Um belo drible não impede o gol

Quem pensa que essa moça delicada, com cara de menininha, está assustada com a repercussão de suas declarações a respeito de fumar maconha, engana-se. Ela está enfrentando a polêmica com tranqüilidade budista Por Renato Rovai...

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Quem pensa que essa moça delicada, com cara de menininha, está assustada com a repercussão de suas declarações a respeito de fumar maconha, engana-se. Ela está enfrentando a polêmica com tranqüilidade budista

Por Renato Rovai e Frédi Vasconcelos

 

Sonia Francine é Ph.D. em juventude. Faz mais de uma década que apresenta programas para a garotada. Entre eles, Barraco MTV, tribuna aberta para debates que fez grande sucesso; e RG, que acontecia na TV Cultura, emissora da qual foi despedida pela coragem de enfrentar um caro debate. Disse, de cara limpa e sem meias-voltas, que fuma maconha. Não falou, assim: “um dia eu fumei” ou “já experimentei”. Ou como o ex-presidente norte-americano Bill Clinton: “fumei e não traguei”. Com muita sobriedade, numa reportagem da revista Época (que, de maneira grotesca, destacou a capa com o seu rosto e a frase eu fumo maconha em outdoors pelo Brasil inteiro) disse, em resumo, que usava de vez em quando, trabalhava, pagava suas contas e que achava um absurdo o fato de alguém ser enquadrado como criminoso porque fuma um cigarro da erva. O resultado gerou enorme polêmica, que Soninha sabia iria acontecer.

Mas engana-se quem pensa que por ser Soninha, ela é tadinha, ingenuazinha, coitadinha, bobinha e outras inhas. Soninha sabe o que fala, é segura e não foi iludida por ninguém para tratar do assunto. Acha importante discutir o tema das drogas e como a sociedade deve tratá-las. Nesta entrevista exclusiva concedida à Fórum, apresenta seus argumentos, indo além do lugar comum. Talvez por isso algumas pessoas ficaram tão enlouquecidas quando viram que ela entrou na briga.

Eles não quiseram entender
É evidente que muita gente não entendeu nada. Entre as pessoas que entenderam, vejo muitas concordando com o que eu disse, mesmo não gostando de maconha nem querendo fumar. E teve a coisa do por quê eu disse? Agora muitos não entenderam e outros, na verdade, nem tentaram. Algum dia vou fazer pós-graduação sobre coisas que as pessoas vêem e ouvem sem prestar atenção, sobre o que lêem e não entendem. Isso é o que mais me incomodou. A quantidade de gente que leu e não entendeu e uma outra parte que nem leu e saiu tirando conclusões. Essa parte é especialmente irritante. Os que se dispuseram a falar comigo deram apoio. Um ou outro se disse decepcionado ao saber que fumo maconha. Outros falaram que eu não deveria ter exposto esse aspecto da minha vida particular. Acham que fumar é uma coisa particular e não faz mal a ninguém. Se fumar dentro da minha casa não é problema e ninguém tem nada a ver com isso, então por que é crime, por que posso ir pra cadeia ou pagar multa por fumar?

Distinções necessárias
Na história das drogas, por exemplo, o máximo de avanço que tínhamos até hoje era a distinção entre usuário e traficante. O traficante precisa ir para a cadeia e o usuário necessita de tratamento. Hoje já há pequeno avanço ao se considerar que existem pelo menos dois tipos de usuários. Um que é dependente e precisa de tratamento e o que não é dependente nem doente. Mas mesmo dentro dos não-dependentes há subdivisões. Entre os jovens, seja o que mora no Jardins, seja o da favela, tem o cara que fuma maconha como contestação, porque é proibido, porque os pais dele não gostariam que ele fumasse, porque vai fazer parte de outra turma. E tem o cara que não quer contestar porra nenhuma que, se pudesse, fumava no cinema, na praia, em qualquer lugar. Ele fuma porque gosta. Aí já tem outra divisão. E nessa parte da contestação há mais dois ramos. A parte que é comum da idade, de o jovem não saber se quer fazer parte desse mundo que estão prometendo ou ameaçando: “Um dia você vai entrar pra faculdade, se formar, ter filhos…” Tem hora que isso parece ameaça. Quem disse que é isso que ele está planejando? Mas tem o cara que quer mesmo ser do contra, transgredir. É o que se aproxima pelas drogas com outro projeto de vida, o da marginalidade, da criminalidade. De repente ele quer ganhar dinheiro pra se vestir bem. A questão é como ele vai ganhar esse dinheiro. São coisas diferentes. Um vai roubar para ter um tênis bom. Outro vai dizer: “tênis bom? Foda-se a marca do tênis”. E o primeiro pode ser visto como ajustado ao sistema, veste-se bem, quer consumir, quer um carro bacana. E ele é ladrão e quer ser ladrão para ser respeitado pelo carro bom que tem. Olha que caminho torto. Ele aceitou uma parte do que o sistema lhe vendeu: carro bom, vestir bem, aparelho de CD último modelo. Só que ele rouba para isso.

