliminar’ nações.”

Walther Cronkite, jornalista norte-americano
“Todas as ações de órgãos governamentais, incluindo os policiais e os militares, são influenciadas por interesses localizados. Autoridades querem fortalecer seus instrumentos de poder específicos e, em tempos como este, vêem uma boa oportunidade para agir. Faz parte da natureza humana. Autoridades divulgam apenas fatos e circunstâncias que beneficiem seus pleitos. Isso ocorre não só nos EUA como no resto do mundo. Numa democracia, temos que vigiar o poder de forma permanente.
Reconheço que teremos de enfrentar restrições, como documentos de identificação obrigatórios e a checagem de bolsas e malas em prédios públicos e privados. No entanto, sugestões como a da prisão de imigrantes por tempo indeterminado, uma idéia que, felizmente, está sendo rejeitada pelo Congresso, é uma aberração típica deste momento.”

Robert Kurz, sociólogo alemão
“Para o futuro é necessário encontrar uma nova forma de sociedade além do mercado e do Estado, na qual, em vez de produzir miséria em massa e loucuras terroristas, as forças produtivas da microeletrônica possam ser utilizadas com mais sensatez para os recursos sociais. O critério da rentabilidade abstrata e da economia empresarial na sua forma monetária, que permanentemente externaliza custos e leva bilhões de pessoas ao desespero, conduziu a si mesmo ao absurdo. Se não for possível superar o totalitarismo desta economia isolada de todos os compromissos sociais, o mundo afundará no caos das cegas relações de violência. O autor enlouquecido de um atentado suicida é apenas a continuidade lógica do indivíduo solitário na concorrência universalizada.”

Salman Rushdie (autor do livro Versos Satânicos que foi condenado a ser perseguido e morto pelo aiatolá Khomeini)
“O terrorista se esconde sob as injustiças do mundo para ocultar seus verdadeiros motivos. Parece improvável que entre os objetivos dos assassinos estivesse a construção de um mundo melhor. O fundamentalista busca acabar com muito mais que prédios. Eles são contra, para dar apenas uma pequena lista, liberdade de expressão, sistema político pluripartidário, sufrágio universal, um governo com responsabilidades, judeus, homossexuais, direitos das mulheres, pluralismo, secularismo, minissaia, dança, teoria da evolução e sexo. São tiranos, não muçulmanos. (O Islã é duro com suicidas, que são condenados a repetir sua morte por toda a eternidade. No entanto, os muçulmanos de todas as partes do mundo precisam analisar verdadeiramente porque a fé que amam gera tantos grupos violentos. Se o Ocidente precisa entender seus Unabombers e McVeighs, o Islã tem de enfrentar seus Bin Ladens).
O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, tem dito que agora precisamos nos definir não apenas pelo que desejamos, mas pelo que combatemos. Eu inverteria essa proposição porque atualmente somos contra uma coisa óbvia. Assassinos suicidas bateram no World Trade Center e no Pentágono e mataram milhares de pessoas: hummm, eu sou contra isso. Mas somos a favor do quê? Arriscaremos nossas vidas para defender o quê? Podemos de forma unânime concordar que vale a pena morrer por todos os itens listados acima (sim, mesmo a minissaia e a dança)?
O fundamentalista crê que não acreditamos em nada. Na sua visão de mundo, ele tem suas certezas absolutas, enquanto nós estamos mergulhados em vícios sibaríticos. Para provar seu engano, primeiro precisamos saber que ele está errado. Precisamos concordar no que importa: beijos em lugares públicos, sanduíches de bacon, diferenças, costumes avançados, literatura, generosidade, água, uma distribuição mais igualitária dos recursos do mundo, filmes, música, liberdade de pensamento, beleza, amor. Estas serão nossas armas. Não será com a guerra, mas com a forma destemida que escolhemos viver que os derrotaremos. Como derrotar o terrorismo? Não fique aterrorizado. Não deixe que o medo conduza a sua vida mesmo que esteja apavorado.”

A farsa da Progressão continuada
Um dos mais graves problemas do sistema educacional brasileiro é o da repetência. A solução para essa questão tem que ser pensada a partir de uma profunda reflexão sobre o sistema de avaliação, acompanhada de um conjunto de medidas que equipe melhor a escola pública, valorize os profissionais da educação e lhes dê melhores condições para enfrentar tal problema.
Não é o que vem fazendo a Secretaria Estadual de Educação, que optou por abordar o problema de um ponto de vista financeiro e contábil, investindo numa fórmula que prioriza a redução das estatísticas de repetência e os custos do sistema educacional.
Alheia às crescentes críticas, a S.E.E. vem mantendo um sistema de progressão continuada ou “repetência zero” que, na verdade, representa promoção automática, com resultados muito questionáveis dos pontos de vista pedagógico e educacional.
Não somos defensores da repetência nem partidários da simples utilização da avaliação como instrumento de poder do professor sobre seus alunos. Defendemos a instituição de um sistema de ciclos que agrupe os alunos por faixa etária, considerando o estágio de desenvolvimento cognitivo das crianças e dos adolescentes. O combate à repetência exige também mecanismos de acompanhamento permanente dos alunos com dificuldades de aprendizagem; melhoria substancial das condições de infra-estrutura das escolas, programas de formação, atualização e aperfeiçoamento dos professores; gestão democrática da escola e do sistema educacional; integração entre a escola e a comunidade entre outras medidas essenciais para assegurar a qualidade do ensino e a efetiva garantia do aprendizado.
A evasão, a exclusão e a repetência escolar não serão efetivamente combatidas sem mais e melhores investimentos na escola pública e na melhoria das condições salariais e de trabalho do magistério. A progressão continuada, instituída na sua real concepção, poderia significar um grande avanço para a Educação no Estado de São Paulo.

(Apeoesp – Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de São Paulo)



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