Por quê?

O americano Noam Chomsky é um dos intelectuais mais respeitados do mundo e um dos mais ácidos críticos do projeto neoliberal global administrado pelos EUA. A seguir, um trecho de uma entrevista dele à rádio B92 da Iugoslávia, divulgada pelo sítio www.portoalegre2002.net

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O americano Noam Chomsky é um dos intelectuais mais respeitados do mundo e um dos mais ácidos críticos do projeto neoliberal global administrado pelos EUA. A seguir, um trecho de uma entrevista dele à rádio B92 da Iugoslávia, divulgada pelo sítio www.portoalegre2002.net

Por Noam Chomsky

Para responder a essa questão, devemos primeiro identificar os perpetradores dos crimes. Geralmente se presume, com plausibilidade, que sua origem é a região do Oriente Médio, e que os ataques provavelmente estão relacionados à rede de Osama Bin Laden, uma organização complexa e amplamente disseminada, sem dúvida inspirada por Bin Laden, mas que não necessariamente age sob seu controle. Presumamos que isso seja verdade. Então para responder a sua questão, uma pessoa sensata averiguaria o ponto de vista de Bin Laden, e as opiniões da grande massa de partidários que ele possui por toda a região. Sobre isso temos uma grande quantidade de informação. Ao longo dos anos, Bin Laden foi extensivamente entrevistado por especialistas altamente confiáveis no Oriente Médio, e em especial pelo correspondente mais eminente na região, Robert Fisk (London Independent), o qual possui conhecimento profundo de toda a região e décadas de experiência direta. Milionário Saudita, Bin Laden se tornou um líder islâmico militante na guerra para expulsar os russos do Afeganistão. Ele foi um dos muitos extremistas fundamentalistas religiosos recrutados, armados e financiados pela CIA e seus aliados nos serviços de inteligência paquistaneses para causar o máximo dano aos russos – bem possivelmente atrasando sua retirada, como muitos analistas suspeitam – embora não esteja claro e tampouco seja particularmente importante se ele pessoalmente teve contato direto com a CIA. Não há surpresa em CIA ter dado preferência aos soldados mais cruéis e fanáticos que puderam mobilizar. O resultado final almejado era destruir um regime moderado e criar outro fanático, a partir de grupos imprudentemente financiados pelos americanos, disse Simon Jenkins, correspondente do London Times, e também um especialista na região. Estes “afegãos”, como são chamados (muitos dos quais, como Bin Laden, não originários do Afeganistão), levaram a cabo operações terroristas além da fronteira da Rússia, mas essas operações terminaram depois que a Rússia se retirou. Sua guerra não era contra a Rússia, que eles desprezam, mas contra a ocupação russa e os crimes dos russos contra os muçulmanos.

Os “afegãos”, porém, não encerraram suas operações. Eles uniram-se às forças muçulmanas bósnias nas guerras dos Bálcãs; à parte de observar que a consideração pelo destino sinistro dos bósnios não era proeminente entre eles, os EUA não fizeram oposição, assim como toleraram o apoio iraniano a essas forças, por razões complexas que não precisamos apontar aqui. Os “afegãos” estão também combatendo os russos na Chechênia, e muito possivelmente estão envolvidos na execução de ataques terroristas em Moscou e outras localidades do território russo. Bin Laden e seus “afegãos” voltaram-se contra os EUA em 1990, quando esses estabeleceram bases permanentes na Arábia Saudita – sob o ponto de vista de Bin Laden, um evento similar à ocupação russa do Afeganistão, porém muito mais significativo devido ao status especial da Arábia Saudita como guardiã dos santuários mais sagrados.

Bin Laden também se opõe implacavelmente aos regimes corruptos e repressivos da região – os quais ele considera não-islâmicos – incluindo o governo da Arábia Saudita, o regime fundamentalista islâmico mais extremista do mundo, exceto pelo Taliban, e um aliado próximo dos EUA desde suas origens. Bin Laden despreza os EUA por seu apoio a esses regimes. Como outros na região, ele também se sente ultrajado pelo apoio americano de longa data à brutal ocupação militar de Israel, agora em seu 35º ano.(…).

E, como outros, ele contrasta o apoio devotado de Washington a esses crimes com a investida americana e britânica contra a população civil do Iraque ao longo da última década, que devastou essa sociedade e causou centenas de milhares de mortes, ao mesmo tempo que fortalecia Saddam Hussein – o qual foi um aliado e amigo favorecido dos EUA e do Reino Unido, mesmo em meio a suas maiores atrocidades, incluindo os ataques com gás aos curdos, como as pessoas da região bem se lembram, mesmo que os ocidentais prefiram esquecer os fatos. Essas opiniões são muito amplamente compartilhadas. O Wall Street Journal publicou em 14 de setembro uma pesquisa de opinião de muçulmanos ricos e privilegiados (banqueiros, homens de negócios com ligações estreitas com os EUA) na região do Golfo. Eles apresentaram em grande parte os mesmos pontos de vista: ressentimento em relação à política americana de apoiar os crimes de Israel e impedir o consenso internacional quanto a um acordo diplomático durante muitos anos, ao mesmo tempo em que se devastava a sociedade civil iraquiana, apoiar regimes antidemocráticos severos e repressivos por toda a região e impor barreiras ao desenvolvimento econômico por meio do “escoramento de regimes opressivos”. Entre a grande maioria de pessoas que sofrem devido à pobreza extrema e à opressão, sentimentos semelhantes são muito mais agudos, e são a fonte da fúria e do desespero que têm levado aos ataques suicidas com bombas, como são normalmente compreendidos por aqueles que estão interessados nos fatos.

O que é provável é que um ataque ao Afeganistão terá o efeito que a maioria dos analistas prevê: vai recrutar grande quantidade de pessoas para apoiar Bin Laden, como ele espera. Mesmo se ele for morto, isso fará pouca diferença. Sua voz será ouvida em cassetes que são distribuídos por todo o mundo islâmico, e é provável que ele seja reverenciado como um mártir, inspirando outros. Vale a pena ter em mente que um ataque suicida com bomba – um caminhão conduzido para dentro de uma base militar americana – expulsou do Líbano a maior força militar do mundo, vinte anos atrás. As oportunidades para tais ataques são infindáveis. E é muito difícil tomar medidas preventivas contra ataques suicidas.

(Tradução Alexandre Zorio de Mattos)



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