Classes sociais e a lei
Se o promotor e o juiz for o policial, tanto o usuário dos Jardins quanto o da periferia vão levar tapa na rua. A diferença é quanto eles vão dar pro guarda. O da periferia vai dar 10 ou 20 reais. O do Jardins, um cheque de 300, sei lá quanto. O cara que é pego na estrada para Parati (RJ), num posto da polícia rodoviária que é muito famoso, pode dançar ainda mais legal. Já vi estrangeiro tendo de dar 1,5 mil dólares pro guarda. O pobre paga menos e o rico mais. Se ele chega na delegacia, o tratamento vai ficando diferente. O filho do bacana talvez
seja condenado a se apresentar tantas vezes, assinar o livro, provar que está trabalhando ou estudando. Conheço um caso desses, de um cara classe média, que não foi preso e teve esse tratamento. Mas não conheço nenhum caso de favela assim. O outro problema écaracterizar como 12 ou 16 (artigos da lei que dispõem sobre o uso e o tráfico). O filho do Pitta (Celso, ex-prefeito de São Paulo) – nem gosto de falar disso – se não fosse o filho do Pitta, com 100 gramas no porta-malas, seria preso imediatamente, enquadrado em tráfico, crime inafiançável. Ninguém que chega com 100 gramas na delegacia vai deixar de ser enquadrado por tráfico. Aí tem todas as histórias escabrosas de moleque nem era de favela, mas de classe média mais baixa, que ficou oitenta dias presos pra responder processo como traficante. Estava indo pra praia com três amigos e levando “pro feriado” de Carnaval o suficiente pros quatro fumarem. Pela quantidade, pimba, tráfico.

Experiências internacionais
Gosto das da Holanda, de Portugal e da Inglaterra. A de Portugal tem certa incoerência, é como falam aqui no Brasil, que tem de descriminalizar o uso, mas não o tráfico. Mesmo que se permita que as pessoas plantem a maconha para seu próprio consumo, como dizer que se pode ter, mas não comprar? E se comprar, quem vendeu pode ser preso? Não tem como funcionar. Ou você legaliza, regulamenta e controla a venda ou não tem como dizer que pode usar, mas não vender. Parece que em Portugal continua sendo proibido o porte, mesmo que você esteja levando só para seu uso, ainda fica sujeito a uma pena administrativa. Não é crime, mas tem de pagar multa. Pra mim, tem essa incoerência básica. Agora, em Londres, criaram uma área onde o consumo é permitido. Acho uma boa tentativa. E a polícia da região aprovou a medida, porque calculou o quanto de tempo gastava para lavrar o flagrante, fazer a ficha etc. e viu que poderia usar esse tempo para coisas mais produtivas. E tem a experiência da Holanda, muito interessante. Um lugar em que se pode adquirir determinada quantidade, controlada. A limitação por idade é desejável, mas tem uma limitação pro álcool que não funciona. Existe a lei, mas não é cumprida. O limite espacial é mais fácil de estabelecer. Ou fuma em casa ou em lugares estabelecidos. Se for uma casa de show, tem fumódromo. Por exemplo, se você não quer nem chegar perto, nem vai ao segundo andar, que é o espaço de quem fuma.

