Placebo ou Resistência anticapitalista?

O leque da antiglobalização precisa decidir entre tornar-se tropa auxiliar da administração global do estado de calamidade pública ou combater as causas da própria calamidade Por Ernest Lohoff Parece que...

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O leque da antiglobalização precisa decidir entre tornar-se tropa auxiliar da administração global do estado de calamidade pública ou combater as causas da própria calamidade

Por Ernest Lohoff

Parece que nunca, nos últimos 200 anos, a crítica ao capitalismo se viu tanto na defensiva como na época do neoliberalismo. A aceleração monstruosa do processo de domação da sociedade da mercadoria, na transição do fordismo ao capitalismo de cassino, correspondeu a uma paralisação do pensamento crítico social. Motes que antigamente pertenciam ao repertório conceitual da esquerda, como “movimento” e “revolução”, foram apropriados pelo lado do adversário. Movimento não significa mais somente a dinâmica desatada do capital, e forças não-emancipatórias que transformam o mundo, mas os protagonistas da tão evocada “globalização” fazem do movimento peça de jogo de seu sistema bola-de-neve universal. Contudo, no momento, o fundo absoluto do poço parece ter sido superado.

Nos últimos anos apareceram as primeiras vozes que designaram a primazia ilimitada da economia como aquilo que realmente é – terror puro. Desde os protestos contra a conferência da OMC em Seattle, no final de 1999, move-se algo nas ruas além das love parades, feiras de rua e manifestações fascistas. O “processo de globalização” socialmente devastador que, num primeiro momento, fez emudecer a esquerda ao redor do mundo, agora tornou-se objeto central de protesto. Cada vez que as diversas organizações internacionais de economia e finanças se reúnem, seja FMI, Banco Mundial ou, como recentemente, o G-8, em Gênova, os adversários da globalização não estão longe.

A alegria ingênua sobre esse desenvolvimento, porém, não deve levar a excessiva confiança em seus lindos olhos azuis. O que está fermentando possivelmente como nova resistência tem claramente a feição duma grande paralisia da crítica social prática e teórica. O próprio novo protesto ainda é marcado – e não poderia ser diferente – pela época contra a qual se levanta. O mote “movimento antiglobalização”, que ronda atualmente, sugere muito mais coerência e unidade na sua orientação do que se pode atribuir-lhe. Sob esse rótulo se estabelece um conglomerado de impulsos e idéias que antes se excluem mutuamente do que se completam; em boa parte, isso deve ser considerado um eco da transformação do capitalismo de cassino, e não uma resposta emancipatória a ele.

Isso pode ser constatado, entre outros indícios, na ampla divulgação de conceitos de cor neokeynesiana no debate da antiglobalização. Não podemos dizer que a maioria dos manifestantes divinize o Estado inquebrantável. Mesmo assim, iniciativas como Attac, que defendem incisivamente uma taxação reforçada dos ganhos especulativos, sempre determinam essencialmente o cenário, agrupando os amantes do falecido Estado em torno do ativo jornal francês Le Monde Diplomatique.

Para isso são responsáveis, principalmente, dois fatores. De um lado, as devastações sociais que acompanham o mercado mundial desenfreado fazem com que as fases anteriores do desenvolvimento capitalista não pareçam tão ruins assim. De outro lado, a repercussão da desmontagem do anticapitalismo tradicional elaborada pelos acadêmicos fazedores de jargões de esquerda. Eles se retiraram quase em uníssono da aparentemente extinta teoria “marxiana” para as posições indicadas pelo discurso atualmente dominante, isto é, em questões econômicas, para a doutrina de Keynes.

Nessa mobilização da sociedade da mercadoria de ontem contra a de hoje, um pormenor é maquiado: o neoliberalismo de modo algum pode ser entendido como uma destruição coercitiva, motivada puramente pela política, de um capitalismo que funciona bem e com uma “face humana”. Sua marcha triunfal foi a resposta intracapitalista à miséria crônica da valorização do valor ainda amparada pelo Estado.

A mentira vital da esquerda orientada pelo neokeynesianismo, segundo a qual a lógica do mercado seria, por princípio, domesticável, reduz o anticapitalismo à oposição ao neoliberalismo. Isso não combina com as intenções mais ambiciosas divulgadas entre os adversários da globalização. Que essa tensão permaneça essencialmente latente, até agora, não se deve apenas à autoridade concentrada da “expertocracia econômica” da esquerda acadêmica, que possui ainda hoje, entre os manifestantes, certo monopólio das interpretações macroeconômicas. A coexistência pacífica parece dever-se ao fato de que algumas das reivindicações centrais e imediatas dos adversários da globalização podem ser derivadas dos argumentos da esquerda keynesiana. Mas de modo algum é preciso que se caia nas ilusões desaparelhadas da renovação de um Estado de regulação para requerer a caduca anulação das dívidas, ou combater os mais recentes acordos da OMC. O consenso mínimo sobre alguns primeiros passos antes esconde que não está clara a futura direção e que há divergências sobre o destino da viagem.

