Sobrevivendo no Inferno

Co-autor de Diário de um Detendo, hit dos Racionais MCs, Jocenir lança livro homônimo em que testemunha o inferno de sua passagem pelo universo carcerário

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Co-autor de Diário de um Detendo, hit dos Racionais MCs, Jocenir lança livro homônimo em que testemunha o inferno de sua passagem pelo universo carcerário

Por Carlos Eduardo de Oliveira

Final de tarde de 13 de novembro, 1998. Sob chuva torrencial, um homem caminha em silêncio pelo acostamento esburacado de estrada vicinal do interior paulista. Acompanhando-o, segue, em marcha lenta, um carro. A cena encontra significado apenas no íntimo do protagonista e seus familiares: era a solitária comemoração de um renascimento. “Queria ter novamente a sensação de andar sem ter nenhum muro à minha frente”, conta Josemir José Fernandes Prado, 50 anos, o Miro – ou Jocenir, seu pseudônimo literário, por força de um erro de grafia – que encerrava naquele momento um ciclo dos piores pesadelos extraídos de Dante.

A rocambolesca situação que o levou à prisão até hoje é obscura e mal explicada. Preso em frente a um depósito de cargas roubadas, o paulistano Jocenir sempre proclamou inocência, afirmando ser bode expiatório de uma tramóia policial. Nascido na classe média, na época em que foi preso era vendedor de materiais elétricos numa multinacional, tinha carro do ano e casa própria. A vida carcerária mandou tudo isso pelo ralo. Seu karma: decifrar a medusa amoral, violenta, corrupta e profana chamada cadeia, que agora se prostrava a sua frente. Antes que conseguisse, viveu o diabo e perambulou pelo sistema carcerário até chegar ao Carandiru onde, para não ser achacado, colocou seu bom português a serviço dos detentos – cartas para parentes, poesias para namoradas, essas coisas. Virou o Tiozinho, um escriba full time. Sua fama pulou o muro e encontrou Mano Brown. Nascia Diário de um Detento, rap e livro – um explosivo 3×4 do sistema carcerário do país com tal concentração de TNT como até hoje ninguém encerrou em páginas. “Um homem nunca mais é o mesmo depois da cadeia”, não se cansa de repetir o autor. A frase é feita, perfumada. Mas sabe aquele videoclipe de Diário de um Detento? É tudo de verdade.

Fórum – Há mesmo tantas mortes não divulgadas na Detenção, como você alega?
Jocenir – Lá dentro ocorrem fatos não divulgados porque depõem contra o sistema. A imagem do presídio é maquiada para a imprensa e para a sociedade. Não há estatística, mas ocorrem muito mais mortes do que é divulgado. Acertos de contas, confrontos de inimigos, cobranças de traficantes fazem parte do cotidiano.

Qual o aspecto do sistema carcerário do país que sociedade e autoridades não conseguem decifrar?
Em todo lugar existem formas diferentes de viver e pensar. Culturas diferentes, mas baseadas pela moralidade. Na cadeia, não. Prevalece a cultura delinqüente. Um mundo à parte, amoral, no qual prevalece a moralidade dos delinqüentes. Ninguém que não tenha vivido lá, seja sociólogo, padre, detetive, consegue entender esse código do banditismo. Mas que existe, existe.

Nesse sentido, acha que falta a Estação Carandiru, best-seller do médico Drauzio Varella, um mergulho mais profundo?
O doutor Drauzio fez uma narrativa como só ele poderia ter feito, em virtude de seu trabalho na Detenção. Mas diariamente ele ia embora, deixando todo o clima emocional na portaria. Ele narrou a Detenção como vê: com olhos de visitante. Estar do lado de dentro rende outro tipo de história.

Ao sair da cadeia e ouvir a música pela primeira vez, conseguiu estabelecer o que é seu texto e o que é do Brown?
Não consegui identificar nem que eu tivesse alguma participação. Aquela letra, musicada, adquire conotação diferente. Eu a escrevi como um desabafo, metade prosa, metade verso, e o Brown adaptou à linguagem rapper.