Jovens de ontem e hoje
Tem uma coisa na matéria da Época do tipo “cada vez mais se fuma maconha”. Quem sabe se é isso mesmo? Baseado em quê? (risos) Conheço muita gente casada e com filhos que fala “fumei muito nos anos 60 e 70 e hoje não fumo mais”. Também é uma bobagem dizer que os jovens dos anos 60 eram superengajados e que os de hoje não são, como se toda a juventude daquela época fosse superpolitizada e consciente, sendo que eles eram acusados de alienados porque gostavam de rock. Os mais velhos diziam que era uma música fútil, que só tinha sexo e drogas. Para os que eram conscientes o rock podia ser a música da revolução. Mas pra quantos? Só pra alguns, pra outros era puro prazer e diversão, hedonismo mesmo. É uma puta sacanagem comparar gerações e estabelecer que aquela era a boa, engajada. Hoje você tem outros tipos de engajamento. Hoje em dia, mesmo os mais engajados e interessados não vêem a política como meio de expressão.

Participação política Sou superinteressada em política, mas não vejo problema no outro que não se interessa. Ele tem esse direito. Sempre que íamos falar de política no RG (programa que apresentava quando foi demitida pela TV Cultura) começava quase com um pedido de desculpas. “Senta aqui, daqui a pouco vai tocar uma banda, vai ter um grupo de capoeira, mas a gente vai falar de política antes. Você não pode pensar que não tem nada a ver com isso, se você vota ou não, se acha que seu voto vale ou não. Tem a ver com tudo, com o ônibus, com o seu lazer, com o preço das coisas no supermercado, tudo tem política, tanto a oficial quanto a do futebol….” Sempre tinha de começar o programa pedindo um minuto de atenção. Mas acho supercompreensivo. Tive a sorte de ter lido bons colunistas e ouvido muito minha mãe falar de política. E li colunistas bárbaros, e hoje percebo a diferença que isso fez. Fábio Rangel, na Folha, Aloísio Biondi, no ShoppingNews, um jornal que chegava de graça na minha casa. Eu adorava. Ganhei uma assinatura da IstoÉ e lia o Henfil. As freiras do meu colégio eram totalmente teologia da libertação. Estudava Dom Helder Câmara, Dom Pedro Casaldáglia, arrecadava mantimentos pros metalúrgicos em greve. Cresci nesse ambiente. Mas tenho certeza de que das 42 meninas da minha classe, duas ou três se interessaram por política.

Mídia e temas polêmicos Toda vez que a mídia tenta falar de certas coisas o faz de uma maneira educativa. Ela é didática, abre um quadro, um espaço especial pra explicar. Isso acaba reforçando algumas diferenças. E quando não trata didaticamente, escorrega e esbarra nos preconceitos. Numa notinha do jornal O Globo li outro dia algo assim: “Viciados não vão mais para a cadeia”. A nota explicava um projeto de lei que tinha passado no Congresso. Viciado foi o termo. Você também vê o tempo todo no noticiário as pessoas falando usuário, que também é uma palavra feia. As pessoas usam esse termo mesmo defendendo. A maioria não é viciada nem usuária, é fumante de maconha, ponto. Em geral são dois os problemas da mídia: a má intenção deliberada, quando o cara é preconceituoso, e o mau hábito, que é difícil de combater porque a pessoa reproduz um tipo de linguagem ou comportamento e nem percebe que está sendo sacana, injusta. Por exemplo, essa história de “homossexualidade”, eu li uma recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde) dizendo: “não é doença, então não usem o sufixo �ismo� “. E a gente ainda fala homossexualismo, sendo que é só sexualidade. É louco. Mesmo quando você tenta uma abordagem moderna, diferente, cai no “é uma opção e ninguém tem nada a ver com isso”. E eles vão dizer: “não é uma opção, se eu pudesse não seria homossexual, dá muito mais trabalho, não pode namorar na rua”. É uma cultura muito difícil de mudar.

