Programa Legal

O número de usuários de softwares livres tem crescido a olhos vistos em todo o mundo, a ponto de gigantes da informática, como a IBM e Oracle decidirem desenvolver versões de suas ferramentas para o Linux. Ou seja, cabe às organizações, sindicatos e usuários...

370 0

O número de usuários de softwares livres tem crescido a olhos vistos em todo o mundo, a ponto de gigantes da informática, como a IBM e Oracle decidirem desenvolver versões de suas ferramentas para o Linux. Ou seja, cabe às organizações, sindicatos e usuários independentes tomar as rédeas do processo e impedir que as grandes corporações se apossem de uma ideia coletiva

Por Luciana Bento

Não é uma questão de dinheiro, e sim de liberdade, fazem questão de frisar os defensores do software livre. Mas, além de um símbolo da democratização do acesso à tecnologia digital, eles também são (muito) mais baratos e atendem às mesmas necessidades dos programas proprietários. Então por que não unir o útil ao agradável? O princípio é: todos os usuários de softwares livres têm asseguradas quatro “liberdades” básicas. A primeira é executar o programa livremente, para qualquer propósito. A segunda, estudar como o programa funciona e poderadaptá-lo às suas necessidades. A terceira, redistribuir as cópias (modificadas ou não) do software. E a última: aperfeiçoar o programa e liberar cópias mais avançadas sem pedir a ninguém. Você imagina alguém fazendo isso com programas Microsoft sem que seja processado, multado ou acusado de pirataria?

No entanto, para que essas quatro “liberdades” sejam respeitadas é preciso que o código-fonte do software seja liberado. Ou seja, o criador do programa libera a “fórmula” para que seja utilizada e aprimorada pelos milhares de usuários mundo afora. As cópias disponibilizadas podem ou não ser comercializadas. É que, apesar de substancialmente mais barato, o software “free” não é necessariamente gratuito. Mas a maioria dos que o defendem e desenvolvem não tem visão mercantilista do acesso à tecnologia digital e preferem ganhar algum dinheiro com a distribuição dos programas e suporte aos usuários.

Ou seja, software livre não tem nada a ver com amadorismo. Existe uma rede profissional de apoio que se dá através de redes internacionais criadas com essa finalidade. No Brasil o serviço é prestado pela Conectiva, mas os hackers preferem uma rede de distribuição que é também entidade sem fins lucrativos: a Debian.

“Para furar o bloqueio, foram criadas várias distribuições internacionais responsáveis pelo ‘empacotamento’ de um conjunto de programas gravados em CD e dos manuais de instruções. Elas também prestam serviços de suporte aos usuários e colocam as ‘caixinhas’ nas lojas, facilitando a vida dos usuários e evitando que fiquem horas ‘baixando’ os programas pela Internet para ‘montar’ o computador. É uma forma de negócio no mundo do software livre, visto que vender a licença é proibido”, esclarece o coordenador do projeto de software livre do governo do Rio Grande do Sul, Marcelo D’Elia Branco.

O Estado é referência mundial na utilização e divulgação do uso de softwares livres. Toda a administração pública tanto do governo estadual quanto da capital, Porto Alegre, está utilizando softwares livres, baixando consideravelmente os custos com a compra de programas de computadores.

De acordo com levantamento da Procergs (empresa de processamento de dados do Rio Grande do Sul), em 1998, último ano do governo Antônio Britto (PMDB), foram gastos cerca de 3 milhões de reais em licenças do pacote de escritório Office, da Microsoft. Em 1999, primeiro ano da gestão Olívio Dutra (PT-RS), os valores caíram para 1,5 milhão de reais. Em 2000 foram de míseros 300 reais e, em 2001, menos ainda, apenas 80 reais.

Mas as iniciativas vão além. O Projeto Software Livre RS tem rede de laboratórios em empresas e universidades para o estudo do GNU/Linux e demais softwares livres, cursos para suporte da área, um consórcio editorial para publicação de livros, manuais, apostilas, a realização anual do Fórum Internacional Software Livre para a divulgação de novos programas e a criação da cooperativa autogestiva de desenvolvedores do software.

Mas a utilização do software livre tem a ver com uma perspectiva muito mais ampla: a luta contra a exclusão – de países e povos – diante de um mundo cada vez mais dependente de computadores. Diante das soluções confiáveis e dos baixos preços oferecidos pelos softwares livres, não existem motivos para o que planeta continue utilizando programas desenvolvidos e distribuídos por um só fabricante a preços cada vez maiores. Não é à toa que em vários países – sobretudo europeus – o movimento pelo uso do software livre tem crescido bastante.

Compartilhar Conhecimento
A ideia do software livre ganhou força com a criação do Linux, sistema operacional desenvolvido pelo então estudante de computação finlandês Linus Torvalds em 1991. Mas o movimento mesmo começou com o então pesquisador do Massachuchusetts Institute of Technoly (MIT), Richard Stallman. Em 1984, ele abandonou o emprego para dar início a um sistema operacional livre. Criou então o projeto GNU que, a partir de 1991, começou a ser desenvolvido com o Linux, dando início ao sistema GNU/Linux.

“O Software livre é uma forma de consciência social, que encoraja a cooperação e o espírito comunitário de compartilhar conhecimentos”, define Stallman, que é fundador da Free Software Foundation. Para ele o futuro do movimento depende da valorização que os próprios usuários fizerem do produto. Quanto mais as pessoas usarem e confiarem nos softwares livres, mais eles terão força contra os softwares proprietários.

É que um dos princípios do software livre é a colaboração entre usuários e programadores. “Toda documentação e os códigos são disponibilizados, sem segredos, e garantem desenvolvimento durante 24 horas e 7 dias por semana. Outra característica importante é que os produtos mesmo inacabados, incompletos, nas versões preliminares são entregues aos grupos de usuários para avaliação. Nesses grupos estão programadores profissionais de outras áreas de conhecimento, que detectam as falhas, sugerem modificações e solicitam novas funcionalidades. O produto é melhorado continuamente” esclarece Marcelo Branco.

Dessa forma – horizontal, alternativa e militante – os usuários de software livre (principalmente o Linux) têm crescido a olhos vistos em todo o mundo. A ponto de gigantes da informática mundial como o IBM e Oracle decidirem desenvolver versões de suas ferramentas para o Linux. Ou seja, cabe às organizações, sindicatos, tomar as rédeas do processo e impedir que as grandes corporações se apossem de uma ideia coletiva que está a serviço de um modo diferente. Em que o acesso às tecnologias esteja garantido para todos os povos e países.

Para Saber Mais:
* www.fsf.org ou www.gnu.org (site da Free Software Foundation – tem versão em português).
* www.linuxchix.org (feito pelas mulheres usuárias do Linux – em inglês).
* www.softwarelivre.rs.gov.br (sobre o projeto desenvolvido no Rio Grande do Sul – em português).
* www.revistadolinux.com.br (versão on line da revista sobre o sistema operacional Linux – em português).
* www.democraciadigital.org (sobre o movimento na América Latina e Caribe – em espanhol)



No artigo

x