Há quem aponte o surgimento de um novo segmento literário, aberto por Estação Carandiru e seguido por livros como o seu, o de Hosmani Ramos e outros. Concorda?
Esses livros representam um universo que a sociedade livre desconhece. Até hoje, tudo que se fala e escreve sobre sistema carcerário reflete a maquiagem do governo adequada a seus objetivos. Agora surgem livros em que se pode conhecer o que realmente é o sistema carcerário.

As próximas rebeliões serão maiores do que as já vistas?
É um risco. Já que o poder público atira homens atrás das muralhas e se esquece deles, esperar que um dia não reivindiquem seus direitos é utopia. Há muito tempo facções e grupos vêm se organizando para cobrar as autoridades. O lema é: conciliar a paz de forma violenta. Não tem bandeira nem sindicato, os caras vão buscar a voz ativa do único jeito que conhecem: pela violência.

Ainda há tempo de evitá-las?
O poder público tem tudo para isso, através da assistência ao preso. Através da laborterapia, porque todo preso quer se ocupar. Mas na ociosidade, e com abundância de drogas, fica difícil avaliar o que vem pela frente.

O Primeiro Comando da Capital (PCC) é mesmo todo-poderoso como alardeia?
É a facção que mais cresceu nos presídios. Sobre números, não se tem idéia. Que seu poderio é grande é um fato. A intensidade é que ainda não se sabe.

O PCC protege realmente o preso?
Quem é simpático a ele, sim. No momento em que alguém não se encaixa em seus ideais de paz, liberdade e dignidade, não. A proteção vem através de assistência financeira às famílias.

Existe aproximação entre lideranças carcerárias paulistas e as do Rio de Janeiro?
Acho difícil, o PCC hoje tem muito mais visibilidade. A diferença é que o PCC foi formado por elementos perigosos dos presídios paulistas unidos num único local, a casa de custódia de Taubaté. Já o Comando Vermelho teve influência dos presos políticos, na época do regime militar, mas com o tempo desvirtuou qualquer ideal.

Qual o peso do Conselho Democrático da Liberdade (CDL), entidade que você ajudou, redigindo o estatuto?
O CDL é rival do PCC. Um adversário dentro dos presídios. Onde existe PCC não existe CDL, e vice-versa – não há cadeia neutra. E não há convivência pacífica entre eles. Se um integrante da facção cai na cadeia dominada pela outra há confronto. Ajudei a redigir o estatuto, parou aí, nunca me envolvi. Não simpatizo com nenhum deles, seu código moral é diferente do meu. Mas tenho amigos dos dois lados”.

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, já declarou que em nenhuma hipótese negociará com presos em caso de novos movimentos carcerários.
Ele tem seus pontos de vista, mas é imprevisível saber o ônus que arcará com essa posição. O que tem que ser dito é o seguinte: dentro da cadeia não existem “comédias”, existem homens criminosos que, quando se propõem a fazer uma coisa, fazem. Ninguém lá tem medo das conseqüências, não é o poder público nem a polícia que vai refreá-los.

Seu relato tem passagens amargas, mas revela um mundo de solidariedade e apoio mútuo nas cadeias. Isso vale para todos?
Só não existe pros ‘laranjas’, os que assinam crimes de outros presos, e para estupradores. Existe a solidariedade dos mais fortes para com os mais humildes, que são aqueles que desconhecem o mundo do crime. Entre bandido forte também existe respeito e solidariedade.
Por que não se consegue acabar com a corrupção e o tráfico de drogas dentro das prisões?
Com tanto dinheiro rolando o sistema fica conivente. Enquanto houver agentes penitenciários ganhando mal, isso não acaba. A maioria é corrupta, são eles que colocam a droga para dentro.

Pretende continuar a escrever?
Se através desse livro conseguir alguma estabilidade financeira passarei o resto dos meus dias usando a caneta.

Diário de um Detento
Labortexto Editorial (3664-7500) 182 páginas, R$ 18.
Contatos com o autor: 0800-770-0334
E-mail: jocenir@diariodeumdetento.com.br



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