Eles sabem muito, os outros nada
O que acontece é que o jovem fica com a sensação de que ele sabe muito e os outros não sabem nada. Sabe de um monte de gente que fuma na escola, na praia, na faculdade, na festa, no show. Ele sabe que as pessoas fumam, que pegam um “bongue”, têm queda de pressão, às vezes passam mal. Mas ele sabe, os pais não sabem, estão por fora. Mas tem horas que ele não sabe e não vai engolir a informação, “afinal esses caras não sabem de nada”. Cria-se essa diferença. A mãe pode falar o que for, ter até razão, mas ele não vai acreditar. O que ela sabe? O que o governo sabe, ou a professora? Quando dizem que maconha leva a outras drogas, os jovens sabem que é mentira. Sabem que o que leva a outras drogas é a vontade de experimentá-las. O que leva a cheirar cocaína é a vontade de cheirar, não o fato de ter usado maconha. Quais são os dados que usam pra dizer que a maconha leva a outras drogas? Os dados dos que estão internados, presos. Se chega um dependente de cocaína, heroína, crack, esse já passou por todas. Mas eles não têm os dados daqueles que usam maconha, experimentaram outras drogas e não gostaram.

Eu líder?
Pra um determinado grupo eu sou líder. Não sei se líder, mas influência. Também liderança só funciona no contato direto. Como primeira referência, o jovem tem o cara da classe, o cara da rua, da família. O que é líder na classe tem as referências dele e serve de intermediário. Através da internet, do jornal, da mídia, o porquê de ele participar de um grupo, de uma ONG. O mais forte entre os jovens é o contato pessoal, o intercâmbio, é onde forma o repertório, o conjunto de atitudes e valores. Hoje então tem uma geração de descendentes do Frota, do Supla, da Bárbara. São uns “puta” modelos, com 55 pontos de audiência. Será que eles vão imitar o Supla? Mas eles vão pintar o cabelo de verde ou se comportarem como um lorde? E as meninas que amam a Bárbara. O que vão copiar? Uma tatuagem ou vão desencanar da aparência e sair por aí descabeladas? Mesmo sendo a Bárbara, o xodó nacional e a nova namoradinha do Brasil, cada menina vai copiar o que sente e faz parte do seu mundo. Pode até usar a mesma gíria da Bárbara, mas desencanar da aparência não, ela ainda vai passar o cabelo na chapinha, fazer academia. Existem os ícones, as influências todas, mas se as amigas dela alisam o cabelo na chapinha e no baile em que ela vai todo mundo tá arrumadinho, ela não vai imitar a Bárbara nesse ponto. Ela quer impressionar os amigos de perto, o menino que vê na rua. Você vai a Heliópolis (apontada como a maior favela de São Paulo), elas têm o mesmo padrão da revista, a calça baixa, o “topzinho”. Só que são gordinhas, têm a barriguinha flácida e deixam, na boa, fora da calça. Foda-se. Isso é que é legal. Ela pega uma parte do padrão. A calça é a mesma, meio rasgada, meio desbotada, mas a cinturinha ela não tem, malhada ela não é, mas é gostosa com a barriguinha. Isso é demais.

Otimismo e pessimismo
Minha religião, o budismo, é essencialmente pessimista numa abordagem mais superficial. O primeiro ensinamento: a vida é sofrimento. Não adianta tentar fazer dar certo. Não vai dar certo. Não funciona, você não vai conseguir convencer as pessoas das suas idéias, não vai administrar todas as condições pra dar certo. Se conseguir o trabalho dos seus sonhos, no dia seguinte vai ter um problema. Vai casar com o cara que quis e vocês vão brigar. E mesmo que tudo venha a dar certo, você vai morrer no final. E você não vai querer morrer, porque tava tudo tão bom. Mas tem uma saída, a forma como lida com as coisas. Em vez de sofrer porque choveu, porque seu chefe o trata mal, porque o país é uma merda, reaja da melhor maneira possível. Tente passar os obstáculos para melhorar o que puder ser melhorado. Perfeito não será, mas pode melhorar. Partindo dessa premissa, de que não vai dar certo, de que bom não vai ser nem aqui nem na Suíça, mas de que pode melhorar, vou em frente. Acho que posso ajudar a melhorar. E muita gente acredita também. É um otimismo partindo do princípio de que não vai dar tudo certo. Já que alguém vai perder, então vou jogar bonito. Já que futebol feio não garante o resultado, eu prefiro jogar bonito, porque sei que tem gente jogando bonito. O futebol pode estar uma merda, mas teve um drible “duca”. Palmas para o drible. Não apagou o placar, não mudou o resultado, mas olha essa jogada… E um drible não impede um gol.



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