No contexto dos clássicos movimentos específicos (movimento antinuclear etc.), tais constelações paralelas/entrelaçadas mostraram-se bastante estáveis. Mas isso dificilmente se repetirá nos adversários da globalização, cujo tema universal visa à reprodução total da sociedade mundial da mercadoria. Face àquilo que já se esboça como rupturas estruturais na economia e na política econômica para os próximos anos, os adversários da globalização enfrentam o seguinte dilema: ou eles se despedem definitivamente das posições do keynesianismo de esquerda, ou se degeneram a parceiros juniores daquilo que eles combatem, ou fecham de vez as suas portas.

Comparativamente inofensivas são as idéias do tipo imposto Tobin, por trás do qual se encontra a idéia duma participação democrática na primavera permanente do capitalismo de cassino, bem como nos ganhos gigantescos da especulação “econômica”. Após o estouro da bolha do mercado financeiro, em tempos das ações baratas de “Penny-stock”, tais conceitos gloriosos desmentem-se por si próprios. Muito mais problemático é ainda outro aspecto: a despedida da política oficial de Keynes não foi de forma alguma definitiva. As esperanças daqueles críticos do neoliberalismo que mudaram de Marx para Keynes tornaram-se realidade, frente a nossos olhos, como num pesadelo. Na tentativa desesperada de frear a queda total da “economia-bola-de-chiclete”, a política econômica oficial está aplicando, em grande estilo, os instrumentos favoritos dessa espécie de críticos. Redução maciça dos juros, política expansiva de despesas estatais e um incentivo duradouro de demanda – medidas através das quais os keynesianos de esquerda esperavam uma participação de amplas camadas populacionais no crescente bem-estar – servem, na sua versão de keynesianismo de bolsa, somente para a socialização de perdas recorrentes. Nessa inversão de sinais, os adversários da globalização não só precisam superar as idéias keynesianas para ir além do mero reformismo; antes, sem uma crítica decisiva dessa conceituação no nível macroeconômico, não haverá mais nenhuma objeção mais ou menos plausível, daqui a diante, contra o comportamento econômico do G-8 e seus apêndice internacionais.

Não só a nostalgia keynesiana, como reflexo à ofensiva neoliberal das décadas de 80 e 90, vem minar o ímpeto crítico. Especialmente no cenário das ONGs presentes no amplo espectro da antiglobalização, um quarto de século de lavagem cerebral de liberalismo de mercado deixou diretamente seus rastros (“trabalho de lobby em questões da humanidade”). Não são poucas as iniciativas que interpretam também a auto-organização como auto-organização de sujeitos de mercado. Automaticamente, permanece desfocado o limite entre a auto-organização a favor ou contra o mercado e sua lógica. Numa fase em que parecia somente importar abrir aos marginalizados da dinâmica neoliberal um ou outro nicho de mercado, isso poderia talvez legitimar-se pragmaticamente como melhora pontual das condições de vida. Porém, à medida que essa própria dinâmica se rompe e a economia real capitalista no âmbito mundial se contrai, a diferença fundamental ganha contornos claros. Com o fim do neoliberalismo torna-se obsoleta uma crítica, de resto apenas reluzente, que insiste nos “riscos e efeitos colaterais” do sistema. O leque da antiglobalização precisa decidir entre tornar-se tropa auxiliar da administração global do estado de calamidade pública ou combater as causas da própria calamidade.

O grupo Krisis
A crítica ao valor e à sociedade de mercadoria é a contribuição polêmica do grupo Krisis para a teoria social crítica e para os movimentos sociais

Na década de 80 um pequeno grupo de intelectuais alemães, entre eles Robert Kurz e Ernst Lohoff, retirou-se da sua militância nos movimentos sociais e políticos, por um longo período de estudos, com o objetivo de contribuir para a reformulação da crítica social radical. O fracasso do “socialismo realmente existente” e a marginalização crescente da teoria marxista nas análises sociais levou o grupo a uma análise crítica da obra “marxiana” e a uma crítica fundamental da produção e reprodução da sociedade de mercado. A crítica ao valor e ao fetiche da mercadoria como núcleo dessas reflexões levou, também no Brasil, a certa euforia nos meios da teoria e prática da crítica social. O Colapso da Modernização (Paz e Terra) e Os Últimos Combates (Vozes), de Robert Kurz, analisaram a crise fundamental e irreversível do sistema produtor de mercadorias. O Manifesto contra o Trabalho, lançado em português pelo Laboratório de Geografia Urbana da USP (labur@edu.usp.br) e no prelo na Editora Vozes, polemizou contra fundamentos conceituais dos movimentos sociais provocando assim conflitos profundos, problemas teóricos maciços de autodefinição e, muitas vezes, um doloroso reconhecimento de incompatibilidade da própria ação prática.

O grupo publica seus textos na revista Krisis (www.krisis.org) e diversos textos estão disponíveis em português (http://planeta.clix.pt/obeco). Este texto de Lohoff foi publicado em 18 de julho de 2001 no jornal alemão Jungle World e foi traduzido por Heinz Dieter Heidemann, Caio Mello, Claudio Duarte e Marco Aurélio Gaspar.

(Texto de Heinz Dieter Heidemann, professor e pesquisador da Universidade de São Paulo)



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